......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Gustavo Barreto - gustavo@fazendomedia.com


14.10.2006
A CRUZADA ANTI-ISLÂMICA DO PAPA ALEMÃO

Por Mário Maestri (*) - maestri@via-rs.net

A negativa do papa Joseph Ratzinger de retirar o que propôs sobre o islamismo, em 12 de setembro, na universidade de Regensburg, na Alemanha, não permite mais apresentar sua fala como simples pronunciamento inábil, que desorganizou, sem o pretender, as relações cuidadosamente tecidas com aquele credo, pelo papa Woytila, através da proposta de um deus único e de aproximação aos dignitários islâmicos, além de iniciativas como a dura oposição à intervenção no Iraque.

Woytila foi o primeiro papa da história a entrar em uma mesquita, em 2001, quando de visita à Síria. A aula magna de Ratzinger constitui, nos fatos, justificação teológica de nova orientação enunciada na dissolução do instituto vaticanista responsável pelo diálogo com o islamismo e na falta de referência às relações fraternais com aquela religião, quando da primeira missa papal. Quando cardeal, Ratzinger já se opusera ao ingresso da Turquia na União Européia, devido à confissão islamista majoritária de sua população.

Na aula magna da conservadora Baviera, terra natal de Ratzinger, discutiu-se se é "necessário e razoável interrogar-se sobre Deus por meio da razão e no contexto da tradição da fé cristão", ou seja, refletiu-se sobre as relações entre razão e fé. Apoiado em citação do imperador bizantino Manuel II Paleógono (1350-1425), Ratzinger iniciou sua dissertação defendendo precisamente que o islamismo seria religião à margem de qualquer síntese entre a fé e a razão. Para tal, serviu-se de crítica indireta à guerra santa islâmica - jihad - para propor paradoxal cruzada em defesa do caráter excepcional do cristianismo, apresentado como produto da Europa Ocidental, de profundas conseqüências para a política e as relações internacionais.

Na sua locução, Ratzinger propôs que, ao discutir a questão "central sobre a relação entre religião e violência", o imperador bizantino teria afirmado que Maomé não trouxe "nada de novo", além de "coisas malvadas e inumanas", como a ordem de "difundir por meio da espada a fé". Um ataque, portanto, direto ao principal profeta do islamismo. O imperador teria explicado que a "difusão da fé" pela "violência" seria "irracional" pois contrastaria "com a natureza de Deus e a natureza da alma". Para Ratzinger, a contradição entre violência e fé seria normal ao imperador bizantino, "educado na filosofia grega", e estranha à visão "transcendente" de deus do islamismo, na qual a "vontade" divina não estaria "ligada a nenhuma das nossas [sic] categorias", em especial à "racionalidade". Uma visão que não cotejaria a vontade divina com a razão humana e, portanto, permitiria que qualquer ação fosse apresentada como nascida da vontade de deus.

A excelência cristã ocidental
Na continuação de sua intervenção, Ratzinger dedicou-se à demonstração teológica da exclusividade do cristianismo, na versão ocidental, devido ao "encontro" entre a religião, revelada por deus na Bíblia, e a razão, materializada na premissa do helenismo de que se peca contra deus quando se peca contra a razão. O encontro entre a razão do helenismo e a fé da Bíblia seria parte da vontade divina, responsável pelo "nascimento do cristianismo e de sua divulgação", com influências permanentes na "história universal". Apesar de surgir e desenvolver-se no Oriente, o cristianismo se teria consubstanciado na "Europa", "criando" e "permanecendo como fundamento daquilo que, com razão, se pode chamar de Europa". Ratzinger definiu a proposta de ingresso da Turquia muçulmana na União Européia como uma ação contra a "corrente da história".

Na aula magna, Ratzinger propôs o enfraquecimento, em três momentos, da fusão singular entre helenismo e cristianismo. A primeira, no século 16, sob a forma de reação à fé apoiada na razão, através da proposta autonomia-indeterminação de deus, auto-centrado e descomprometido com a "verdade" e o "bem", como ocorreria, segundo ele, com o deus do islamismo. Uma visão, para o papa alemão, jamais abraçada pela Igreja. A segunda fragilização, dos séculos 19 e 20, teria sido promovida pela teologia liberal, que se centrou no homem Jesus e na sua mensagem, moral e humanitária, abandonando as propostas teológicas como a divindade de Cristo, a trindade, etc., e a razão helenista, pela razão moderna. O último movimento seria a síntese atual do cartesianismo e do empirismo que reduziu a discussão sobre deus a debate pré-científico ou, quando muito, a-científico, já que o caráter científico de uma proposta passou a ser estabelecido pela sua experimentação-comprovação, o que é impossível à metafísica e à teologia.

Ratzinger tenta resolver a marginalização da teologia do debate científico moderno com o axioma metafísico de que, se não houver deus, o homem ficaria, por um lado, sem soluções a-científicas de questões subjetivas como "de onde" veio e "para onde vai", já que reduzido à sua humanidade e materialidade, e, por outro, obrigado a apoiar o seu agir ético na vida interior e social, negando à religião o "poder de criar uma comunidade". Concluindo, exige o reconhecimento do não científico, ou seja, da teologia e da metafísica, pelo pensamento científico, e retorna, novamente, ao imperador bizantino para propor que, no diálogo das culturas e, portanto, das religiões, os "nossos interlocutores", em um "diálogo sincero e franco, com respeito mútuo", como propôs após sua locução, encontrem precisamente aquilo que defendeu ser exclusividade do cristianismo, materialização do mundo ocidental, isto é, a fusão da razão com a fé.

