......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



19.04.2007
RATZINGER, MARX E SOBRINHO

Por Daniel Lopes - www.danielslopes.com

Agora, Ratzinger diz que Karl Marx era um bom camarada. Em livro de sua autoria, programado para sair este mês em vários idiomas, o Santíssimo Padre disse que o filósofo alemão "forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos". Com isso, Ratzinger encantou todo mundo, até o site Vermelho, do PC do B.

Ainda que palavras digam muito, sempre é mais aconselhável julgar alguém por seus atos ("fazer é a melhor maneira de dizer", já pregava José Martí), ainda mais quando esse alguém é uma pessoa pública e de grande influência, caso do papa. Dia desses ele, através de seus subordinados na Santa Sé, condenou ao "silêncio obsequioso" o jesuíta espanhol Jon Sobrino, radicado em El Salvador desde 1957. Em bom português: Sobrino foi censurado, proibido de lecionar na católica Universidade Centro-Americana de San Salvador, que ajudou a fundar nos tempos em que o Vaticano fazia vista grossa à matança de camponeses por milícias salvadorenhas de extrema-direita.

Aliás, Sobrino fica proibido de lecionar em qualquer instituição católica. E seus livros entraram no Index, digo, não possuem mais o selo "nihil obstat", não podendo ser reimpressos, comercializados ou mesmo indicados por membros da Igreja. Nenhuma surpresa, vindo de uma instituição chefiada por um ex-diretor do Santo Ofício da Inquisição, digo, da Congregação para a Doutrina da Fé ("words, words, words", nos diria Hamlet).

A censura a Sobrino se deu a poucas semanas da V Conferência Episcopal Latino-Americana, a ser realizada 13 de maio na cidade de Aparecida, e isso nos diz muito da realpolitik da Santa Sé. Seu crime, ou melhor, seu pecado: ser um dos expoentes da Teologia da Libertação, movimento da Igreja latino-americana de clara tendência progressista, com traços inclusive de marxismo.

Não é curioso que a parte do livro de Ratiznger divulgada no conservador diário Corriere della Sera - do mesmo grupo da editora Rizzoli, que vai lançar a obra - tenha sido exatamente aquela em que há o elogio ao pai do comunismo? Não estaria Ratzinger apenas procurando fazer uma média com os membros mais rebeldes de seu rebanho?

O fato é que neste episódio o discurso (cita-se Marx...) não foi refletido na prática (... e censura-se um padre progressista). E isso ainda se chama hipocrisia, não? Ou o dicionário pros funcionários de Deus é outro? O papa é ou não é um hipócrita?

Mas tudo normal. Ratzinger vai ter uma ótima hospedagem no Brasil, será bajulado como deve ser, depois vai embora, os padres mais à esquerda não vão deixar a Igreja, dando-lhe uma eterna sobrevida, e os dias vão continuar passando e a Terra vai continuar girando ao redor do sol.

Ah sim, Frei Galvão tinha umas pílulas milagrosas e foi promovido a santo, o que apenas um ímpio e ignorante não vê como prova suficiente da preocupação do porta-voz do Homem para com a ralé destas bandas do planeta.


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