......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com


01.12.2005
A DEGOLA DA SUBJETIVIDADE

Por Sheyla Murteira - murteira@fazendomedia.com

Comunicação
Editora Revan
Formato: 14 x 21 cm
244 páginas
R$ 34

O livro, publicado pela Editora Revan, foi escrito por Débora Franco Ferrer, jornalista natural de Porto Alegre, e decorreu de sua dissertação em curso de pós-graduação em Ciências - área de concentração: Jornalismo - na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

Nele, a autora se propõe a resgatar o processo social que levou a versões contraditórias sobre o assim denominado "conflito da Praça da Matriz", episódio ocorrido no dia 8 de agosto de 1990 e que constituiu, em sua avaliação, "um capítulo extraordinário da luta pela reforma agrária no Brasil". Isso porque, pela primeira vez, essa luta, que até então se desenrolava praticamente desapercebida no interior do estado, determinou uma ruptura no cotidiano de Porto Alegre, ao produzir comoção coletiva na população como conseqüência dos eventos traumáticos que então ocorreram na cidade: um ou dois colonos do MST foram feridos a bala, uma colona levou um tiro no abdômen e um policial morreu após um corte no pescoço.

Em sua proposta, a autora objetiva evidenciar o papel que têm os jornalistas na construção de sentido, lançando mão, para tal, da metáfora do óculos, do sociólogo Pierre Bourdieu, para quem os jornalistas têm "óculos especiais, a partir dos quais vêem certas coisas e não outras; e vêem certas coisas e não outras; e vêem de certa maneira as coisas que vêem, operando uma seleção e uma construção do que é selecionado". Com base nessa teoria, destaca o papel contraditório dos jornalistas, que ocuparam um lugar central nesse processo de cristalização de uma versão hegemônica da morte do soldado e que colaboraram eficazmente para marcar a imagem criminalizante do MST.

A história é desenvolvida em quatro capítulos e um epílogo. O capítulo I descreve o dia 8 de agosto conforme a versão do MST, da Brigada Militar, dos relatos constantes nos autos do processo instaurado e nos jornais da época. O capítulo II trata do desenvolvimento do processo criminal, destacando a teia de meias-verdades que ocasionaram a condenação de seis agricultores. O capítulo III relata a história de Elenir Nunes dos Santos, a colona baleada pelo PM que morreu; também acompanha o desenrolar do processo criminal até o julgamento, em junho de 1992, e, além disso, descreve outra vítima, Otávio Amaral, o agricultor apontado como assassino do soldado. No capítulo IV são apresentados depoimentos de jornalistas e fotógrafos que cobriram o conflito de 8 de agosto para os jornais Zero Hora e O Estado de São Paulo e para a revista Veja, realçando a produção jornalística como uma das possibilidades do conhecimento histórico objetivo que, no entanto, perde consideravelmente em rigor, já que o significado dos fatos é imposto pelo jornalista, a partir tanto do que ele construiu como do que ele silenciou. No epílogo, a autora faz uma retrospectiva histórica do MST, cuja atuação questiona a estrutura de dominação social, política e econômica apoiada no monopólio da propriedade da terra, e sobre quem a versão que os jornalistas ajudaram a construir a partir dos acontecimentos de 8 de agosto de 1990 deixou uma marca indelével, verdadeiro estigma que associa seus colonos para sempre à foice e à degola. Em anexo, o livro traz, ainda, o Jornal do Sindicato de Jornalistas de Porto Alegre, que ficou conhecido como "versão dos jornalistas".

Entremeado por fatos históricos regionais de grande importância na contextualização e compreensão do significado dos acontecimentos, a leitura prende e emociona. Vale a pena conferir os fatos que promoveram, como afirma a autora, uma "ruptura" em sua formação jornalística e determinaram sua aproximação do MST.


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