Ratzinger briga com a história
Com sua aula magna de 12 de setembro, o papa Ratzinger causou enorme perplexidade, ao criticar a defesa estrutural da violência pelo islamismo, apoiado em citação de Manuel II Paleógono, sem lembrar que o imperador bizantino escrevia cem anos após o fim dos dois séculos de cruzadismo europeu que, apoiado na promessa papal do paraíso aos que morressem por Cristo, mergulhou o Oriente Médio em doloroso banho de sangue. Foi criticada igualmente a falta de contextualização pelo papa alemão da declaração do imperador, de 1391. No seu esplendor, Bizâncio dominou partes do atual Marrocos, dos Bálcãs, do Oriente Médio. Com a inversão da maré, os islamitas passaram a pressionar duramente Constantinopla, conquistada apenas 28 anos após a morte de Manuel II Paleógono. Compreende-se, portanto, a razão da má vontade de Manuel II Paleógono com Maomé e o islamismo.

Ressaltou-se, também, que a utilização fora de contexto de declaração velha de seiscentos anos torna-se ainda mais grave ao ser realizada, em 2006, quando duas nações islâmicas - Afeganistão e Iraque - encontram-se sob o tacão militar de países de confissão cristã, precisamente sob a justificativa da necessária imposição pela força das armas dos valores ocidentais e cristãos. Bush referiu-se à invasão do Iraque precisamente como uma cruzada ocidental. A apresentação da expansão islâmica pela força da cimitarra e do cristianismo pelo poder da palavra violenta igualmente a história e a razão, considerando-se a cristianização na ponta da espada da Europa, África, Ásia e Américas. O que não permite, porém, reduzir o sentido cultural e histórico do cristianismo ou do islamismo aos crimes realizados em seus nomes, geralmente por ação estatal.

Causou também perplexidade a defesa de Ratzinger de exclusivismo europeu do cristianismo, em oposição a sua universalização, base fundamental de sua expansão mundial, objetivada, já nas suas origens, através da superação da proposta judaica de uma terra e de um povo escolhidos por deus. Tem sido igualmente fonte de preocupação a rejeição papal do cristianismo como prática individual, em prol da exigência de sua constituição como elemento social fundante, proposta que se aproxima do conceito integralista de necessária fusão entre a sociedade civil e a religião. Uma visão que explica o sentido da proposta da oposição de Ratzinger ao ingresso da Turquia na União Européia, já que, nessa visão, um muçulmano não poderia, jamais, fazer parte da cidadania européia.

A Igreja como um todo
A luta de Woytila contra o socialismo conquistou o apoio das classes proprietárias de todas as culturas e religiões. A proposta de exclusivismo cristão-ocidental e dissidência essencial com o islamismo atrela o Vaticano ao programa da facção hegemônica atual, criando fricções mais ou menos profundas com múltiplos outros setores das classes dominantes - islâmicos, europeus, latino-americanos, etc. - postas a um embate que exige o domínio total do imperialismo estadunidense, construído e reconstruído incessantemente através da violência. Uma política que violenta interesses da própria Igreja, que abriga vastas comunidades cristãs vivendo no seio de maiorias islâmicas e populações muçulmanas enquistadas em paises cristãos - Alemanha, Bélgica, França, Espanha, Turquia, Líbano, Filipinas, etc. A política de Woytila expressava precisamente a proposta de desarmamento de conflitos, ali onde existissem, ou da manutenção da convivência inter-confessional, como ocorre exemplarmente no Brasil.

Os resultados do pronunciamento de Ratzinger se fizeram sentir imediatamente. Na Somália, freira italiana foi executada por assassinos sectários. Na Palestina, bombas foram lançadas contra duas igrejas. Dirigente da Al-Qaeda aproximou Bush e Ratzinger, criticado por acusar o "Islã de ser incompatível com a racionalidade". Em sentido contrário, a direita israelense declarou apoio sem restrições ao pronunciamento papal e o cardeal alemão conservador Karl Lehmann criticou a intelectualidade européia por leniência com o islamismo. Em diversos pontos da Europa a extrema-direita lançou provocações anti-islâmicas. Um cenário de confronto inter-confessional de resultados certamente dramáticos, caso não seja desmontado e revertido.

A sagração de um papa polonês rompeu longuíssimo rosário de pontífices italianos. Desde o primeiro momento, Woytila contou com a simpatia da população católica e não católica conservadora italiana, por ser expoente da "Igreja do silêncio", em confronto essencial com o Estado operário polonês, aliado carnal do Partido Comunista Italiano. O papa polonês teve a sensibilidade de jamais ferir as idiossincrasias do cristianismo italiano. Formada tardiamente pela unificação de povos de origens e línguas diversas, a Itália desconhece qualquer coisa semelhante à narrativa nacional alemã sobre a raça ariana. Em país em que o comunismo e o movimento operário são referências muito fortes, a Igreja italiana fortaleceu sua identidade nacional através da defesa dos trabalhadores imigrantes de todos os credos.

O prosseguimento da proposta de cruzadismo e exclusivismo euro-cristão, a passo prussiano, abrirá fratura no seio sobretudo da comunidade européia, católica e não católica, com destaque para a italiana, população que ainda têm enraizadas na memória histórica as violências do exclusivismo racial nazista. Foi magnânimo - mas não sem limites - o esforço realizado pela população européia para olvidar os longos cinco anos que Ratzinger militou na juventude e nas forças armadas hitleristas.

(*) Mário Maestri, 58, é historiador e professor da Universidade de Passo Fundo (UPF). E-mail: maestri@via-rs.net


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