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10.11.2005
REVOLUÇÃO "CIVIL" FRANCESA
Por Carol Morandini, de Paris - redacao@fazendomedia.com
"Um rio que tudo arrasta se diz violento. Mas não se dizem violentas as margens que o oprimem" - Bertolt Brecht
Há quatorze dias teve início uma "guerra civil" sem limites na França. Várias e grandes cidades têm sido alvo de violentas manifestações, provocadas pela ira de adolescentes franceses, em sua maioria descendentes de africanos e mulçumanos, contra o atual governo e sua má política nacional.
Anteontem o governo declarou estado de emergência, que entrou em vigor ontem a partir da meia-noite. O prefeito de cada cidade e/ou zona poderá implantar o toque de recolher, caso considere a medida necessária para barrar a crescente violência. De acordo com uma pesquisa de opinião pública realizada pelo jornal Le Parisien, 73% dos franceses apoiam tal decisão para restaurar a calma.
O que os manifestantes pedem? FORA SARKOZY! Por quê? Devido às péssimas condições em que vivem suas famílias, ao enorme desemprego, à pobreza e à falta de acesso à educação. Problemas que refletem hoje a má administração que vem sendo realizada no país em relação à antiga e crescente imigração.
Mas o que Nicolas Sarkozy tem a ver com tudo isso? Além da revolta contra o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, os franceses descendentes de imigrantes pedem, furiosos, a expulsão do ministro do interior, acusado de piorar a situação ao utilizar termos nada "políticos" como "ralé" para designar jovens da periferia.
Se tudo o que vem acontecendo vai resolver alguma coisa no futuro, ainda não se sabe, mas eles não estão dispostos a parar até atingir seus objetivos. A violência, que começou nos subúrbios de Paris em razão da morte dos dois jovens de origem africana que fugiam da polícia, continua trazendo mais destruição e fazendo mais feridos.
Em todo o país os números chegam a mais de 6.500 veículos queimados, um civil morto, dezenas de pessoas feridas e cerca de 1.800 jovens detidos. A 12ª noite foi a pior somando 1.173 carros destruídos e mais de 300 pessoas presas. Ontem, no entanto, houve uma grande redução de acordo com o governo francês e "apenas" 617 carros queimados.
Durante intervenção na Assembléia Nacional, o primeiro-ministro, Villepin, anunciou uma série de medidas que visam apoiar as regiões pobres e lutar contra a discriminação, desemprego e falta de oportunidades. "A luta contra todas as formas de discriminação deve ser uma prioridade para a comunidade nacional", afirma, "a República enfrenta um momento de verdade. O que está em causa é a concretização do nosso modelo de integração", conclui.
Algumas de suas propostas são: criação de uma agência para coesão social e igualdade de oportunidades, além de quinze zonas francas urbanas, que incentivem a implantação de empresas nessas áreas e aumentem a oferta de empregos; apoio à contratação de jovens moradores dos subúrbios; e, a partir de janeiro, a instalação de cinco mil postos de assistência pedagógica.
O que se espera agora é que as medidas apareçam e sejam colocadas em prática com rapidez. A imigração que sempre existiu é reflexo de um processo falido de colonização e, hoje, de um governo com administração ineficaz frente ao crescente número de imigrantes e seus descendentes. O que se espera é respeito e, para que ele exista, é necessário respeitar.