
Editor: Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
24.08.2006

Por Táia Rocha - contato@fazendomedia.com
Na lógica da poderosa indústria do esporte, quanto mais dinheiro é investido em uma modalidade, maior pressão se vê nos treinos. Quando os que competem são crianças, tudo se agrava. As exigências do esporte freqüentemente afetam o desempenho escolar, já que treinos e competições não costumam respeitar o calendário letivo. Além disso, a pressão da família e do técnico toma dimensões notavelmente maiores, já que se trata de identidades em formação.
Julia Lannes e Carolina Cordeiro sabem bem o que é isso. Dos 7 aos 10 anos de idade treinaram ginástica olímpica no Clube de Regatas do Flamengo. As duas se destacaram nas primeiras fases de ingresso no esporte, chegando à equipe principal, na época conduzida pela técnica Georgette Vidor, atualmente afastada do clube, e deputada estadual pelo PPS.
Segundo uma carta redigida pelos pais de ex-atletas do Clube escrita em novembro de 2000, e ainda segundo as próprias meninas, hoje com dezesseis anos, não foram poucos os maus tratos sofridos nas mãos da treinadora. A carta descreve a conduta de Georgette, que envolveria de xingamentos chulos a punições físicas constantes aos atletas.
"Ela era desequilibrada, mudava muito de humor. Uma vez, errei alguns movimentos de um exercício novo. A cada erro, ela me fazia subir uma corda que ia até o alto do ginásio várias vezes, um exercício tão difícil que raramente era aplicado. Meus pés e mãos começaram a sangrar, tive uma crise de asma. Ela já sabia que tinha asma. Foi tão chocante que, há um ano e meio, eu andava na rua e uma menina que eu nem conhecia perguntou 'Você não é a menina da corda?!'" desabafa Julia.
"A Georgette dava tapas violentos nas meninas na frente de todos, xingava, mas o que mais me chocava eram os sermões sempre aos berros, que humilhavam principalmente as mais pobres. Ela chegou ao ponto de expulsar do Flamengo uma aluna que não era dela!" conta Carolina.
A técnica, hoje supervisora de ginástica artística na academia A!BodyTech, se defendeu em entrevista concedida por telefone: "Quanto aos xingamentos, sou uma pessoa extrovertida, falo alto mesmo. O Bernardinho do vôlei xinga e ninguém fala porra nenhuma. Mas punição física nunca houve. No máximo eu fazia essas coisas que todo técnico faz: mandava embora para casa, deixava de castigo... o atleta precisa suportar a carga."
Segundo as ex-atletas, quando uma criança se feria nos treinos e retornava devidamente medicada, com o membro lesado engessado, a treinadora reclamava: "Certa vez uma menina chegou com o pé engessado e a Georgette disse: 'Você está maluca? Tira esse gesso agora!' Pegou um balde com água, deixando o pé da menina ali até que o gesso se desfizesse, mandando-a treinar em seguida.", lembra Carol.
A técnica formada em Educação Física pela UFRJ também não desmente esse tipo de situação: "É verdade. Quando vinha médico idiota (sic) dizendo que elas tinham que botar gesso eu reclamava. Todo mundo sabe que gesso atrofia a musculatura. Me vinham dizendo 'Ah, ela tem que ficar uma semana sem treinar...' o atleta tem que se recuperar, não pode perder treino ou competições!"
Certamente, as lesões são obstáculos constantes na vida de todo atleta. Mas enquanto a maioria dos danos físicos se recupera com a ajuda do tempo, as marcas psicológicas da opressão podem durar por toda a vida. Apesar de ser uma carismática jovem, Julia revela: "Hoje tenho problemas com a auto-estima que provavelmente estão ligados a isso." Já Carolina diz ter se tornado muito mais alegre ao se ver livre das aulas com Georgette: "Na época em que saí do Flamengo, uma professora da escola veio perguntar a minha mãe o que havia acontecido, porque eu era muito calada, andava até cabisbaixa e de repente virei uma menina muito mais comunicativa e feliz."
