......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com


26.05.2006
A PÁTRIA DE CHUTEIRAS OU DE PÉS DESCALÇOS?

Por Denílson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

Nestes dias que antecedem a Copa do Mundo, circular pelas ruas do Rio de Janeiro suscita-nos algumas indagações, para não dizer inquietações. Assisto um tanto quanto perplexo à incrível capacidade de mobilização organizada do povo em geral. Eis a massa articulando-se de forma ordeira, pacífica, mas acelerada e diligentemente em torno de um objetivo central: torcer pela seleção brasileira na Alemanha. É certo que não se trata de nenhuma novidade, mas nem por isso a perplexidade me abandona.

Já se anuncia para os dias de jogos do Brasil uma espécie de locaute, com hora marcada para começar e tudo. E é fácil prever que nos dias 13, 18 e 22 de junho (sem falar nas prováveis fases posteriores) vamos viver um amanhecer tenso, repleto de expectativas e certos de que a partir do início dos jogos a maioria das ruas estarão vazias enquanto todos os olhares vão se dirigir para alguma tela de TV, através da qual poderemos acompanhar "a pátria de chuteiras" - como dizia Nelson Rodrigues.

Mas o que me chama a atenção, enquanto a Copa não vem, é a momentânea refutação da suposta e tão alardeada passividade do povo brasileiro. Lá está ele nas ruas, organizando uma complexa estrutura a ser posta em funcionamento nos dias de jogos. São mutirões de jovens e adultos, reunidos noite e dia a fim de enfeitar as ruas, organizar a festa, o fornecimento de bebidas e comidas, a pintura do asfalto e de muros, etc, etc.

Movimento espontâneo e descentralizado, lembraria a experiência histórica dos sovietes russos caso a motivação fosse política. Contudo, o engajamento e a militância estruturam-se em prol da conquista de um campeonato mundial de futebol - pela sexta vez!

Noutro dia eu cruzava uma rua de Vila Isabel, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, quando fui forçado a parar numa espécie de pedágio improvisado e cobrado a contribuir com alguma quantia destinada à ornamentação da rua. Diante da minha recusa, insistiram no pedido com o argumento de que pretendiam participar de um concurso das ruas mais bem decoradas para a Copa do Mundo.

Confesso que deixei o local tomado de um delírio súbito em que imaginava o povo tomando as mais diferentes ruas das capitais pelo país afora, disposto a arrecadar fundos sim, mas para impor uma distribuição de renda forçada que há séculos gostaríamos de ver acontecer. Ou que o capital reunido nas ruas tinha por objetivo começar a resolver problemas para os quais todos cansamos de aguardar soluções, como a concentração fundiária, escolas pauperizadas e hospitais sucateados.

Ou ainda que os recursos arrecadados pretendiam fortalecer algum projeto político efetivamente comprometido com a construção de um novo país, sem as profundas desigualdades sociais em que vivemos. Delírio, puro delírio.

Não pretendo aqui reiterar aquela velha e batida máxima que considera o futebol, além da religião, o ópio do povo. O historiador José Murilo de Carvalho há muito tempo já demonstrou que o povo não é bestializado e alienado como os intelectuais e as elites em geral já supuseram no passado. O povo, antes de tudo, é bilontra, constrói suas próprias formas de ação política, que muitas vezes escapam à compreensão elitista e preconceituosa da intelectualidade. E como bom bilontra, faz política no carnaval, nas festas religiosas e populares, nas suas próprias comunidades e, quiçá, no futebol…

De qualquer modo, durante a ditadura militar iniciada em 1964, boa parte das esquerdas, sobretudo os intelectuais de esquerda, não via esse retumbante entusiasmo popular pelo futebol com bons olhos. A bola rolando entre aquelas quatro linhas no gramado teria efeito pra lá de alienante e entorpecente. Talvez por isso, enquanto a nossa seleção conquistava o tricampeonato mundial em 1970, os generais impunham ao país um desastroso regime de governo cujas conseqüências até hoje nos atormentam.

E quando vemos a Rede Globo e a Coca-Cola promovendo os famigerados concursos de ruas mais bem ornamentadas para a Copa, não há como não submergir no mar de inquietantes indagações diante da incrível mobilização do povo nas ruas. Seremos eternamente a pátria de chuteiras? Seremos mesmo incapazes de promover uma luta organizada e autônoma em defesa dos nossos interesses prioritários? Por quê? Afinal, a quem serve tudo isso?

Fica o leitor, desde já, convidado a refletir e debater sobre o tema.

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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