
Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com
26.01.2006
CAMPEONATO ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO COMPLETA CENTENÁRIO
Regulamento dá margem a injustiças mas aumenta emoção da disputa
Por Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com
Já está em pleno andamento mais uma edição do campeonato estadual de futebol da primeira divisão do Rio de Janeiro. Pelo menos nós aqui do Fazendo Media o chamaremos assim. Ele é vendido erroneamente por marqueteiros de outras praças, e até mesmo pela própria Federação, ao ser chamado de "campeonato carioca", ignorando clubes como o Americano, de Campos; Cabofriense, de Cabo Frio; Friburguense, de Nova Friburgo; o estreante Nova Iguaçu; e o atual vice-campeão, o Volta Redonda, que representam quase metade dos times da competição.
Ao contrário do que a maioria dos veículos vêm afirmando, esta não é a centésima nem a centésima-primeira edição, como deveria ser. Na verdade, o campeonato deste ano é o de número 102, pois aconteceram duas competições em 1979, ambas vencidas pelo Flamengo. Esta é apenas uma entre as inúmeras curiosidades que cercam a disputa, marcada por interferências políticas, reviravoltas, tapetões, malas pretas, papeletas amarelas e principalmente por regulamentos esdrúxulos como o atual.
Sim, amigo leitor do Fazendo Media, acredite: o regulamento atual é tão estapafúrdio que permite, entre outras coisas, um time ser campeão e rebaixado ao mesmo tempo; ou um time conquistar o título sem precisar vencer uma partida sequer! Em 2004, o Flamengo quase conseguiu a façanha, ao terminar o torneio em 6º lugar na soma de pontos (atrás de Fluminense, Vasco, Americano, Botafogo e Friburguense), mas vencendo a final contra o próprio Vasco.
Por outro lado, um time pode vencer 14 jogos, perder um, e empatar dois, com aproveitamento equivalente a 86,3% dos pontos disputados e não conseguir a taça, algo parecido com o que aconteceu com o Volta Redonda na edição de 2005. Não é genial?
Influência da televisão é responsável pelas distorções
Nossos cartolas são muito "criativos", mas não devem receber o crédito pela elaboração desta fórmula. Trata-se de imposição da emissora de televisão que paga generosas cotas de transmissão à Federação, que as repassa aos clubes, de acordo com negociação feita anualmente, alguns meses antes do início do campeonato.
A TV tem grande interesse que o campeonato, ou melhor, torneio, já que se trata de uma competição que dura apenas três meses, com o maior número possível de "finais" (neste caso três: a do primeiro turno, a do segundo, e a grande final entre os dois campeões, se eles forem diferentes), porque o interesse, e, conseqüentemente, a audiência, são muito maiores quando existem finais. Em suma, às favas com o mérito esportivo!
Outra influência nefasta da televisão que monopoliza as transmissões é a imposição de horários descabidos, ou mesmo desumanos, para as partidas. Exemplos não faltam: quarta-feira, dez horas da noite (ou após a novela); sábado, quatro da tarde (importante lembrar que estamos em horário de verão, ou seja, três da tarde). Os atletas, que sofrem com o calor, e o torcedor presente no estádio, que fica em situação desconfortável, precisando retornar para sua residência depois da meia-noite, são simplesmente ignorados. O que importa mesmo é o perfeito encaixe na "grade de programação".
Mesmo com muitos problemas, torneio ainda é o mais charmoso do país
O torcedor não é bobo, mas olhando em volta, pelo país, ele pode se reconfortar e saber que o campeonato estadual do Rio de Janeiro é que o mais atrai atenção no Brasil. O campeonato paulista, por exemplo, que poderia ser o mais importante, devido ao poderio econômico de suas equipes, tanto as da capital quanto as do interior, acaba não despertando tanto interesse também por ter uma fórmula de disputa exótica: pontos corridos... em turno único! Outra discrepância sem tamanho, e que pode fazer com que o torneio acabe com várias rodadas de antecedência, como em 2005, quando o São Paulo foi campeão antecipado e as últimas três rodadas serviram apenas para cumprir tabela.
Os grandes craques também não passam mais por aqui. Os tempos de Garrincha, Roberto Dinamite, Rivelino, Gérson, Zagalo, Nílton Santos, Zizinho e Zico, entre muitos outros, ficaram para trás. Hoje, os melhores jogadores desfilam seu talento nos gramados da Europa, que paga altos salários em euros. E o que nos resta são jogadores de segunda linha e jovens promessas que ainda não partiram para o velho continente.
Para esta edição, o grande palco do campeonato está de volta, após mais uma de suas intermináveis reformas, que por sinal ainda não foi concluída. O Maracanã, agora definitivamente sem a geral, e provisoriamente sem as cadeiras comuns, que ainda não foram reinstaladas, foi reinaugurado no último domingo, na partida entre Vasco e Botafogo, com a capacidade máxima de 45 mil torcedores até o final do campeonato estadual.