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12.10.2005
UMA CAMPANHA SURPREENDENTE
Eleições em Portugal foram marcadas por candidatos assassinados e acusados de crimes

Por Ariana Erbon, de Lisboa - arianaerbon@hotmail.com

A campanha eleitoral de 2005 em Portugal durou apenas duas semanas. Começou no dia 27 de setembro e terminou no dia sete de outubro, a dois dias das "Eleições Autárquicas", que decidiram os dirigentes dos próximos quatro anos dos Conselhos (Autarquias) e das Freguesias portuguesas (subdivisões dos conselhos).

O Conselho de Trancoso, situado na região da Beira Interior de Portugal, foi o palco das duas maiores tragédias registradas nas eleições municipais deste ano, marcadas pelo imprevisto e pelo extraordinário. Dois candidatos às Freguesias de Trancoso foram aparentemente assassinados, um no início da campanha e o outro perto do fim.

Miguel Madeira, candidato à Freguesia de Vila Franca das Naves, levou dois tiros de espingarda no dia 27 de setembro por um habitante local, devido a uma disputa por lugares de estacionamento num terreno. Já o candidato à Freguesia de Freches, Manuel Plácido, foi encontrado morto dentro do próprio carro, junto a uma pistola de calibre 6,35 mm, no dia seis de outubro.

Numa estranha coincidência, os dois candidatos pertenciam ao Partido Social Democrata (PSD), que elegeu o maior número de candidatos nesta e na última eleição, realizada em 2001.

Em Portugal, o voto é facultativo. Numa campanha eleitoral atípica, os blogues (diários publicados na Internet) foram o instrumento político da moda, fenômeno que se tornou comum a todos os partidos portugueses, permitindo vincular notícias mais favoráveis às listas de candidatos para melhor convencerem os eleitores. No endereço http://blogautarquicas.blogs.sapo.pt, os leitores podiam encontrar um resumo do que de melhor era elaborado, desde campanhas em lugares exóticos como caixotes de lixo até os motes mais engraçados.

Como no Brasil, há a distribuição de brindes de campanhas políticas, como bonés, adesivos e canetas aos eleitores indecisos. Um dos gestos mais originais desta campanha fica para o candidato à Freguesia de Maximinos, do conselho de Braga, que distribuiu algo bem à portuguesa: chouriços, aqui conhecidos como "enchidos", para valorizar o produto nacional (no caso, a carne do porco). O exemplo foi seguido por outra candidata à mesma freguesia, que completou o banquete distribuindo garrafas de vinho, cujo rótulo continha os dizeres de sua campanha.

O ex-presidente socialista Mário Soares, de 80 anos, que lançou recentemente a sua recandidatura à Presidência portuguesa, foi ainda acusado de violar a lei eleitoral ao pedir votos para João Soares, seu filho, candidato à autarquia de Sintra, no próprio dia da eleição, realizada no dia nove, último domingo.

Para fechar com chave de ouro estas polêmicas eleições, quatro candidatos de peso foram deixados de lado pelos seus partidos e tiveram de se candidatar de forma independente, porque estão sob processos judiciais. Valentim Loureiro, indiciado por 18 crimes, foi eleito para o conselho de Gondomar, enquanto Isaltino Morais conquistou a autarquia de Oeiras, mesmo sendo suspeito de corrupção passiva, evasão fiscal e lavagem de dinheiro.

Avelino Ferreira Torres concorria ao conselho de Amarante, mas não foi eleito. O candidato tem uma condenação a três anos de prisão por peculato e uma acusação recente de falência fraudulenta, apesar de ter governado o conselho de Marco da Canaveses pelo CDS-PP durante 23 anos.

A autora do lance mais espetacular destas eleições - digno de cena de novela - é Fátima Felgueiras, a candidata independente para o conselho de Felgueiras. Nascida no Brasil e residente em Portugal desde os quatro anos de idade, Fátima foi eleita autarca de Felgueiras em 1997 e 2001. Acusada de 23 crimes, ela fugiu para o Brasil em maio de 2003.

Retornou a Portugal no dia 21 de Setembro, a tempo de relançar a sua candidatura ao conselho que abandonara há dois anos. Contra toda a lógica, Fátima Felgueiras venceu as eleições com mais de 50% dos votos.

O Partido Socialista (PS), do atual primeiro-ministro português, José Sócrates, manteve nestas eleições uma clara tendência a ser penalizado pelas medidas restritivas do Governo, lançadas para corrigir o déficit nacional. O PS elegeu cerca de 40 autarcas a menos do que PSD.


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