Ambas deixaram a ginástica por intermédio dos pais e hoje confessam que, apesar de sentirem saudades do esporte, fariam o mesmo por suas filhas. E lembram-se freqüentemente dos bons e dos maus momentos vividos no ginásio da Gávea: "Tudo o que aconteceu lá ainda é muito, muito presente na minha vida.", revela Julia.
Para Soninha Francine, comentarista esportiva do canal ESPN e vereadora pelo PT de São Paulo, o técnico pode e deve ter seus métodos questionados quando necessário: "Ninguém deve estar isento de questionamentos. Claro que não dá para aprender e crescer sem forçar os limites, mas até que ponto? Temos sempre de ter o direito a questionar como e por que as coisas são feitas. Somos humanos, por mais 'experts' que sejamos em nossas áreas, e podemos errar." A comunicadora acrescenta: "No esporte sempre se lida com dor, medo, frustração. Mas se for algo que, em vez de fortalecer, deixe o atleta alquebrado, humilhado, oprimido, não faz sentido. O treino tem de fazer o atleta crescer, não diminuir-se."
Questionada se defende sua conduta como técnica, Vidor é diplomática: "Não 'defendo', Esse é o meu jeito, não acho que todos os técnicos deviam ser Georgettes Vidor, mas defendo a liberdade de cada técnico em criar seus métodos de ensino."
Mídia se afasta da discussão
Os casos citados na carta que seria enviada ao presidente do Flamengo, mas que acabou sendo arquivada pela desistência de alguns pais, marcaram e até alteraram a vida de dezenas de atletas e passaram como rotina para a técnica, (que finaliza a entrevista com "Falam muito de mim, mas tenho tantas vitórias na minha carreira que não dou atenção.") nunca interessaram à mídia, que chegou a ser procurada à época. Se pais, alunos e conhecidos da treinadora questionam freqüentemente sua conduta, para o grande público Georgette aparece sempre como uma heroína batalhadora. A imagem ganhou força depois de um acidente automobilístico em 1997, no Km 203 da Via Dutra, em Arujá, sentido Rio-São Paulo, quando o ônibus que levava a equipe do Flamengo para uma competição fora do estado se chocou com uma carreta. Georgette estava com outras sete integrantes da equipe de ginástica olímpica. Algumas meninas se feriram. A treinadora ficou paraplégica.
A discrepância entre a figura de Georgette para o público e para os alunos pode ser justificada pela cobertura da imprensa, que não costuma analisar a fundo a atuação dos treinadores. Mas por quê?
"As ex-ginastas têm medo de falar", analisa Julia. "Algumas porque trabalham até hoje com Georgette em seus projetos, outras porque acham que nada vai mudar. As atuais alunas não falariam mesmo, temendo a reação dela. Nesse caso específico dela, acho que a mídia mantém um certo respeito também por causa do acidente."
Perguntadas se praticam outros esportes atualmente, as adolescentes negam. Já tentaram outras modalidades, mas nunca conseguiram se "dedicar tanto quanto à ginástica."
Georgette Vidor guarda, além das medalhas em competições internacionais, o mérito de tocar, como deputada, 16 projetos esportivos em onze municípios do Rio de Janeiro, segundo a própria.
Para Soninha, é possível questionar uma personalidade sem minimizar seus feitos : "Não precisamos desmerecer o resultado - a obra, a vitória na competição. Mas também não precisamos fechar os olhos para os 'defeitos' do autor. Às vezes o comportamento discutível de uma celebridade também é magnificado, como se ela não fosse, afinal de contas, uma pessoa como todas as outras, sujeita aos mesmos equívocos e paixões. E existem casos, sim, de gente de indiscutível mau caráter que ganha uma espécie de hábeas corpus preventivo e parece poder fazer o que bem entender."