
05.03.2007
A COCA NA BOLÍVIA
EUA ameaçam sanção ao país apesar de o uso da planta estar relacionado principalmente a questões culturais
Por Raquel Junia, da Bolívia - raquel@fazendomedia.com
A edição do dia dois de março do jornal boliviano Correio del Sur traz na capa a manchete: "Estados Unidos rechaçam a política da coca e advertem Bolívia com sanções". A reportagem fala sobre um documento do Departamento de Estado dos Estados Unidos no qual a Bolívia estaria violando normas internacionais e nacionais ao promover o cultivo da folha de coca.
Segundo o jornal, o documento explicita ainda que essa constatação pode determinar, a partir de setembro, sanções econômicas estadunidenses não só à Bolívia, mas também aos países que não estiverem se esforçando para combater o tráfico de drogas. Entretanto, ao final da reportagem, é informado que, no mesmo documento, os Estados Unidos reconhecem que em 2006 a Bolívia logrou resultados significativos na apreensão de cocaína - um total de 14 toneladas, contra 11,5 toneladas em 2005.
"Comissão Coca"
No processo da Nova Constituição Boliviana há uma comissão destinada especificamente ao tema da folha de coca. Na presidência do grupo, está a líder cocalera Margarita Terán, militante do Movimiento Bolivia Libre. "Sabemos muito bem que a folha de coca não é cocaína, não é droga, não é um químico. Aqui na Bolívia muita gente utiliza essa folha e essas pessoas não são drogadas. Só quando já está processada com químico, aí sim é droga. Por isso, pedimos e criamos essa comissão para que redija uma proposta na Nova Constituição Política do país reconhecendo a folha de coca como um patrimônio nacional, uma planta medicinal", explica.
"Estamos trabalhando com os temas de descriminalização, industrialização e revalorização da folha de coca, para que a Nova Constituição garanta o uso. O que se aplica hoje é uma lei. Como fizeram essa lei? Enviaram dos Estados Unidos em inglês, aqui traduziram e a submeteram. Assim só reconhecem a um setor dos produtores de coca", acrescenta.
Sobretudo, uma questão política
Nas ruas da capital constitucional da Bolívia, Sucre, é muito comum ver pessoas, principalmente campesinos, mascando folhas de coca. Nos estabelecimentos comerciais e cafés se vendem chás da planta. Na Assembléia Constituinte vários deputados e deputadas de origem indígena têm em um canto de suas mesas folhas de coca e vão mascando no decorrer das seções.
Diante dessas imagens é realmente possível perceber que a coca faz parte da tradição boliviana. Mas não apenas por uma questão cultural. Um trecho do livro "Se permitem hablar… Testimonio de Domitila - una mujer de las minas de Bolívia", da educadora brasileira Moema Viezzer, mostra um dos motivos da utilização da coca por trabalhadores mineiros.
Domitilla é dirigente de movimento de mulheres em um povoado mineiro chamado Século XX. Ela conta como é a rotina de um trabalhador mineiro no final da década de 70. Segundo a dirigente, há três turnos de trabalho no interior da mina: de seis da manhã às três da tarde, de duas da tarde às onze da noite e de dez da noite às seis da manhã, incluindo o tempo necessário para entrada e saída da mina.
"Quando o trabalhador está no primeiro turno, nós mulheres temos que levantar às quatro da manhã para preparar o café da manhã do companheiro. As três da tarde ele chega da mina e até essa hora não comeu nada. Como agüentam então na mina? Mascando folha de coca com lejía. A coca é uma folha que têm um sabor muito amargo, mas faz esquecer a fome", conta.
Domitilla explica ainda porque os trabalhadores não comem dentro da mina. "Não é possível entrar comida lá dentro, não é permitido. E também a comida queima depois de passar por tantos lugares dentro da mina. Há muita pólvora, muito calor por causa das dinamites que usam. Assim, comeriam algo que lhes faria mal. Teriam que organizar tudo de outra maneira. Se a empresa quisesse poderia fazer corredores limpos ali dentro, mas não interessa a ela [a empresa]".
As declarações de Domitilla mostram que por trás de uma questão cultural também está uma questão social. Ainda hoje trabalhadores e desempregados bolivianos mascam folha de coca para espantarem a fome. Generalizar o uso da coca apenas como produto base da cocaína é também fechar os olhos para uma realidade boliviana.
Os EUA e a Bolívia
No livro El Saqueo de Bolivia, o escritor boliviano Marcelo Quiroga Santa Cruz mostra como empresas estrangeiras, com o auxílio do governo ditatorial na década de 70, obtiveram grandes lucros com as riquezas naturais do país. Conseqüentemente, desses mesmos lucros foi alijada a maioria dos bolivianos. Maioria esta que pode ser a mesma parcela de pobres que hoje masca coca para despistar a fome. Santa Cruz expõe como foi direta a orientação dos Estados Unidos à ditadura boliviana.
"Como ocorre em toda campanha de conquista, a ordem de ingresso dos invasores aos países ocupados tem relação inversamente proporcional a sua autoridade. Em 21 de agosto de 1971 chegaram primeiro os conspiradores, depois os tanques, logo os executivos das empresas privadas monopólicas e finalmente o embaixador norte-americano".
Em poucas linhas, Marcelo Quiroga faz um apanhado geral do período. "Em quatorze meses, a ditadura despojou a nação de suas riquezas naturais e as deu como obséquio ao imperialismo, arrebatou os salários dos trabalhadores e os presenteou a burguesia antinacional".
Hoje, aparentemente preocupa aos Estados Unidos o fato de a Bolívia ter um presidente que surgiu do movimento cocalero e, portanto, ligado às reivindicações desse setor, como o aumento da área de cultivo legal da folha de coca. Entretanto, essa não é a única preocupação. Também observam atentos às políticas de nacionalização do presidente Evo Morales a aproximação entre Bolívia, Cuba e Venezuela e o processo da Nova Constituição Política boliviana que pode mudar muito o país.