......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Gustavo Barreto - gustavo@fazendomedia.com


17.03.2006
AMOR A CUBA
O povo boliviano enxerga em Cuba um exemplo de resistência e de igualdade social

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Engraxate boliviano carrega bandeira cubana em seu material

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

De tudo o que presenciei na Bolívia, não foi a vitória de um presidente indígena num país com maioria indígena o que mais me impressionou. Nem o fato de a folha da coca ser parte do cotidiano das pessoas, consumida diariamente para combater os males da altitude. Diria também que não foi a extrema pobreza desse país o que mais me chamou a atenção, muito embora estejamos falando de um dos países mais pobres do continente, cujo salário mínimo equivale a 56 dólares.

O que mais me impressionou nas ruas de La Paz foi o amor que o povo boliviano tem por Cuba. Por isso eu não esperava. Entre os índios do altiplano, então, esse sentimento é ainda mais elevado. No dia da posse de Evo Morales, era comum ouvir "Viva Fidel" e "Viva Cuba", com a mesma ou maior freqüência que os "vivas" cantados ao presidente eleito. Bandeiras com a imagem de Che Guevara podiam ser vistas por qualquer lado que se olhasse.

Carlos, de treze anos, o garoto que fotografei na Praça dos Heróis, traz a bandeira da ilha caribenha em sua caixa de ferramentas. "Em Cuba não há miséria. Lá eu não precisaria estar trabalhando; poderia apenas estudar", disse. Consegui fotografar uma parte de seu rosto por acaso, pois os engraxates em La Paz costumam andar com máscaras. "Temos vergonha", explica.

Exemplo de resistência
Tanto carinho, evidentemente, não acontece por acaso. Os bolivianos enxergam em Cuba um exemplo de resistência. O povo tem plena consciência da ação do imperialismo e o discute abertamente; não é como aqui no Brasil, que quando tentamos conversar sobre isso a maioria diz que estamos falando em "teoria da conspiração". Nos últimos seis anos houve uma tomada de consciência muito grande na Bolívia. Os povos originários, há muito afastados do processo político, retornaram ao centro da história com as manifestações que levaram à renúncia do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada e seu vice, Carlos Mesa, nos idos de outubro de 2003.

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Imagem de Che Guevara durante a posse de Evo Morales

Nesse sentido, é emblemático que tenha sido em torno da educação que a população de El Alto começou suas reivindicações. Justo a educação, um dos maiores símbolos da revolução cubana. El Alto fica a vinte minutos de La Paz, tem cerca de oitocentas mil pessoas e reúne os três sindicatos mais ativos do país. Abraham Delgado, 28 anos, é estudante de administração e fundador do Movimento Jovens de Outubro, grupo que esteve à frente dos protestos que derrubaram Lozada. "El Alto começou a se mobilizar porque sua Universidade não tinha autonomia. Os governantes não queriam dar autonomia a esta universidade", diz. Hoje, uma faixa enorme anuncia seu nome aos visitantes: Universidade Pública e Autônoma de El Alto.

Cuba resiste ao imperialismo estadunidense desde 1959, quando o grupo liderado por Fidel Castro chegou ao poder. De lá pra cá, foram inúmeras as tentativas de golpe, com atuação marcante da CIA. Baía dos Porcos, Crise dos Mísseis e mais recentemente o caso Posada Carriles, acusado de explodir uma aeronave da Cubana de Aviación e matar mais de setenta pessoas.

Cuba não é um país rico, mas a riqueza disponível é distribuída entre todos os habitantes. Os bolivianos sabem que o mesmo não acontece em seu país porque sempre tiveram governos que fizeram o jogo imperialista. Exportar o máximo das riquezas, deixando no país o mínimo indispensável para reproduzir o sistema, que gera desigualdade, injustiça, miséria.

