
Editor: Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
07.12.2005
CARIOCAS MERGULHAM NA CULTURA LATINO-AMERICANA
Por Mário Augusto Jakobskind - redacao@fazendomedia.com
Um olhar profundo sobre a América Latina, com ênfase na questão cultural, sem triagens e intermediários das agências internacionais e da grande mídia conservadora. Estes foram os principais pontos apresentados no I Encontro Latino-Americano Raízes da América - Cultura de Resistência, organizado pelo SISEJUFE-RJ com apoio de entidades como a FENAJUFE, o SINTRAJUFE-RS, o SINDIPETRO Duque de Caxias, o MST e a Associação para o Desenvolvimento da Imprensa Alternativa (ADIA), realizado no sábado (26 de novembro) na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) com a participação de centenas de pessoas.
Para Jesus Chediak, diretor cultural da ABI, este Encontro foi o mais importante ato cultural e político realizado na Associação este ano.
Abertura dos trabalhos
O evento teve início com a participação do maravilhoso grupo de dança Pé de Chinelo, que apresentou danças típicas de vários lugares do Brasil, desde o jongo e a umbigada, até o coco. A platéia dançou com os artistas numa ciranda que nos fez voltar à infância. Os companheiros do grupo fizeram questão de dizer que militam através da dança como forma de resistência cultural.
Os trabalhos do I Encontro Latino-Americano Raízes da América - Cultura de Resistência foram abertos com uma mesa composta pelas entidades participantes do evento, composta pelo Diretor do SISEJUFE-RJ, Roberto Ponciano; pela Coordenadora Geral da Federação, Maria da Graça; pela representante do Governo da República Bolivariana da Venezuela, antropóloga Christian Valles; Evelaine Martinez, representante do MST; Denise Rosane, diretora do SINTRAJUFE-RS e pelo companheiro Achille Lollo, representante da ADIA. Antes da saudação da mesa de abertura ao público, todos cantaram de pé o hino dos trabalhadores, emocionalmente executado e acompanhado em uníssono, celebrando o espírito de solidariedade internacionalista que teve o encontro. Todos os palestrantes, em suas falações, ressaltaram a importância do evento para que a América Latina se construa como uma irmandade, não só de mercados, como de povos na luta pela libertação e pela construção da Pátria Grande. Elogiaram a iniciativa da diretoria do SISEJUFE-RJ em promover um evento como o que se iniciava, por se tratar de uma atividade que certamente fará com que o movimento sindical se convença em definitivo da importância da cultura para os trabalhadores. Maria das Graças assinalou ainda que este I Encontro Latino-Americano Raízes da América - Cultura de Resistência, também serve de mobilização para o Fórum Social das Américas, que acontecerá em Caracas, a capital venezuelana, em janeiro de 2006. Segundo a diretora da FENAJUFE, o Fórum Social será um "momento em que todas as organizações que defendem a democracia, a justiça social e igualdade de direitos estarão refletindo sobre as alternativas para a construção de uma vida digna para todos e todas".
Brasil, Cuba e Venezuela na primeira mesa de debates
O I Encontro Latino-Americano Raízes da América - Cultura de Resistência prosseguiu no sábado com debates sobre o tema de A (des)construção das identidades latino-americanas, com a participação da antropóloga Christian Valles, do Ministério da Cultura da República Bolivariana da Venezuela; do cineasta Orlando Senna, secretário executivo de Audiovisual do Ministério da Cultura do Brasil; e do jornalista Abel Sardiña, correspondente da agência cubana Prensa Latina, tendo como moderador Roberto Ponciano.
Senna, que participou, nos anos 80, da criação e implantação da Fundação do Novo Cinema Latino-americano e do seu projeto mais importante, a Escola de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, destacou a importância da integração latino-americana e os esforços do setor que ele dirige no sentido de priorizar a ampliação do Mercosul para toda a América, do México à Argentina, do Rio Grande à Patagônia. "Na verdade", assinalou, "essa é a meta traçada por Bolívar, uma União Latino-Americana, uma comunidade econômica e cultural, apelidada pelo próprio Bolívar, poeticamente, de Pátria Grande".
