
20.01.2007
NAIRÓBI PREPARA O FSM. APESAR DA GRANDE MÍDIA
Por Renato Gianuca - contato@fazendomedia.com
Todo ano é a mesma rotina: os organizadores do Fórum Social Mundial (WSF, na sigla em inglês) mal encerram os trabalhos em Caracas e já começam os preparativos para a grande reunião que começa agora, dia 20 de janeiro, lá no Quênia.
O entusiasmo é grande: uma equipe de urbanistas e arquitetos africanos e de outros países de todo o mundo transformaram o Centro de Esportes Internacional Mói Kasarani num belo cenário para os principais eventos - conferências, seminários e debates internacionais. Já as cerimônias de abertura e de encerramento, no próximo dia 25 de janeiro, acontecerão no Parque Uhuru, no centro da capital queniana.
Tudo isso ocorre diante do mais absoluto silêncio da grande mídia corporativa. É claro que as grandes redes de TV mundiais estarão presentes, de 20 a 25 deste mês, lá em Nairóbi. Mas já se sabe de antemão: a cobertura deverá ser facciosa. Não fosse essa, precisamente, a orientação neoliberal dos Murdoch e dos Cisneros da vida. Ou seja: desprestigiar o FSM para exaltar o falido Fórum de Davos, que deveria acontecer nessa mesma época, lá na agora "caliente" Suíça.
Chegar a Nairóbi, para quem vive no Extremo Sul do Brasil, já é uma aventura, até porque os vôos da South African Airways estão lotados até o dia 29, 30 deste mês de janeiro de 2007. Desembarcar em Nairóbi é outro probleminha. Nada que um gaúcho não possa desdobrar: os táxis não usam medidores. Daí ser importante acertar o preço com os taxistas, antes de deixar o moderno Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta, a uns 10 km do Distrito Comercial, no centro de Nairóbi. Há a alternativa de chegar via Mombasa, já no Oceano Índico, mas aí seria uma viagem mais interafricana, é claro.
O sistema de transporte público e coletivo por lá é barato. O melhor, hoje em dia, dizem, é o City Hoppa. A passagem pode ser paga dentro dos ônibus direto ao motorista. Mas lá, como aqui em Porto Alegre, deve-se evitar a hora do pique, a rush hour, quando o sistema público fica superlotado. Já os "matatus", as lotações, ou microônibus, são em grande número. E seus motoristas falam as más línguas, nem sempre são muito educados com os forasteiros.
Já os telefones públicos... Cartões de crédito, nem pensar. Só aceitam cartões especiais, ou então moedas. Já a Internet está presente em todos os principais hotéis, bem como os serviços de fax e telex. Também hoje em dia aparecem já muitos cyber cafés em toda a Nairóbi, em especial na área central do Distrito Comercial. Os Correios do Quênia, estatais como aqui no Brasil, abrem das 8h às 17h.
A moeda local é o Shilling (Sh.), dividido em 100 centavos, uma herança da longa colonização britânica. O câmbio pode ser feito em qualquer banco comercial e escritórios internacionais, tanto em Nairóbi como nas outras principais cidades do país africano. No dia 11 de janeiro de 2007, o câmbio era este: um dólar norte-americano para KSh. 72,00; ou um euro para KSh. 85,50.
Opinião patronal continua como regra
Quando 150 mil pessoas de todos os Continentes deste Planeta Azul decidem se reunir em Nairóbi, evento dessa grandeza deveria merecer uma cobertura extensa, a partir já desses preparativos que os irmãos quenianos estão realizando. O que se vê, porém, é o silêncio. Ou, então, a ironia velada, ou mesmo explícita, desses colunistas padrões. No sentido exato do termo: são bem remunerados, ao contrário da grande maioria dos jornalistas do Terceiro Mundo. E são pagos para refletir a opinião patronal. Cabe aqui relembrar a velha história que Rubem Braga, ou outro grande jornalista do século passado, contava sempre para os então jovens aprendizes do Jornalismo.
Foi no tempo dos Associados, o grande império jornalístico dos anos 40-50 do século 20. Era véspera de Natal. Na redação, o irascível Chateaubriand passa direto, fiscalizando os seus "colaboradores". Encontra um redator-editorialista. E, seco, dá a ordem: "Não esqueça, Fulano. Amanhã é Natal. Cabe relembrar em nosso editorial a figura de Jesus Cristo, OK?"
Tremendo de medo, verde de pavor por receber uma ordem direta do grande barão da mídia de então, o editorialista atreveu-se a perguntar ao seu patrão: "Tudo certo, 'doutor' Assis. Mas, me diga: um editorial a favor ou contra esse tal de Cristo?"
As coisas não mudaram muito, de lá para cá. Até pioraram. O território livre da Internet vem sendo assolado, agora, por figuras dantescas. Insistem em cobrar assinaturas, caras, por um conteúdo cinza e inodoro. Apegam-se ao ultrapassado sistema do copyright. Aquele em que o autor, e seus descendentes, recebem direitos autorais pela vida afora. Junto-me aos que lutam pelo copyleft, o mesmo sistema da maior Enciclopédia da História da Humanidade, a Wikipédia. Até porque, já diziam os velhos livros: "Não há nada de novo sob o Sol".