"Primeiro há que se recuperar o que é nosso"

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Bandeira cubana na Praça dos Heróis, em La Paz

Ainda em 2000, os movimentos populares começaram a se perguntar a quem pertenciam o petróleo e o gás natural. "Nada se sabia da propriedade dos Hidrocarbonetos. De quem eram os Hidrocarbonetos? Eram dos bolivianos ou não eram dos bolivianos? Aí descobrimos que não eram dos bolivianos, eram das transnacionais", explica Delgado. Hoje a Petrobrás controla os dois maiores campos: San Alberto e San Antônio, e é responsável por 20% do PIB boliviano.

Delgado continua a expor seu raciocínio: "Então, pensamos: como podemos vender o que não é nosso? Primeiro há que se recuperar o que é nosso e depois resolvemos se vamos vender ou não". Pela lei dos Hidrocarbonetos, ainda no primeiro governo de Lozada, apenas 18% do lucro obtido pela venda desses recursos deveria ficar na Bolívia, e o restante era levado pelas multinacionais. É impressionante como o povo boliviano está à frente do povo brasileiro no tocante à preocupação com o desenvolvimento e o futuro da nação. Aqui, exceto a Associação dos Engenheiros da Petrobrás, o Sindicato dos Petroleiros e outros raríssimos grupos, ninguém mais se preocupa com os leilões do nosso petróleo.

No entanto, no tocante à admiração do povo boliviano pela revolução cubana, não pode haver nada mais significativo que a morte de Ernesto Guevara de La Serna. Che era argentino, fora ministro em Cuba e morreu combatendo em solo boliviano. O revolucionário liderou a guerrilha no sudeste da Bolívia a partir de 1966. Antes havia lutado ao lado dos homens de Patrice Lumumba, no Congo, passado pela Tanzânia, Checoslováquia e Alemanha Oriental, até refugiar-se em Ñancahuazú, na selva boliviana. Foi capturado no dia 8 de outubro de 1967 pelo exército boliviano e pelo serviço secreto estadunidense. No dia seguinte, foi executado em La Higuera.

Enquanto o imperialismo alimenta a rivalidade entre os países sul-americanos, a trajetória de Che Guevara diz o contrário. Argentino, cubano e boliviano. Mas, também brasileiro, congolês, uruguaio, colombiano. "Se você treme diante de qualquer injustiça, então somos companheiros", disse o comandante. Não é à toa que os bolivianos bradam "Che vive". Hoje, mais do que nunca. Na Praça dos Heróis, em La Paz, ouviam-se gritos de "Viva Evo" e "Viva Bolívia", mas as imagens mais freqüentes eram de Che Guevara. Ele vive no rosto de cada menino desgraçado desse continente.

Ainda estava em La Paz quando recebi a carta abaixo de um velho amigo:

***

Por Eduardo "Tato" Pavlovisky

Recebi um texto sobre a vitória de Morales que expressa o desejo de que Evo conduza uma Revolução alegre. O fato de ele ter se lembrado de CHE no final me leva a compartilhar com você suas palavras e tomo a liberdade de colocar ao lado um desenho de 97 que obtive em Havana:

... Levanto minha taça e choro, mas choro contente e com ganas de lutar, o pranto da luta me faz jovem. O triunfo de Morales também é meu e, se o roubo, é para seguir lutando. Numa última palavra para vocês: CHE.

Um dia escutei Fidel dizer: "Che não morreu em vão na Bolívia, sua morte é uma mensagem de vida para os excluídos bolivianos, para os indígenas que não comem. Che não morreu em vão". Hoje, mais do que nunca, quero voltar a homenagear-te: tua morte na Bolívia foi um sinal vital. O triunfo de ontem te deve muito. Tua mítica história nos tem dado, aos que pensamos como tu, sentido a nossa vida em nossas ganas de lutar por um mundo mais justo. Ontem ganhou Bolívia e ganhou Morales, mas ontem também ganharam os excluídos do mundo; e ontem também ganhaste tu, grande irmão. Sempre tua vida e tua morte nos dá novos sentidos. Obrigado por ser argentino. Os excluídos do mundo levam sempre em qualquer lugar tua imagem como exemplo e a seguirão levando. Estou seguro. Por muito tempo.


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