
Editor: Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
07.12.2005
CARIOCAS MERGULHAM NA CULTURA LATINO-AMERICANA
Por Mário Augusto Jakobskind - redacao@fazendomedia.com
(continuação)
Movimentos sociais e a contracultura
Na parte da tarde, antes do começo do segundo debate, houve a maravilhosa apresentação do coral da ASA (Associação Scholem Aleichim), que fez toda a platéia ficar encantada, com músicas brasileiras, latino-americanas e espanholas (da época da Guerra Civil), com maestria, a apresentação fez com que a platéia aplaudisse de pé e demoradamente estes representantes de uma organização social progressista que sempre apoiou os pleitos mais justos da sociedade brasileira.
Depois houve debates sobre Os Movimentos Sociais e a Contracultura. O presidente do SISEJUFE-RJ, Roberto Ponciano, destacou a importância de os brasileiros de um modo geral e os trabalhadores em especial, se voltarem para as questões da cultura, conhecendo melhor, por exemplo, figuras como a poetisa chilena Gabriela Mistral, os compositores chilenos Victor Jara, Violeta Para, o brasileiro Luiz Gonzaga, do que as idolatradas pela mídia convencional como uma Madona, por exemplo. Ponciano chamou atenção também para o fato de que não raramente alguns setores da sociedade, inclusive no movimento sindical, darem pouca importância a essa questão, quando se sabe que um dos pilares para a quebra e o enfraquecimento de um país é exatamente a destruição de sua identidade cultural. Ele também ressaltou que parte da esquerda, sectária, pretende construir um projeto de País que não passa pelo povo brasileiro, por suas especificidades, que no Brasil não existe apenas um país, mas vários países e várias nações multifacéticas e que é deste amálgama de culturas que será possível, de maneira revolucionária, construir um projeto de um outro mundo possível no Brasil e que este mundo só pode ser socialista, mas de um socialismo que abarque todas as manifestações brasileiras, como o jongo, o samba, o frevo, a congada, o reisado, o bumba-meu-boi, o maxixe, a capoeira, o afoxé, o fandango, o balaio, a chula, o carimbó, o xaxado, o maracatu, o maculelê, o forró, as marujadas, o carnaval.
As lutas específicas das mulheres e dos negros
Yedo Ferreira, do Movimento Negro Unificado - MNU e Eleutéria Amora, da Marcha Mundial das Mulheres/Brasil, destacaram a importância das lutas específicas dos segmentos que representam no contexto da integração latino-americana.
Eleutéria Amora, da Casa da Mulher Trabalhadora e do Comitê da Marcha Mundial das Mulheres destacou a luta e mobilização das mulheres em todo o mundo com mais justiça social e igualdade de condições de vida. Para ela não se pode esquecer que embora tenham conseguido conquistas importantes, as mulheres continuam sendo vítimas de uma dupla jornada de trabalho e ainda sofrem violências em seu dia-a-dia. Ela exibiu o filme sobre a última marcha das mulheres, numa mostra que arrepiou a platéia e fez questão de colocar as dificuldades que a mulher trabalhadora, assalariada e pobre enfrenta no seu dia-a-dia. Eleutéria disse que a luta de gênero da mulher só pode ser progressista, socialista, de classe, haja vista que as mulheres são as mais exploradas e oprimidas no sistema capitalista, recebem os menores salários pelos mesmos serviços e passam por discriminações e constrangimentos de que não são vítimas os homens. Que as mulheres não querem nenhuma revanche, ou uma sociedade na qual os papéis de dominação se invertam, mas igualdade de direitos para que possamos todos ter uma sociedade realmente livre.