Para Senna, as vias de acesso que possibilitem aos brasileiros conhecer o continente a que pertencem passam por três movimentos relacionados, interdependentes: "os brasileiros conhecerem o Brasil, que é a metade do continente, os brasileiros conhecerem os outros países, estabelecendo contato com as outras culturas dessa Pátria Grande". O terceiro movimento consiste de "as pessoas e instituições dos outros países conhecerem o Brasil". Este em síntese, observou Senna, é o que o setor de audiovisual do Ministério da Cultura vem tentando levar à frente. Depois de fazer uma retrospectiva das atividades que o setor de Audiovisual do Ministério da Cultura vem desenvolvendo nos últimos três anos, Senna fez também uma análise da política externa brasileira no Governo de Luiz Inácio Lula da Silva, observando que "a prioridade um é a América do Sul e a segunda é a África", e concluiu: "Como responsável pela política audiovisual do país, trabalhei essas prioridades, com foco mais potente sobre a América do Sul, ou seja, a ampliação do Mercosul para todo o subcontinente".
A importância da figura de José Marti
O jornalista Abel Sardiña fez uma síntese da figura histórica de José Marti, um pensador e lutador latino-americano, que no século XIX viveu nas "entranhas do monstro", os Estados Unidos, e participou ativamente da luta de independência de Cuba, morrendo inclusive em uma das batalhas. "Marti trabalhou intensivamente na organização da II Guerra de Independência, a chamada Guerra Necessária, em 1895".
O correspondente da Prensa Latina fez um breve histórico deste período, que culminou com a intervenção dos Estados Unidos na ilha caribenha e a cessão, em 1902, em caráter permanente da base naval de Guantánamo. Sardiña lembrou que a independência de Cuba só aconteceu mesmo com o triunfo da Revolução em primeiro de janeiro de 1959, quando o país deixou de ser um território quase anexado aos Estados Unidos, país que se arvorou o direito de intervir na ilha quando achasse necessário, como ocorreu em várias ocasiões a partir de 1902.
Abel Sardiña lembrou da solidariedade do povo cubano a todos os povos da América Latina, com a distribuição de remédios e envio de educadores e médicos para vários países do continente, repudiou a intervenção norte-americana em Guantánamo e, nas perguntas, o companheiro Ernesto Germano, do SINTERGIA, nos lembrou dos quatro heróis cubanos, presos nos Estados Unidos, quando investigavam o terrorismo da máfia de Miami. Foi aprovada no Encontro uma moção de solidariedade aos companheiros.
A cultura na Revolução Bolivariana
A antropóloga Christian Valles fez também um balanço dos esforços que o governo do Presidente Hugo Chávez vem desenvolvendo para tornar a cultura ao alcance de todo o povo, destacando a criação do Ministério da Cultura, em abril deste ano com ênfase também para a questão da integração latino-americana.
Na área da educação, Valles revelou que a revolução bolivariana priorizou o ensino em tempo integral, das 7 às 16 horas, o que não aconteceu nos últimos 40 anos. Valles lembrou que poucos dias antes da realização I Encontro Latino-americano Raízes da América - Cultura de Resistência, a Venezuela foi considerado território livre de analfabetismo, fato dos mais relevantes para o povo de seu país e mostra que com vontade política é possível vencer obstáculos. "Em pouco mais de um ano acabamos com o analfabetismo, utilizando técnica audiovisual cubana, fato que demonstra ser possível atingir objetivos e ajuda a aumentar a auto-estima do povo".
Valles lembrou que em 40 anos de governos anteriores aos do Presidente Hugo Chávez não houve interesse político em combater esse flagelo cultural, tanto que os sucessivos governos social-democratas e social-cristãos deixaram como herança mais de um milhão e meio de analfabetos. Agora, pelos padrões da Unesco, que consideram alfabetizados quem lê e interpreta a leitura, a Venezuela está liberta do flagelo.
Valles também mostrou os programas que o Ministério está implementando: as bibliotecas populares, milhões e milhões de livros que o governo distribui de graça para os recém-alfabetizados, as bibliotecas comunitárias e a celebração do aniversário do livro Dom Quixote, quando um milhão de exemplares foi distribuído, de graça, para a população. Ela destaca que o povo Venezuelano fez enormes filas para buscar seus exemplares.
Ela também fez lembrar a política do governo Chávez para outras áreas, como o médico de família, que hoje existe em toda a Venezuela e cobre com assistência gratuita, de qualidade, toda a população venezuelana. Valles fez questão de ressaltar que na Venezuela o apoio a Chávez é irrestrito porque ele encarna os ideais de um povo em luta por uma transformação da sociedade, saindo de uma sociedade elitista e desigual (como a brasileira - comentário do Jornal "Que Fazer") para uma sociedade mais justa e fraterna, que agora, já se diz claramente, é a sociedade socialista.
Continua...