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Editor: Bruno Zornitta - contato@fazendomedia.com


04.09.2006
SOCIÓLOGOS ANALISAM A AMÉRICA LATINA E O CARIBE

Por Nestor Cozetti (*)

Se esta democracia é tão falsa, por que é tão levada a sério? - perguntou o sociólogo português Boaventura Santos, que junto a outros pensadores internacionais e lideranças dos movimentos sociais, como o brasileiro João Pedro Stedile, estiveram reunidos no Rio de Janeiro (21 a 25 de agosto) na IV Conferência Latino-americana e Caribenha de Ciências Sociais. Alternativas ao neoliberalismo foi o tema principal discutido pelos conferencistas nos cinco dias de duração do encontro, ocorrido na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), patrocinado pelo Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso).

No primeiro dia debateu-se sobre a reinvenção da democracia na América Latina, hoje considerada como vazia de conteúdo. Segundo o coordenador da mesa, o cubano Adalberto Verona, o que temos na região é uma "democracia de cidadãos que não desfrutam da cidadania". Virgínia Fontes, historiadora brasileira, lembrou que o imperialismo deve ser explicado como relações de classe. E que um viés das ditas democracias atuais da América Latina "é o encarceramento de multidões".

Boaventura de Souza Santos disse que "a América Latina é hoje o centro da resistência contra o capitalismo global", e que devemos buscar uma "democracia adequada ao continente". E reinventá-la. Para ele o bom modelo ainda é aquele deixado por Rousseau: "Democracia é quando não há ninguém suficientemente rico que possa comprar alguém, e ninguém suficientemente pobre que queira se vender".

Segundo Santos a questão é fazer a reforma ou fazer a revolução. Avaliou que se vive hoje na América Latina "processos reformistas que parecem revolucionários, revolucionários que parecem reformistas, e outro que parece reformista, mas nem mesmo reformista é". Com esta última frase arrancou risadas da platéia, nela sentindo uma referência ao Brasil. Notando a brutal desigualdade social no continente, o sociólogo pergunta: "Se esta democracia é tão falsa, porque é tão levada a sério?". Para ele "a democracia deve ser sem fim para pôr fim ao capitalismo".

Já Atílio Boron, o sociólogo argentino ex-secretário executivo da Clacso (substituído na última eleição pelo brasileiro Emir Sader), refletiu que o "importante na democracia capitalista é o capitalismo, não a democracia". E que aquele põe limites a esta. Para Boron é um contra-senso: "não existe democracia no capitalismo, a estrutura do capital é impossível e incompatível com a democracia. Passa a ser o governo do mercado, pelo mercado, para o mercado".

Os movimentos de massa
No dia do tema "Movimentos sociais: horizontes de mudança e governabilidade neoliberal", a representante da Bolívia e da Federação das Mulheres Camponesas, Julia Sanchez, lembrou as conquistas populares em seu país que culminaram, depois de muitas mortes, na eleição de Evo Morales. "O poder está conosco, em cada um de nós", expressou. Igualmente, Leônidas Iza referiu-se ao movimento indígena do Equador, onde os pobres, 80% da população, mobilizados, rechaçaram o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos. "Se tivermos de morrer, morramos. Mas não ficaremos de joelhos", profetizou.

Para Marcela Maspero, da Venezuela, "a tradicional submissão da região foi transformada pelos movimentos sociais". E há uma "necessidade de socialização dos meios de produção". Afirmou que "transformar o Estado burguês é uma tarefa difícil para o governo revolucionário de Chavez". Entretanto, reafirmou "o caráter socialista do nosso governo".

Representando o movimento social brasileiro, João Pedro Stedile, coordenador nacional do MST, em referência ao próprio país, avaliando a realidade da América Latina, disse estar agradecido por "me pouparem de ficar explicando o que é um governo ambíguo". Afirmou "que nas últimas duas décadas vivemos sob a hegemonia do capital financeiro e entramos no século XXI com a crise do neoliberalismo". Lembrando que alguns países estão tentando superá-la, declarou "que só nós no Brasil ficamos para trás".

"Falta-nos - segundo Stedile - concatenação entre os movimento sociais. Mas, pela primeira vez é o povo quem derruba presidentes, e não os militares". Prosseguiu analisando que no continente o momento é "ainda de resistência e início de acúmulo de forças". Para ele os movimentos sociais devem construir seus próprios meios de comunicação de massas. Pois a mídia dominante "dá-nos três minutos a favor e cinco anos contra. E a juventude pobre da classe trabalhadora deve estar ao lado de quem quiser fazer a revolução", concluiu.

O sociólogo mexicano Pablo Casanovas, a quem na ocasião foi entregue o título Doutor Honoris Causa da Uerj, defensor do movimento zapatista surgido em seu país em 1994, afirmou que ali "é inconcebível qualquer passo sem os povos indígenas no centro ou na base de tudo".

(*) Nestor Cozetti é da Renajorp, Rede Nacional de Jornalistas Populares.


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