
08.02.2007
MORTE DE MINISTRA EQUATORIANA AINDA NÃO FOI ESCLARECIDA
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
A causa da morte da ministra da Defesa do Equador, Guadalupe Larrivia, ainda não foi esclarecida. A primeira mulher a assumir a pasta da Defesa em toda a história do Equador tem sua trajetória política construída no seio do partido socialista, ao qual era filiada, e nas lutas por justiça social neste país que tem no petróleo sua maior fonte de renda.
Embora a maior parte da mídia brasileira tenha encerrado o assunto com a hipótese de acidente com o helicóptero em que viajava no último dia 24 de janeiro, oficiais das Forças Armadas equatorianas afirmam que as investigações podem apontar outras causas.
Jorge Brito, coronel aposentado do Exército do Equador, estranhou que nenhum integrante do alto comando estivesse acompanhando a ministra. Em entrevista concedida à rádio La Luna, ele disse: "O risco de voar durante a noite tem que ser devidamente considerado. Mas há uma série de inquietudes: por que não voou alguém do alto comando militar?".
Uma outra questão relevante deve-se ao local em que se deu o desastre aéreo, ocorrido nas proximidades da Base Militar de Manta, cujo controle foi cedido aos EUA por governos anteriores. Esta é uma questão particularmente delicada, pois a bandeira da nacionalização dessa base tem sido freqüentemente adotada por candidatos de esquerda nas últimas eleições. Foi assim com Lúcio Gutierrez, que prometeu retomar seu controle e, uma vez eleito, acabou abandonando a proposta, sendo expulso do governo por um levante popular há dois anos.
O presidente recém-eleito, Rafael Correa, assumiu seu mandato com uma forte discurso nacionalista e socialista. O economista de 44 anos afirmou que renegociaria a dívida externa e anunciou uma aproximação com a Venezuela e a Bolívia. Em suas primeiras semanas de mandato, Correa tenta a realização de uma Assembléia Constituinte, mas encontra forte oposição do Congresso, cuja maioria dos deputados é de oposição ao presidente eleito.
Histórico de atentados
Não é a primeira vez que um desastre aéreo interfere na vida política equatoriana. No dia 24 de maio de 1981, o então presidente Jaime Roldós morreu na queda e explosão do helicóptero em que viajava, após discursar no Estádio Olímpico de Atahualpa, em Quito.
Na época, foi levantada a hipótese de atentado, mas nada ficou provado. Mas vale recordar algumas medidas adotadas por Roldós. Logo no início de seu mandato, ele havia encaminhado ao Congresso uma nova Lei de Hidrocarbonetos, que tinha o objetivo de alterar a maneira como os negócios eram conduzidos.
De acordo com John Perkins, em seu livro "Confissões de um assassino econômico" (Editora Cultrix), a reação foi forte. "As companhias petrolíferas reagiram como previsível - lançaram mão de todos os recursos disponíveis. O seu pessoal de relações públicas começou a trabalhar para aviltar Jaima Roldós e os seus lobistas esquadrinharam Quito e Washington, as pastas cheias de ameaças e subornos".
Mais à frente, Perkins explica o objetivo dessa operação. "Eles tentaram pintar o primeiro presidente democraticamente eleito do Equador nos tempos modernos como outro Castro. Mas Roldós não se deixaria intimidar. Ele reagiu denunciando a conspiração entre a política e o petróleo - e a religião. Ele acusou abertamente o Summer Institute os Linguistics [SIL] de conluio com as companhias petrolíferas e então, em um gesto de extrema coragem, (...) ordenou que o SIL deixasse o país".
As investigações sobre o desastre que matou a ministra Guadalupe Larrivia ainda estão abertas. O presidente da República Rafael Correa pediu que tudo fosse apurado com rigor, e a embaixada dos EUA ofereceu ajuda. Agora, cabe à mídia acompanhar e divulgar os resultados tendo em vista o interesse público.