Yedo Ferreira fez uma exposição sobre a mobilização do movimento negro nos últimos anos, observando que não se pode colocar debaixo do tapete a existência do racismo no Brasil. Para ele, uma das formas de enfrentar essa questão é exatamente fazer o que se estava fazendo neste I Encontro Latino-Americano Raízes da América - Cultura de Resistência, ou seja, debater o tema, sem preconceitos. Yedo Ferreira elogiou a política de quotas que vem sendo desenvolvida na área educacional, "uma prática de suma importância para compensar as injustiças acumuladas desde a libertação dos escravos, quando a comunidade negra foi relegada pelos sucessivos governos brasileiros". Também ressaltou que um projeto revolucionário para os movimentos sociais, como o movimento negro, é um projeto que não passa só pela economia, antes é étnico e cultural, levando-se em conta as aspirações dos sujeitos sociais multidiversos existentes no Brasil. O professor também explicou como se deu a formação do Brasil, com o negro relegado depois da escravidão à indigência, já que o Estado exportou mão-de-obra para embranquecer o Brasil e o negro ficou então relegado aos piores papéis dentro da sociedade, construindo-se uma elitização pela cor da pele. Não será possível fazer qualquer movimento revolucionário no Brasil que não leve em consideração o negro, já que este é, em sua maior parte, o sujeito mais explorado no Brasil, a maior parte do proletariado brasileiro.
Mídia e Contracultura
A mesa sobre mídia e a comunicação alternativa, que contou com a participação, do cineasta Silvio Tendler; de Cláudio Salles, representante das rádios comunitárias; dos jornalistas Mário Augusto Jakobskind e de Beatriz Bissio, destacou a importância da imprensa alternativa à grande mídia no sentido de os cidadãos latino-americanos se conhecerem melhor entre si e as suas realidades. Os debatedores foram unânimes em apoiar o conceito do pensador italiano Umberto Eco, segundo a qual a "democracia na verdadeira acepção da palavra pressupõe que todos os segmentos sociais tenham vez e voz em pé de igualdade".
Silvio Tendler, considerado um dos expoentes do cinema brasileiros na área de documentários, explicou as dificuldades para a exibição de filmes latino-americanos nos circuitos de cinema do Brasil. É por esse motivo que se explica a falta de conhecimento sobre importantes trabalhos cinematográficos de países como Argentina, México, Cuba e demais do continente. Sílvio também criticou a estética americana imposta ao cinema brasileiro, que está levando a que tenhamos um olhar diferente para as produções nacionais, que vão sendo pasteurizadas e ficando cada vez mais parecidas com as do amo.
Cláudio Salles, da rádio comunitária Pop Goiaba, recentemente fechada pelo governo, falou da importância adquirida nos últimos anos por esse setor da comunicação. Ele criticou o governo Lula pelo fato de nos últimos três anos terem sido fechados mais 30% de rádios comunitárias do que no anterior governo. Ele mostrou a importância da luta pela manutenção destas rádios como um dos caminhos da luta pela democratização dos meios de comunicação.
Beatriz Bissio, editora dos Cadernos do Terceiro Mundo, fez um breve histórico dessa publicação alternativa, que se ocupa de questões latino-americanas e do Terceiro Mundo de um modo geral. Ela criticou a cobertura deficiente da grande mídia conservadora sobre a América Latina e ressaltou a importância de descortinarmos novos caminhos, alternativos, como a TELESUL, para que possamos fazer um trabalho de contra-hegemonia.
Mário Augusto Jakobskind destacou a importância do aparecimento da TELESUL, o canal de integração latino-americana que pode ser visto no Rio de Janeiro pelo canal 6 da Net ou ainda pela TVE do Paraná, captada por antena parabólica. Jakobskind conclamou o movimento sindical a se engajar na luta pela democratização da mídia e sugeriu que se iniciasse o mais rápido possível uma campanha para tornar as TVs Senado, Câmara dos Deputados e da Justiça acessíveis para o público através de canais abertos. Defendeu também que se exigisse dos legisladores permitirem que as rádios e TVs comunitárias funcionassem em rede.
O I Encontro Latino-americano Raízes da América - Cultura de Resistência terminou com a apresentação de um show de música de raiz e latino-americana que teve a participação de Darcy da Mangueira, Monarco e do grupo Raíces de América.