
Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com
19.06.2006
PARREIRA, O CONSERVADOR
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
"Se ganhar todas de 1 a 0 a seleção é campeã". Atribui-se a frase ao técnico Carlos Alberto Parreira, cujo político favorito chama-se Carlos Lacerda. Aquele governador da Guanabara que afogava os mendigos no Rio Guandu. O mesmo político que cunhou a expressão "mar de lama", mote udenista para atacar o nacionalismo de Vargas. O Carlos Lacerda que usou e abusou da Tribuna da Imprensa e dos microfones da rádio Globo, gentilmente cedidos por Roberto Marinho, para defender a entrega do Brasil aos interesses estrangeiros. Lacerda, o político favorito de Parreira, além disso tudo, foi também golpista de primeira hora em 1964.
É verdade. Qualquer seleção que vença todas as partidas da Copa, mesmo por um gol de diferença, será campeã. Um raciocínio conservador, mas verdadeiro. Medíocre, mas indiscutível. Em 1994 foi assim. Classificação no sufoco, jogos posteriores apertadíssimos (1 x 0 EUA, 3 x 2 Holanda e 1 x 0 Suécia) e a final decidida nos pênaltis. É o "futebol de resultado", como dizem. Pode dar certo? Pode. Já deu certo? Já.
O outro lado da moeda é o futebol jogado pra frente, como fazia Telê Santana. Mesmo que seu time estivesse vencendo, a ordem era continuar atacando. E nem precisava apelar e dizer que a melhor defesa é o ataque, porque seu negócio era ataque e ataque. E como jogava bonito. Infelizmente, a história do futebol depõe contra a tática de Telê e a favor do método de Parreira. Não vencemos a Copa com uma das melhores seleções do mundo em 1982, mas vencemos doze anos depois com uma seleção mediana. Por outro lado, há que se fazer justiça: a seleção de 1982 era tão notável, que mesmo não levando o caneco nos lembraremos dela eternamente.
No jogo de ontem contra a Austrália ficou evidente que Parreira vai mesmo impor uma tática conservadora. Nessa seleção, o medo de perder é assustadoramente maior que a busca pela vitória. Está estampado no semblante de cada jogador titular. Só não vê quem não quer. Assim como só mesmo os apaixonados não enxergam que Ronaldo voltou a jogar mal e, assim como Adriano, autor de um gol, está fora de forma. Uma atuação, no máximo, regular. Dois jogos em que nossa dupla de ataque não fez nada além do que fariam dois atacantes do América ou Bangu, com todo o respeito à história desses clubes.
Se não, vejamos: até os 25 minutos do segundo tempo, embora estivéssemos vencendo por 1 x 0, poucas foram nossas chances de ampliar o placar, sendo que não tivemos nenhuma chance clara de gol. Enquanto isso, os australianos desperdiçaram quatro oportunidades cara-a-cara com Dida. Robinho entrou no lugar de Ronaldo e o time ganhou outra dimensão. Em apenas 20 minutos tivemos cinco chances claras de gol, sendo três delas com o próprio Robinho e o tento de Fred, já nos acréscimos.
Parreira, o conservador, não pensa em sair jogando com Juninho Pernambucano no lugar de um cabeça-de-área. Não pensa em substituir o mediano Ronaldo ou Adriano pelo futebol alegre de Robinho desde o início da partida. Além disso, a filosofia de jogo de Parreira é tão limitada que ele consegue tolher a habilidade em quem ela transborda. Ronaldinho Gaúcho e Kaká estão amarrados nesse quadrado que chamam de mágico sem poder dar vazão às jogadas individuais. Quadrado. Até nisso está explícito seu conservadorismo. A ordem é clara: não façam graça. Exatamente como o pai que avisa para o filho que desenhar não dá dinheiro. Esquecem que é justamente essa graça que abre os espaços. Que é essa graça, a finta, o drible desconcertante, que desestrutura o esquema defensivo do adversário.
Parreira é tão conservador, mas tão conservador, que além de não escalar o melhor time que poderíamos ter, ele impede que os titulares desenvolvam seu melhor futebol. E a seleção brasileira tem tanta qualidade que, mesmo assim, conseguiu vencer os dois primeiros jogos. Isso tudo, claro, só vale no caso de essas razões todas não serem substituídas por uma única: joga quem o patrocinador manda jogar.
***
Já são 29 os jogos disputados até agora e apenas 4 terminaram com diferença maior que dois gols: Argentina 6 x 0 Sérvia, Espanha 4 x 0 Ucrânia, República Tcheca 3 x 0 EUA e Equador 3 x 0 Costa Rica.
***
Foram 2 os garfos monumentais. No jogo Inglaterra x Trinidad e Tobago, a seleção inglesa abriu o placar com um gol ilegal, em que o atacante Crouch puxou acintosamente o cabelo do zagueiro adversário e subiu sozinho para marcar o primeiro gol. O segundo da Inglaterra aconteceu quando o jogo já estava definido, no final do segundo tempo. O outro garfo foi pra cima de Gana que, contra a Itália, teve dois pênaltis ignorados pelo juiz brasileiro Carlos Eugênio Simon, sendo um deles indiscutível. Da mesma forma, a seleção italiana fez o segundo quando o jogo já estava decidido, perto do fim.
***
Dos quatro sul-americanos, três estão classificados: Brasil, Argentina e Equador. O Paraguai está fora. As outras seleções garantidas na próxima fase são Alemanha, Equador, Inglaterra, Holanda e Portugal. A Espanha pode se classificar hoje se vencer a Tunísia.
***
Ao final da primeira rodada, veremos a pontuação por seleções, continentes e patrocinadores.