......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



11.04.2007
NOSSA AMÉRICA EM MOVIMENTO

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

No final do mês passado, o governo Chávez reafirmou que não renovará a concessão da emissora Rádio Caracas Televisión (RCTV). O anúncio foi feito pelo ministro do Poder Popular para as Telecomunicações e Informática da Venezuela, Jesse Chacón Escamillo.

Nas últimas semanas, o governo venezuelano também deu seqüência à Reforma Agrária e à estatização dos setores de telecomunicações e eletricidade.

No Equador, o governo de Rafael Correa segue pelo mesmo caminho. Ele disse ontem (10/4) que é preciso que o Estado exerça maior controle sobre a mídia para evitar a concentração no setor. Correa disse também que é possível que a Assembléia Nacional endureça as leis nesse sentido e ressaltou a incompatibilidade de uma democracia em que grupos financeiros estão associados a veículos de comunicação.

"Entre 60% e 70% de todos os meios de comunicação, incluindo os meios de comunicação escritos, estão vinculados a grupos financeiros. Há grupos que possuem dois ou três canais de televisão e 40 ou 50 rádios. Então, são os donos da verdade absoluta", disse Correa, que espera reformas "severas e profundas" na legislação.

Com relação à Base de Manta, cedida aos EUA por governos anteriores, a situação é delicada. Depois que a ministra da Defesa socialista Guadalupe Larriva morreu num acidente em circunstâncias ainda não esclarecidas, no início do ano, o governo Correa tem evitado tocar no assunto. Entretanto, a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), uma importante entidade representativa dos povos originários, vem cobrando publicamente uma investigação séria, independente e sem a participação dos EUA "porque o governo deste país já participou de dezenas de assassinatos de líderes populares e militares nacionalistas na América Latina e no mundo". Até agora os resultados da investigação não foram divulgados.

Em carta dirigida à nação, a CONAIE lembra ainda que Larriva foi uma grande opositora à permanência de tropas militares estadunidenses em Manta e tinha o "firme compromisso de levar adiante a revisão do 'livro branco' [espécie de regulamento] das Forças Armadas de seu país". A CONAIE foi uma das principais entidades a coordenar as manifestações populares que levaram à deposição do presidente Lucio Gutierrez, em maio de 2005, após ele descumprir sistematicamente suas promessas de campanha.

União regional
Chávez e Correa articulam, em conjunto, a criação do Banco do Sul. Esta instituição seria uma espécie de BNDES latinoamericano. O objetivo é respaldar a criação de uma moeda única na América Latina e manter as reservas nacionais na região. "A América Latina tem reservas de 200 bilhões de dólares no exterior que estão financiando os países mais ricos", disse o presidente equatoriano, que é também economista.

A iniciativa dá seqüência aos entendimentos da última Cúpula do Mercosul, realizada no Rio de Janeiro nos dias 18 e 19 de janeiro. Na ocasião, os presidentes dos países que integram o bloco assinaram acordos importantes nas áreas de política, economia, comércio, segurança e defesa, saúde, educação, desenvolvimento social, cultura, meio ambiente, energia, transporte, ciência e tecnologia.

O continente está nitidamente se reposicionando frente ao cenário mundial. A maioria das últimas eleições foram vencidas por candidatos que levantaram bandeiras nacionalistas e/ou de esquerda. A Venezuela de Chávez foi declarada território livre do analfabetismo pela Unesco. Os últimos dois milhões de habitantes que não sabiam ler e escrever foram alfabetizados pelo método cubano "Yo, Si, Puedo".

O mesmo serviço está sendo implementado pelo governo Morales, na Bolívia. De acordo com o jornal conservador La Razón, a cooperação de Cuba "se traduziu na doação de 10 mil aparelhos de televisão, 4.400 reprodutores VHS, 170 mil cassetes com 65 programas ou teleclasses, manuais com a participação de pessoal boliviano e a assessoria de especialistas". A previsão é que a campanha de alfabetização na Bolívia termine em 2008.

A Argentina segue avançando pontualmente. Sua economia cresceu quase 10% no ano passado e, no plano dos direitos humanos, vários torturadores da época da ditadura foram levados a julgamento; alguns estão presos. O que não é pouca coisa, sobretudo se compararmos com o Brasil, onde a primeira ação acolhida contra um torturador só aconteceu entre o final de 2006 e o início deste ano.

Contra o avanço neoliberal
Entretanto, o governo Kirchner precisa lidar com o avanço neoliberal expresso na figura de Rodrigo Macri e no fenômeno Bloomberg. Este, engenheiro e próspero empresário, usa o seqüestro de seu filho para promover uma grande campanha pela redução da maioridade penal, leis mais duras e todo o receituário neoliberal.

A força de Bloomberg não é desprezível. Em agosto do ano passado, ele liderou uma manifestação que levou às ruas de Buenos Aires dezenas de milhares de argentinos. Ainda assim, o kirchnerismo tem a preferência das classes sociais menos favorecidas e as últimas pesquisas garantem a sua vitória este ano, tanto nas eleições presidenciais quanto para o governo da capital.

Na Colômbia a situação é bem diferente. O governo central ainda é extremamente alinhado à política externa estadunidense, o que permite que cada vez mais tropas dos EUA desembarquem em solo latinoamericano. No entanto, o presidente Álvaro Uribe vem perdendo força, sobretudo a partir dos escândalos que vieram a público no final do ano passado.

De acordo com a imprensa colombiana, dezenas de parlamentares da base governista estariam associados a grupos paramilitares. Além disso, o próprio presidente aparece numa investigação da George Washington University como um ex-amigo próximo de Pablo Escobar, "dedicado colaborador do cartel de Medelín".

No próximo "Nossa América em Movimento" traremos informações sobre Paraguai, Uruguai, Peru e Chile, além de uma série especial sobre Cuba. E, claro, seguiremos acompanhando os acontecimentos por todos os países da América Latina, a Nossa América.


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