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Editor: Gustavo Barreto - gustavo@fazendomedia.com


01.08.2006
MAIS 34 CRIANÇAS ASSASSINADAS PELO GOVERNO ISRAELENSE EM QANA


Vítimas do terrorismo de Estado israelense

Por Gustavo Barreto - gustavo@fazendomedia.com

Pelo menos 54 pessoas estão mortas em Qana, no sul do Líbano, em um dos mais violentos ataques do governo terrorista de Israel neste domingo, 30 de julho. A agência de notícias inglesa BBC confirmou que pelo menos 34 vítimas eram crianças, mas os números devem aumentar nas próximas horas. Famílias de desabrigados estavam em um prédio de três andares que foi destruído. Dezenas de pessoas podem estar presas nos escombros, segundo agências internacionais.

A BBC tratou de desmentir o premiê israelense, Ehud Olmert, que afirmara que os habitantes do edifício atingido foram avisados do ataque e que o lugar foi alvejado porque "o Hezbollah usava as imediações para disparar foguetes contra o norte de Israel". O correspondente da BBC em Qana, Fergal Keane, escreveu que os civis libaneses não têm saída, porque alguns são avisados para deixar a área, mas são atingidos quando estão nas estradas. Olmert também não explicou porque o prédio foi atingido, se eram as imediações - e não o prédio - que estavam sendo usadas pelo Hezbollah.

Outro correspondente da BBC no sul do Líbano, Jim Muir, afirmou neste sábado que muitas pessoas tinham medo de deixar o local por causa dos ataques nas estradas, enquanto outros não tinham condições de fazer a viagem.

Reações aos ataques
Até mesmo o subserviente rei Abdullah, da Jordânia, tradicional aliado dos Estados Unidos e um dos poucos governos árabes que mantém relações com Israel, disse que o ataque foi um "crime horrível" e uma gritante violação da lei internacional. Jacques Chirac, presidente da França, disse que se tratava de uma "ação injustificável" e que mostrava mais uma vez "como um cessar-fogo era necessário". Conivente com os crimes de guerra, a secretária de relações exteriores da Grã-Bretanha, Margaret Beckett, disse que a morte dos civis era "pavorosa".

Os norte-americanos, que até o momento não cessaram o apoio militar e financeiro a Israel, como exigem dezenas de entidades internacionais de defesa de direitos humanos, reagiram com hipocrisia ao caso. Condoleezza Rice se disse "profundamente entristecida" com o bombardeio e ofereceu as "condolências do presidente americano, George W. Bush, e do povo americano", adicionando que as operações militares israelenses estavam causando "preocupação".

O Hezbollah imediatamente lançou mais foguetes contra o norte de Israel, aumentando o clima de tensão na região. A grande maioria da população libanesa não apóia o terrorismo do Hezbollah, mas entende perfeitamente quando um de seus líderes, Hassan Nasrallah, afirma que Rice estava voltando à região para impor condições ao Líbano e servir a Israel. O que parece um posicionamento "radical" para a opinião pública internacional é uma realidade para os libaneses há pelo menos 40 anos. Após os ataques deste domingo, Rice cancelou sua viagem ao Líbano.

Novamente o silêncio foi concedido ao primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, que classificou os ataques a Qana como crimes de guerra. "Não há lugar nesta triste manhã para nenhuma discussão antes de um cessar-fogo imediato e incondicional seja decretado, bem como uma investigação internacional sobre os massacres israelenses no Líbano se inicie. A persistência de Israel nesses atos criminosos contra civis não irá destruir a determinação do povo libanês", afirmou Siniora à agência de notícias Reuters.

A Organização das Nações Unidas (ONU), vista como uma das últimas pontes entre o mundo árabe, Israel e os Estados Unidos, foi alvo de protestos durante o final de semana em Beirute. Mais de mil manifestantes se reuniram diante do prédio da Organização para protestar contra o ataque a Qana. A multidão, que chegou ao local de diferentes partes da cidade, invadiu as dependências do prédio da ONU, derrubou cercas e portas e queimou bandeiras de Israel e dos Estados Unidos.

Atrocidades devidamente "autorizadas"
Após a ausência de um posicionamento firme durante a reunião em Roma nesta quarta-feira, dia 26 de julho, para tentar acabar com o conflito no Líbano, o ministro da Justiça de Israel, Haim Ramon, sugeriu que seu país foi "autorizado pela comunidade internacional a continuar bombardeando o Líbano". O posicionamento de Israel foi visto como "ultrajante" pelo porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Adam Ereli, mas foi feito com base em recentes acontecimentos, se por comunidade internacional entendermos os países mais ricos do mundo.

