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Editor: Bruno Zornitta - contato@fazendomedia.com


06.10.2006
ESTUDANTES ACAMPAM HÁ SEIS MESES NA UFF
Ocupação no campus do Gragoatá abriga universitários expulsos da Casa do Estudante Fluminense


Entrada do acampamento, que já dura seis meses

Por Luiza Cilente (texto e fotos) - contato@fazendomedia.com

Não é comum encontramos uma ocupação estudantil permanente nos campus das faculdades, mas em meio ao vasto gramado da Universidade Federal Fluminense (UFF) pode-se constatar a inevitável exceção à regra: cerca de 15 estudantes que há seis meses se alojam nas coloridas barracas do acampamento Maria Julia Braga, no campus do Gragoatá, em São Domingos (Niterói). Dentre eles, universitários e secundaristas, a maioria buscando uma alternativa após terem sido expulsos da Casa do Estudante Fluminense, também em Niterói, por se recusarem a se submeter ao atual estatuto .

A história da luta por um lar para estudantes em Niterói é antiga. Em 2002, foi organizado o Fórum de Luta pela Moradia com o intuito de articular com a Reitoria da UFF a construção de uma casa para abrigar estudantes de outras regiões, que não teriam condições de se manter na cidade. Após a realização de um ato e pressão dos estudantes, em 2003, o Conselho Universitário aprovou o projeto de moradia, mas este ainda não saiu do papel.


As barracas onde dormem colorem o campus do Gragoatá

A Casa do Estudante Fluminense, localizada no bairro do Ingá, era a única alternativa para os que não tivessem condições de se sustentar na cidade. Ela existe desde 1949 e entre 1999 e 2003 foi completamente abandonada pelo Estado. Durante esse período, vigorou a auto-gestão dos moradores. É em 2004 que o Estado volta a intervir, realizando uma reforma e uma reformulação estatutária, não apoiada e questionada por alguns dos moradores, que consideravam vários pontos do Estatuto inconstitucionais.

"Foram proibidas quaisquer organizações de caráter político e religioso dentro da casa, o que suprimia nosso exercício de cidadania interna", explica Josemar Santos da Fonseca, militante e estudante de Pedagogia. Além disso, segundo Josemar, com o novo Estatuto eles não poderiam receber visitas e, em caso de contrair doença infecto-contagiosa, o morador teria que se retirar. Como não reconheceram o estatuto, alguns moradores se recusaram a passar pelo novo processo de seleção implementado pelo Estado, o que resultou na sua expulsão.


Os moradores no local onde se reúnem para as reuniões semanais, num momento de descontração

Organização e luta
O dia-a-dia no acampamento exige organização. O maior dos problemas enfrentados é a variação do clima, que contribui para o desgaste das lonas que protegem as estruturas. Os moradores se dividem por dias de referência, ou seja, a cada dia duas pessoas ficam responsáveis por supervisionar o acampamento e garantir a alimentação. Toda comida é feita lá mesmo, muitas vezes no fogo à lenha, para economizar gás. Jairo Rodrigues, estudante de Matemática ressalta: "Nada disso é imposto, todas as atividades podem ser rediscutidas".

Todos eles entendem a nova moradia como um espaço extra-acadêmico, um complemento à formação da sala de aula. "Aprendi a me organizar melhor. É uma experiência que garante uma enorme troca de conhecimento", diz a moradora Ana Alice Barbosa, estudante de Ciências Sociais. Marcos José da Silva, estudante de História, completa: "Eu aprendi a cozinhar aqui".

A luta desse grupo chamou atenção de outros estudantes que, apesar de morarem em Niterói, se identificaram com a causa a ponto de se juntarem a eles e agora passam a semana toda no acampamento, como é o caso de Ana Alice e do secundarista Ravi Marinho. Além de uma organização mais pragmática, todos procuram estimular um debate crítico sobre a realidade, o que corresponderia a um papel pedagógico do grupo. Inclusive é lá que ocorre semanalmente o GEM (Grupo de Estudos Marxistas), aberto a qualquer pessoa interessada em ler os textos sugeridos e discuti-los.

Alternativas e apoios
Os moradores entendem esse espaço como continuidade das ações de luta pela moradia e pretendem mobilizar não só estudantes, como também a sociedade, para exigir soluções. Segundo os militantes, uma possibilidade de negociação se daria a partir do momento em que a Universidade reconhecesse a legitimidade e urgência das reivindicações. Alternativas são, inclusive, sugeridas: "A gente sabe que existem vários prédios da UFF que não estão sendo utilizados", diz Josemar.


Os moradores fazem suas refeições no próprio acampamento

Os moradores do acampamento são militantes estudantis independentes e recebem apoio de entidades classistas, como sindicatos, embora alguns deles só os apóiem formalmente. Como militantes, também apóiam qualquer iniciativa que venha a contribuir para as melhorias materiais da Universidade. "Temos a compreensão que isso vem de um processo muito maior. Na verdade, a própria situação da moradia estudantil é produto das contradições do sistema capitalista", diz Josemar.

Cerca de 70% do corpo discente da Universidade é de fora de Niterói e a UFF não oferece nenhum tipo de alternativa para moradia. Estaria aí mais uma dessas contradições?


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