
03.07.2007
COORDENADOR DO MST DESMENTE JORNALISTA
Por Nestor Cozetti - Brasil de Fato
"É por uma nova reforma agrária popular que lutamos agora, e não o que disseram esses jornalistas puxa-sacos", respondeu João Pedro Stedile, do MST, no seminário A Questão Agrária, dia 29 de junho, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro. Ele disse: "a reforma agrária clássica não funciona mais, aí vem um jornalista, um lumpenintelectual [alguém intelectualmente indigente] do Globo e diz que abandonamos a reforma agrária".
Isto porque, já na abertura do acontecimento, a presidente acadêmica dos organizadores do evento, o Centro Internacional Celso Furtado, economista Maria da Conceição Tavares, provocara Stedile: "Você disse que não é mais a favor da reforma agrária?". Entre os expositores do Seminário estavam o presidente do Incra, Rolf Hackbart, e a professora da Universidade Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Leonilde Medeiros, além dos debatedores João Pedro Stédile, do MST, Plínio de Arruda Sampaio, da Associação Brasileira para a Reforma Agrária, e Manoel dos Santos, da Contag.
Para o presidente do Incra "O problema não é quanto custa a reforma agrária, mas quanto custa o desenvolvimento". O que a impede hoje, diz Rolf, "são os partidos aliados ao PT e ao governo". Outros impedimentos: o preço justo com o 'desastre' dos juros compensatórios (das terras ajuizadas), a legislação e o poder judiciário, citando para este as mais de dez mil famílias esperando a decisão de um juiz.
Em sua exposição, Plínio de Arruda Sampaio afirmou que "a reforma agrária popular é virar tudo, e isto só com a revolução socialista: não é possível dentro do modo de produção do capitalismo". Enquanto que para o líder da Contag a reforma agrária não vai à frente "porque é coisa de pobre, e isto não é prioridade no governo".
Reforma Agrária Popular
Das reflexões feitas pelo MST e divulgadas em seu último Congresso, estão o estudo das origens e conseqüências da estrutura agrária brasileira. "A sociedade brasileira sofre um grave problema de origem agrária", disse João Pedro, "tentando compreender as mudanças que estão acontecendo na agricultura, na propriedade da terra e na sociedade brasileira como um todo". Esta é a origem da atual visão por uma reforma agrária popular. Ninguém da esquerda ou da direita pode negar os problemas de concentração da riqueza e da terra, e que isto gera um enorme contingente de pobres, transformando o Brasil na sociedade mais desigual do planeta.
"A Reforma Agrária clássica - lembra Stedile - desenvolvida no bojo de um projeto de desenvolvimento nacional, garantindo a todos os mesmos direitos de acesso a terra, poderia ter sido aplicada no Brasil; mas não foi". Em seguida, o coordenador do MST discorreu sobre as cinco seguidas e frustradas boas condições para a reforma fundiária no país: desde a época da abolição da escravatura (1880), as outras em 1930 e 1964, passando pela posse de Tancredo em 1985, e a última, "a quinta, perdida com o Plínio, que fez o Plano de Reforma Agrária, sepultado pelo Palocci em dois meses".
Stedile conclui afirmando que hoje "o Estado é a mãe do filhote chamado agronegócio". E que "temos que ter as cidades. Ficamos só nós lutando no campo? Estamos cansados de esperar. Não devemos depender do governo, mas sair da reforma agrária clássica para a popular. Tem que ter mudança no modelo econômico". A reforma agrária popular agora reivindicada vai além de ser distributiva. Objetiva reorganizar o mercado agrícola, agroindústria nos assentamentos, mudar a matriz tecnológica, eliminar os agrotóxicos". Segundo o militante rural, "comemos ração" devido à forma como é "padronizada a nossa alimentação". O fim da reforma agrária não seria apenas tirar o povo da pobreza, mas a "criação de uma nova civilização".
A idéia de Reforma Agrária tem como pressuposto uma iniciativa governamental. Ao acrescentar o termo popular à reforma, a nova concepção quer significar uma iniciativa das bases populares, tanto do campo quanto das cidades. Fazendo entender, também, que o êxito dos movimentos populares só poderá acontecer se estiver na ofensiva: a defensiva será a sua morte.