Mesmo diante das crescentes atrocidades no sul do Líbano, a declaração conjunta de lideranças reunidas em Roma no dia 26 de julho não pediu uma trégua imediata. Os líderes dos principais países se limitaram a fazer declarações excessivamente diplomáticas, como a do próprio Ereli: "Os Estados Unidos não estão medindo esforços para trazer um fim duradouro para este conflito".

O presidente norte-americano George W. Bush disse na quinta-feira (28/7) que o cessar-fogo só valeria a pena se puder ser "duradouro", rejeitando o que classificou como "falsa paz". Conforme interpretou Haim Ramon, com a conivência - na prática - de países como França, Inglaterra e Alemanha, estava dada a autorização da qual precisava Israel. Somente 3 semanas após o início das atrocidades, a França começou a "circular o rascunho de uma resolução" na ONU pedindo um cessar-fogo imediato no Líbano.

Apesar de se iniciar uma reação internacional, mesmo que atrasada, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, afirmou num encontro com Condoleeza Rice no sábado (29/7) à noite "não estar com pressa de assinar uma trégua", sem antes ter "atingido seus objetivos com a ofensiva". Ele disse que "precisaria de mais 10 a 14 dias para colocar um fim aos ataques", informou a agência de notícias BBC.

A comunidade internacional, para além da interpretação da imprensa empresarial global, é formada por muitos outros atores, com igual capacidade de mobilização de recursos humanos e financeiros, mas sem igual poder midiático. É o caso de entidades como a organização não-governamental Anistia Internacional, que tornou pública uma carta dirigida a ministros de Assuntos Exteriores reunidos em Roma. No documento, a Anistia alerta que os civis de ambos os lados da fronteira entre Israel e Líbano são os mais castigados pelo conflito e faz uma série de exigências concretas aos governos presentes no encontro (leia nossa reportagem sobre este tema clicando aqui), como forma de acabar rapidamente com os conflitos. Nenhuma delas foi incorporada até o momento.

Desastre também é ecológico
O maior desastre ambiental no Mar Mediterrâneo de todos os tempos. Este é, segundo o governo do Líbano, mais uma grave conseqüência dos ataques de Israel na região sul do país. O desastre teria acontecido depois do bombardeio israelense a tanques de combustível em uma usina elétrica. O ministro do meio-ambiente libanês, Yacoub Sarraf, disse à agência de notícias AFP que a quantidade de óleo que vazou para o mar é comparável aos desastres com os petroleiros Exxon Valdez e Amoco Cádiz. "Entre 10 mil e 15 mil toneladas de óleo vazaram no mar", disse Sarraf á AFP.

O acidente com o Exxon Valdez aconteceu em 1989, quando o navio da companhia de petróleo Exxon bateu num recife no Alasca, causando uma tragédia ambiental, afetando quase 2 mil km da costa da região. O acidente teria acontecido depois do bombardeamento da usina em Jiyeh, duas semanas atrás. Segundo Sarraf, todo o ciclo de biodiversidade foi afetado e a região sofrerá terríveis conseqüências.

Região castigada por sua importância
A História de destruição e sofrimento no Líbano remonta a décadas de intervenção imperialista. Dwight D. Eisenhower, presidente dos Estados Unidos entre 1953 e 1961, enviou tropas militares para o Líbano para afastar o que considerava uma "ameaça nacionalista" na região e para garantir o controle sobre as redes de abastecimento. É neste contexto - amplamente deturpado pela imprensa empresarial - que manifestantes gritavam neste domingo, 30 de julho, em frente ao prédio da ONU palavras de ordem pró-Hezbollah e anti-Israel (tradicional aliado norte-americano), além de afirmar que queriam "Beirute livre".

Eisenhower reiterou, em documentos oficiais recuperados décadas depois por jornalistas independentes norte-americanos, sua preocupação com a "área estrategicamente mais importante do mundo" e enfatizou que a perda do controle "seria muito pior do que a perda da China" - vista como uma catástrofe no cenário pós-guerra - "por causa da posição estratégica e dos recursos do Oriente Médio".

A primeira invasão do sul do Líbano foi em 1978, seguida por uma outra 4 anos depois. Até hoje, áreas invadidas então pelo império israelo-americano continuam sob domínio estrangeiro. A invasão de 1982 e suas conseqüências apenas em curto prazo provocaram 20 mil mortes. Fontes libanesas afirmam que outras 25 mil morreram em decorrência da intervenção. "O assunto desperta pouco interesse no Ocidente, com base no fato de que os crimes pelos quais somos responsáveis não exigem investigação, muito menos punição ou reparações", ironiza o escritor Noam Chomsky, especialista em política internacional e crimes de guerra.

