......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com


21.07.2006
A GRANDE FESTA DO CAPITALISMO

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

A Copa do Mundo talvez seja o momento mais representativo do capitalismo. Protagonizada por homens, controlada por uma minoria e consumida por bilhões de pessoas ao redor do planeta, a competição movimenta fortunas que ultrapassam, num mês, o PIB de muitos países.

Para completar, o campeonato nacional da seleção vencedora, a Itália, está afundado no maior escândalo de corrupção de sua história, que envolve direta ou indiretamente 13 jogadores do time italiano e pode levar ao rebaixamento equipes tradicionais como Juventus, Milan, Lazio e Fiorentina. Um escândalo em que dirigentes desses clubes foram flagrados por escutas telefônicas combinando o resultado de partidas e em que também estão envolvidas casas de apostas e coisas do gênero.

Ou seja, nada muito diferente das grandes fraudes capitalistas que assistimos acontecer recentemente com a Enron, Xerox e outras corporações. E, ressalte-se: em dois dos sete jogos nesta Copa a Itália foi abertamente favorecida pela arbitragem.

Na verdade, o futebol já é, em si, um jogo capitalista. Isso porque parte do princípio de que, para que um lado vença, é necessário que o outro perca. Exatamente como nas bolsas de valores, centro nervoso do capitalismo moderno. Não à toa o fair play anda tão na moda. É uma espécie de conformismo induzido, pois, em tese, nenhum jogador entra em campo para perder "jogando justo". Mas, como no mundo capitalista, é preciso se conformar em perder alguns investimentos. Se todos se suicidassem após um mau negócio, quem iria produzir a riqueza para que a minoria de sempre se beneficie?

Assim como no mercado financeiro, a Copa do Mundo é controlada por um número muito restrito de pessoas, sendo que o presidente da Fifa desfruta de poder quase absoluto. O paralelo é o mesmo com relação ao gênero dominante: são homens os protagonistas, tanto dentro das quatro linhas, fora delas ou em Wall Street.

De acordo com seus organizadores, cada jogo da Copa do Mundo é assistido por 500 milhões de pessoas, sendo que a partida final teria sido acompanhada por 2 bilhões de cidadãos em 213 países (mais que a ONU, que tem 191 membros), suplantando etnias, credos, idade ou preferências políticas.

Com relação às cifras movimentadas, o jornal Le Monde Diplomatique fala em R$ 9 bilhões em investimentos publicitários e R$ 3,5 bilhões em direitos de transmissão televisiva arrecadados pela Fifa. No plano nacional, estima em R$ 750 mil o valor do anúncio de 30 segundos na televisão francesa, o equivalente a 179 anos de trabalho de um brasileiro que receba um salário mínimo. E quantos 30 segundos existiram durante a Copa?

Mas isto não é o pior. A face mais sombria - e capitalista - da Copa do Mundo está na exploração de mão-de-obra semi-escrava, inclusive de crianças e adolescentes, por corporações como Nike e Adidas, as patrocinadoras das principais seleções do planeta. Assim, essas empresas conseguem produzir tênis, chuteiras e outras centenas de artigos esportivos por preços irrisórios para depois vendê-los com lucros de até 100.000%. Os detalhes estão no livro de Naomi Klein chamado "Sem Logo - a tirania das marcas em um planeta vendido" (Record, 2003).

Há ainda a exploração da paixão pelo jogo, que está no cerne da questão. E este é o grande diferencial da Copa do Mundo em relação às outras atividades capitalistas. A seleção nacional em campo, com as cores do país, transmite valores nobres como a luta pela vitória e a defesa da nação diante do adversário. Assim, projeta-se nos jogadores uma imagem positiva que tanto será usada para vender diversos produtos como também para superar frustrações pessoais, ou ainda alimentar o sonho de milhões de crianças que enxergam na bola seu único refúgio ou salvação.

Para concluir, duas outras características do sistema capitalista são bastante acentuadas durante a Copa do Mundo: o individualismo, expresso no estímulo incessante por recordes pessoais, e a valorização excessiva das aparências, seja porque o penteado de um jogador se torna mais importante que seu pensamento político, seja ao punir um atleta por uma agressão física e poupar o agressor moral, como ficou claro no jogo final.

P.S.: A ONG Oxfam International acusa as empresas Puma (campeã da Copa), Adidas (vice-campeã), Nike, Lotto e Umbro por exploração de trabalhadores em países asiáticos. A informação foi veiculada pelo jornal Brasil de Fato, em reportagem que pode ser lida aqui.

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Boletim da Prisão
Em entrevista à repórter Natália Viana, o presidiário João avisa: "Tem umas emissoras que a gente dá uma reportagem, ela passa tudinho certinho da forma que a gente conversa, agora tem umas que a parte que é pra poder mostrar o caos total na população carcerária é cortado". O Boletim da Prisão pode ser acompanhado aqui.


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