Em 1793, a Coroa lusitana participara da
primeira coalizão contra a República Francesa
revolucionária, vista pelos liberais portugueses com grande
esperança. Em 1796, após a burguesia francesa
conservadora apoderar-se do poder e reprimir as massas populares,
Portugal abandonara a coalizão, mantendo difícil
neutralidade quanto ao confronto anglo-francês.
Ingleses e franceses exigiam que Portugal
tomasse partido. Uma decisão difícil. Optar pela
França significava perder o Brasil, pois a Inglaterra
apoiaria a independência da colônia. Apoiar os
ingleses era selar a invasão de Portugal pelos franceses,
senhores do continente. Portugal seguiu saltando nos dois
pés.
Em 1807, Napoleão Bonaparte ordenou a
ocupação e desmembramento do reino
português. Lisboa tratou secretamente com os ingleses o apoio
naval à transferência da Família Real e
de parte da nobreza ao Rio de Janeiro, medida apoiada pelos
britânicos pois significava a liberdade plena para seu
comércio com o Brasil.
A mudança para o Brasil era
idéia antiga. Os
Diálogos das grandezas do Brasil já
registravam a profecia de astrólogo do rei dom Manuel, o Venturoso, de que
o colônia serviria, um dia, "de refúgio e abrigo
da gente portuguesa". A aristocracia lusitana tinha
consciência de que vivia sobretudo das rendas brasileiras e
que o sistema colonial entrava em crise.
Em A
utopia do poderoso império, Maria de Lourdes
Viana Lyra lembra que os reformistas portugueses propunham antecipar-se
à independência da colônia criando novo
relacionamento político que permitisse a
"emancipação" do Brasil, com Portugal como centro
europeu e mercantil, no seio de um império
português reconstruído. A
transmigração para o Rio de Janeiro foi
também desesperada resposta a eventual movimento
emancipacionista da colônia.
Em 26 de novembro de 1807, ao escafeder-se para
o Brasil, dom João lançou patético
manifesto: "Tendo procurado por todos os meios possíveis
conservar a neutralidade [...] vejo que pelo interior do meu Reino
marcham tropas do imperador dos franceses [...] querendo eu evitar as
funestas conseqüências [...]contra minha real pessoa
e [crendo] que meus leais vassalos serão menos inquietados,
ausentando-me eu deste Reino."
Na manhã de 29 de novembro, sob a
escolta inglesa, partiam do rio Tejo oito naus, quatro fragatas,
três brigues, uma escuna e outras
embarcações. Dez mil pessoas carregando o que
podiam levar – móveis, objetos de arte,
louçaria, livros, arquivos... À cabeça
da debandada: o príncipe regente dom João; dona
Maria Carlota, sua espanhola e em todos os sentidos não
muito fiel esposa; dona Maria I, a rainha enlouquecida.
Portugal foi abandonado as frágeis e
mal-aparelhadas tropas invasoras. Uma resoluta resistência
dos exércitos lusitanos, apoiados pela
população, impediria certamente a
invasão. Mas a mobilização popular
assustava mais a aristocracia do que os franceses. Quando da partida,
dom João ordenara aos governadores que ficavam que muito bem
recebessem, aquartelassem e assistissem os franceses.
Para muitos liberais, os soldados de
Napoleão entraram em Portugal como libertadores. A coroa e a
aristocracia lusitana temiam que os liberais portugueses fizessem o
mesmo que o Terceiro Estado fizera na França. A
família real escapava também das tropas francesas
e da revolução burguesa que estremecia a Europa
desde 1789.
A transferência da Família
Real não constituiu apenas fuga diante das tropas invasoras
e do liberalismo europeu. Migrando para o Rio de Janeiro, a
aristocracia lusitana fazia virtude da necessidade, transferindo a sede
da administração real para a "melhor parte" do
império lusitano. Em uma das mais olímpicas
demonstrações de falta de raízes e
sentimentos nacionais, a grande aristocracia abandonava a terra
pátria para melhor defender privilégios sociais e
econômicos.
Após parada em Salvador da Bahia, o
comboio real chegou, meio desgarrado, ao Rio de Janeiro, a 7 de
março de 1808, onde o príncipe dom
João teria dito ao representante do governo inglês
que considerava "muito pouco provável" seu retorno a Lisboa.
Voltaria, treze anos mais tarde, acuado pela
revolução liberal portuguesa de 1820.