História que se repete
Assim como afirmou na última sexta-feira (28/7) que as operações visam a libertação de um soldado (Gilad Shalit), supostamente capturado por milícias palestinas, Israel aproveitou-se em 1982 da tentativa de assassinato de seu embaixador em Londres por um grupo terrorista chefiado por Abu Nidal. A imprensa não achou importante destacar que Nidal fora condenado à morte pela própria Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e há anos estava em guerra com ela. "A utilização de tal pretexto era aceitável para articular a opinião pública norte-americana", afirma Chomsky.

O fraco argumento, unido ao aparato mediático hegemônico, foi o suficiente para driblar a opinião pública internacional, permitindo que Israel respondesse com um ataque aos campos de refugiados palestinos de Sabra-Shatila, em Beirute, onde 200 pessoas foram mortas, segundo observadores internacionais presentes na região. Como hoje, as tentativas da ONU para pôr fim à agressão receberam vetos norte-americanos instantâneos.

"Assim prosseguiram as coisas ao longo de sangrentos anos de atrocidades israelenses no Líbano, raramente justificadas sob pretexto de legítima defesa. A maior parte dos especialistas e da mídia optou pelas balelas sobre ataques de foguetes a israelenses inocentes e invenções similares, embora hoje a verdade seja às vezes admitida", conclui Chomsky.

Para se entender as manifestações no mundo árabe, é preciso entender porque os gritos de ordem "Beirute livre" assustam mais do que os gritos "anti-Israel". Em seguidos posicionamentos na ONU, Estados Unidos e Israel classificaram o Hezbollah como uma das principais organizações terroristas do mundo, não em função de seus atos terroristas - que são reais -, mas por ser uma organização criada para resistir à ocupação israelense no sul do Líbano. "Eles conseguiram expulsar os invasores, após duas décadas de desobediência às ordens do Conselho de Segurança da ONU para que se retirassem da região", destaca Chomsky.

Qana já foi vítima
Em 1996, cidade libanesa de Qana já havia sido alvo de ataques de Israel. Após uma ofensiva militar conhecida como "Vinhas da Ira", que durou 16 dias, uma força de paz da ONU foi atacada e pelo menos 100 civis que se abrigavam na base foram mortos. Nesta sexta-feira, 28 de julho, a história se repetiu, agora em Khian. A ONU anunciou que fará uma investigação independente para averiguar a morte de quatro observadores da Organização no Líbano, na última terça-feira (25/7). Bombardeios aéreos e da artilharia israelenses reduziram a escombros um posto de observação militar da ONU em Khian, matando todos os quatro ocupantes.

O Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, revelou que, durante um único dia, o posto da Organização foi atacado por tropas israelenses 14 vezes. Annan declarou ainda que "reiterados chamados a Israel por parte da Força de Paz da ONU no Líbano e da sede principal em Nova Iorque não conseguiram evitar os ataques". O primeiro ministro israelense Ehud Olmert pediu desculpas públicas a Annan, mas insistiu que os 14 ataques em um único dia à base da ONU foram "um acidente".

Terrorismo ou resistência?
A resolução da ONU 42/159, de 7 de dezembro de 1987, levantou uma importante questão naquele momento, considerado pelo próprio Departamento de Estado norte-americano como um período em que o terrorismo alcançou seu auge. O que é terrorismo e o que é resistência?

A ONU compreende a importância da legitimidade das ações para exercer "o direito à autodecisão, liberdade e independência, conforme define o Estatuto das Nações Unidas, dos povos privados à força de tal direito... principalmente povos sob regimes colonialistas e racistas e ocupação estrangeira". A citação acima é da resolução 42/159 da Assembléia Geral, o mais democrático órgão da ONU por ser constituída por todos os seus membros. Declarou ainda que "nada na presente resolução pode, de forma alguma, comprometer o direito" assim definido. A votação teve 153 votos a favor, uma abstenção (Honduras) e dois votos contra (Israel e Estados Unidos).

Os motivos dos votos contrários foram colocados de forma transparente em uma sessão da ONU. O trecho "regimes colonialistas e racistas" foi entendido como referência à África do Sul do apartheid, aliada de ambos. Ademais, "ocupação estrangeira" foi entendido como referência à ocupação militar israelense no Oriente Médio, que completava 20 anos.

Os Estados Unidos rotulam de "terroristas" até mesmo os povos que resistem à agressão norte-americana direta, entre eles os sul-vietnamitas, os iraquianos e o Congresso Nacional Africano, liderado por Nelson Mandela e que pôs fim - com a reprovação por parte de Estados Unidos e Israel - ao regime racista na África do Sul.

AFP

Catástrofe ambiental


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