
04.10.2006
ANTIGO CINEMA VIRA OCUPAÇÃO NO RIO

Morador da ocupação em um dos andares do Cine Vitória. "A pessoa vive, logo ela tem que estar em algum lugar".
Texto e foto: Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com
Um edifício de dez andares, com cerca de quinze cômodos amplos em cada pavimento, deixou de ser abandonado desde domingo, dia 30 de setembro, quando 150 pessoas ocuparam o local. Segundo os atuais moradores do Cine Vitória, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, o imóvel estava sem utilização há mais de dez anos.
A ocupação marca o calendário no Rio de Janeiro da Jornada de Lutas pela Reforma Urbana. A Jornada está sendo construída durante esta semana pelo Fórum Nacional da Reforma Urbana, que agrega a Central de Movimentos Populares, o Movimento Nacional de Luta pela Moradia, A União Nacional de Moradia Popular e o Conselho Nacional de Associações de Moradores.
O Fórum exige do poder público o aproveitamento de prédios abandonados para a criação de moradias, bem como a destinação de recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para o mesmo fim. Os movimentos querem, no entanto, que essa política seja discutida com os grupos diretamente relacionados com a questão.
“O Poder público investe e todo esse investimento é apropriado de maneira individual. Para o povo só sobram encostas, morros e palafitas. A pessoa vive, logo ela tem que estar em algum lugar. Se o poder público não responde a essa demanda, o cidadão tem que se organizar para responder”, fala a representante pelo Rio de Janeiro na coordenação nacional do Movimento de luta pela moradia, Maria de Lourdes.
Ocupação traz nome de líder quilombola
Manuel Congo, “um quilombola que enfrentou os barões do café no Estado do Rio de Janeiro”, dá nome à ocupação. A senhora Doralice, de 60 anos, iria pagar aluguel no bairro de Anchieta, na zona oeste da cidade, quando encontrou uma alternativa na ocupação, já que a aposentadoria de um salário mínimo não dá para as despesas.
“Até agora ninguém me cobrou nenhum centavo aqui. Eu gostei muito, é uma união do povo”, comenta. Dona Doralice se prontificou a mostrar o prédio. “Isso aqui está abandonado, o dono se diz dono, mas deixou tudo com muita poeira e morcego”, diz, mostrando um dos cômodos, ainda no primeiro andar, repleto de entulhos.
À medida que se sobe a escada, verifica-se tipos e quantidades de cômodos diferentes em cada andar, seguramente aproveitáveis para dormitórios ou outras dependências de uma casa convencional: cozinha, banheiro e sala de estar. A parte habitada pelos novos moradores distingue dos demais andares, luzes já foram providenciadas e é possível ouvir conversa de crianças e cheiro de comida sendo preparada.
Pelos cantos, malas de roupas; no chão, pedaços de carpete encontrados no próprio local que estão sendo utilizados para os ocupantes dormirem. “Se nós realmente morarmos aqui, vai ficar tudo pintadinho, arrumadinho”, anima-se Dona Doralice.
Clima se mantêm pacífico
Segundo os ocupantes, não houve nenhum tipo de resistência à entrada deles no prédio. Na segunda-feira, dia 1º de outubro, receberam a visita da Polícia Civil que, de acordo com os moradores, recebeu um pedido do advogado do proprietário do imóvel para vistoriar o local. Os policiais visitaram pacificamente as dependências do antigo Cine Vitória.
Já na madrugada de segunda para terça-feira, houve uma tentativa de entrada no local por parte da Polícia Militar de forma isolada (um ou dois policiais) que, quando percebeu a vigilância dos moradores, abandonou o local. Depois do ocorrido, o Ministério Público, a Defensoria Pública e o Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj) foram informados. Nenhum outro policial voltou à ocupação.
“Aqui no centro é o lugar onde o trabalhador deveria estar e não a especulação imobiliária. Por que longe do trabalho é o lugar onde tem que viver o trabalhador?”, questiona Maria de Lourdes. Ela lembra que um grande número de pessoas que trabalham no centro da cidade mora em localidades distantes, o que significa a despesa com transporte.
A ocupação segue em fase de organização. “O que a sua filha come?”, perguntou uma moradora a um dos pais membros da ocupação. A resposta foi anotada em um caderno onde a militante anotava se as crianças tinham ou não especificidades na alimentação. Os alimentos estão sendo doados por movimentos sociais e sindicatos que apóiam os novos moradores do Cine Vitória.
Um pouco adiante, um grupo trabalhava para levar energia elétrica para cômodos ainda às escuras. A grande surpresa ficou para o final. Depois de um caminho escuro, como em um cinema em funcionamento, a cortina se abre e o grande espaço de exibição de filmes está ali. Não há mais tela, nem assentos, apenas o espaço vazio e os adornos arquitetônicos nas paredes e nas arquibancadas de um lugar que foi um cinema com capacidade para aproximadamente oitocentas pessoas.
Hoje, o Cine Vitória, como na época em que exibia filmes, também faz a imaginação viajar. Para Doralice e os outros moradores da ocupação Manuel Congo o sonho é o de uma moradia digna.