......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



26.05.2007
ENTRE BLANCOS E RO-ROS

Por Alessandro Tarso, de Madri - contato@fazendomedia.com

Eu juro que tentei. Perambulei durante três semanas seguidas pelas ruas da velha Madri em busca de um tema para esta estréia, sempre com a idéia fixa de tentar fugir dos estereótipos brazucas, de nossas melhores qualidades ou de nossos piores defeitos. Mas não deu.

Neste meio tempo, pensei em escrever sobre várias coisas, desde a mídia grande daqui até os conflitos entre centenas de jovens e a polícia madrilenha no feriado de dois de maio (que contou com a participação deste que lhes escreve, sorteado com alguns empurrões e pouca juventude...). Outros temas me tentaram, literalmente: o turismo onipresente, a comunidade gay brasileira na calle Hortaleza, a hostilidade contra os ciclistas, as famosas touradas de San Isidro, as eleições municipais do próximo dia 27, a mídia média e gratuita (muito popular por aqui) e, claro, as prostitutas romenas do centro. Mas acabei resistindo, incrivelmente. Motivo: não consegui escapar dos dribles de Robinho, tão pouco da firmeza de Roberto Carlos, ambos estrelas brazucas do Real Madrid. Explico.

O domingo seguia calmo aqui no bairro de Salamanca, um dos mais bonitos a leste da cidade. Entrei na cervecería Canas y Tapas sem grandes pretensões para além de ler o jornal dominical, tomar um café e curtir meu passatempo predileto, ou seja, ruminar a pergunta que não quer calar: "Afinal, o que estou fazendo aqui?". Logo de cara, topei com um aviso taxativo, colado na parede junto à mesa: "Após as 20h, mesas reservadas para jantar e petiscar". Não havia quase ninguém nas mesas, ainda eram 18h, então não me preocupei e pedi meu café solo (R$ 4,50!).

Dez páginas e dois goles depois, começou minha preocupação: ligaram um telão, as mesas se encheram em poucos minutos e a febre pelos Blancos do Real Madrid entrou em campo, ou melhor, na cervecería. À medida que o lugar ia enchendo, minha preocupação aumentava, afinal não queria sair dali em meio à chuva (que lotava ainda mais o Canas y Tapas), e ainda por cima sem ter chegado na metade do jornal. Por outro lado não podia comer nada (a grana estava curta) e comecei a pensar que seria convidado a me retirar, já que os clientes, literal e metaforicamente blancos, estavam afoitos para consumir jamón, fútbol y cerveza. Pra piorar, eu não estava ligando muito pro jogo, o que devia irritar mais ainda aqueles que esperavam uma mesa, em pé, no balcão de entrada.

Resolvi acender um cigarro (outra febre por aqui, sobretudo para os não-fumantes) e relaxar um pouco. Vez em quando dava uma espiada no telão, e já no início Los Blancos começaram a perder gols e ser ameaçados pelos rojos (Recreativo). A tensão aumentava. Mas eis que, ainda no primeiro tempo, a cabecinha negra do Robinho salvou a minha (ao menos temporariamente): 1 a 0. Não comemorei com los blancos (sou Timão e não abro!), mas foi o suficiente pra relaxar um pouco mais e tomar coragem para, finalmente, pedir una cerveza (R$ 6, long neck!). Vinte minutos e dois cigarros adiante, novamente ele, o negrinho que já fora comparado a Pelé, consegue um pênalti: 2 a 0. Novas comemorações (e mais fôlego para mim e meu pobre jornal).

Uma reportagem sobre a Amazônia agora perdia terreno para o telão na disputa de minha audiência, e eu já estava me arrependendo de não ter saído com a camisa amarelinha. Mas foi só mudar minha atenção para que los rojos reagissem: 2 a 1. Na seqüência, tiraram Robinho de campo, o que fez alguns poucos blancos ao meu lado vibrarem sem cerimônia. Resultado: empate dos rojos e quase um adeus à disputa do título que o Real vem travando neste fim de temporada com o Barcelona.

A noite começou a cair lá fora, os ânimos baixaram e minha cabeça também. Pensei: "Tudo bem, no passa nada, afinal já estou terminando meu jornal". O silêncio e a angústia imperaram no salão. Mas aí, o tempo virou, aqui e lá. Em meio a um artigo que falava sobre el zumo de naranja brasileño (um rei maior que os jogadores brazucas por aqui), 47 do segundo tempo, eis que o pequeno e mestiço Roberto Carlos, frio e firme, fez o seu e acabou com o jogo: 3 a 2. A torcida de Los Blancos, que a esta altura já era mais cana do que tapa, explodiu de alegria. E eu nunca me senti tão blanco, chegando mesmo a ficar invisível.

Fiquei com vontade de gritar "Dá-lhe, Brasil!" e pedir outra cerveja. Mas lembrei que o dinheiro era pouco e voltei ao meu delicioso companheiro anonimato. Então, aproveitei o recesso providencial da chuva e caí fora. Pois, pensando bem (essas coisas que a gente só faz à distância), essas duplas Ro-Ro que costumam desfilar de amarelo pelos gramados daqui não é "o Brasil". São profissionais tupiniquins fazendo negócios em Madrid. E só.

***

Mais tarde, soube que os profissionais que sobraram do negócio Timão-MSI reergueram a cabeça e conseguiram a façanha de matar a raposa dentro da toca: 3 a 0, em pleno Mineirão. Para uma tímida segunda rodada, até que foi um grande negócio!

***

Adivinhe quem estampou os cadernos esportivos madrilenhos no dia seguinte? Beckham, por supuesto...


Clique aqui para assinar nosso jornal impresso


Este site é melhor visualizado na resolução de 800 x 600 pixels.
© 2004 Fazendo Media - por Kzal Design