
Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com
29.06.2006
O MENINO E A BOLA
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
O menino corre de lado a outro. Só por correr. Começa a brincar com os garotos mais velhos e, como acontece com muitos, um objeto redondo prende sua atenção. E passa a ser perseguido o tempo inteiro. O menino já não vai à escola, não brinca de mais nada. Passa o dia inteiro com a bola. Se deixar, nem come.
Acontece com poucos: o menino desenvolve uma relação especial com sua amante precoce. Tem por ela verdadeiro fascínio. E na medida do encanto faz dela extensão de seu corpo. Já não podem ser separados. Não querem. Não devem.
O menino cresce. Mente e corpo acima da média. Muito acima. Logo entra no time da cidade e antes da maioridade está entre os profissionais. Teve uma infância alegre. Pobre, mas alegre. Já na adolescência, descobre que pode ganhar muito dinheiro e, agora, do profissional-adolescente muitos se aproximam.
De repente, o menino que não tinha dinheiro para o ônibus passa a ser interessante. Venha, te dou uma carona. Quando você completar 18 anos, posso te dar um carro. Deixa que eu cuido da sua carreira.
E o menino continua crescendo. Seu corpo apresenta desenvolvimento fora do comum. Nenhum outro jogador consegue acompanhar suas arrancadas. Seu chute é certeiro, como a cobiça internacional. Menino, você não precisa viver nesse país pobre, onde poderá ser seqüestrado. Podemos transferi-lo, com toda a sua família, para um castelo. Já imaginou morar num castelo europeu?
O que eu preciso fazer?, perguntou o menino. Nada demais. Basta continuar jogando, que dos papéis cuido eu.
Foi-se o menino brilhar nos gramados europeus. Lá, onde passa mais tempo gravando comerciais. Lá, onde a madrugada lhe sorri em mil prazeres. Um lugar onde os papéis cobram seu preço e a bola já não fascina tanto.