......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com


18.07.2005
COMEMORAÇÕES E EXAGEROS
após a conquista da Taça Libertadores da América pelo São Paulo

Por Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com

O São Paulo Futebol Clube sagrou-se tricampeão da Taça Libertadores da América na última quinta-feira (14/7), goleando o Atlético-PR por quatro a zero na segunda partida da final do torneio, disputada no Morumbi. Com a conquista, o tricolor passou a ser o clube brasileiro com o maior número de títulos, superando Santos, Grêmio e Cruzeiro que têm duas taças cada.

Dentro de campo tudo correu bem, com uma disputa sadia entre as duas equipes. Mesmo depois de levar os gols, o time paranaense não apelou para a violência. E logo após o final do jogo, o que se viu foi uma bonita festa por parte do time paulista. Já do lado de fora do estádio...

O que se sabe é que aconteceu uma verdadeira guerra, com a morte de um torcedor antes do jogo, e um grande confronto entre policiais e torcedores após a partida, que deixou 14 policiais feridos e uma quantidade de torcedores provavelmente muito maior, porém não há dados confiáveis em relação à torcida.

Para quem não conhece a cidade de São Paulo, o principal ponto de reunião de torcedores para festejar a conquista de títulos é a Avenida Paulista, local onde podem se reunir até um milhão de pessoas. Em 1999, por exemplo, os palmeirenses comemoraram seu primeiro título da Libertadores. Em 2000, foi a vez dos corintianos celebrarem a vitória sobre o Vasco da Gama, que lhes garantiu a Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Além disso, torcedores de todos os clubes comemoraram juntos em 2002 o quinto título mundial da seleção brasileira, conquistado no Japão.

Em nenhuma dessas ocasiões, no entanto, aconteceu uma confusão tão grande como a que tomou lugar semana passada. Nesse momento, cabe registrar a atuação da Polícia Militar de São Paulo dentro e fora dos estádios, que costuma ser do tipo "bater primeiro e perguntar depois". É raro ver medidas de precaução serem tomadas, muito menos um planejamento adequado para eventos de grande porte. Nesse caso específico, havia mais de 70 mil espectadores no estádio do Morumbi, e dezenas de milhares de outros espalhados pela cidade.

Por outro lado, as torcidas organizadas (lá chamadas de "uniformizadas") não colaboram em nada para que a ordem pública seja mantida. É conhecida a ligação dessas facções com o crime organizado. E é fato corriqueiro em dias de jogos, o enfrentamento entre elas e delas com a polícia, e às vezes até entre componentes de uma mesma torcida.

O que mais surpreendeu neste caso foi a cobertura dada pela mídia grande, especialmente a Folha de São Paulo e a TV Globo, que não hesitaram em culpar exclusivamente os torcedores pelos transtornos, e pelo rastro de destruição deixado ao longo da Avenida Paulista, com destaque para imagens sensacionalistas de estações do metrô, lojas e mobiliário urbano que teriam sido "depredadas por vândalos" tratando todos os torcedores como se fossem uma massa amorfa de arruaceiros.

Na televisão, o comentário poderia até ser risível, dado o nível de paranóia, mas é preocupante por transmitir algo para o telespectador que está inteiramente dissociado da realidade:

"Essa violência dos torcedores começou como celebração de vitória. Era como se o triunfo esportivo permitisse uma rebelião vingativa contra as vitrines da riqueza paulista, por aqueles que vivem do lado de fora do consumo.

A outra causa desse quebra-quebra, creio que é a crescente desmoralização da vida política, explodindo na TV, como me disse o popular: 'O nego vê essa zona em Brasília... vai respeitar qual lei?'

Se os ricos roubam, sonegam e mentem, quem respeita República? A crescente brutalidade pode se encaminhar para outros objetivos. E começa, por ironia, na vitória dos 'Libertadores da América', sendo que o homem que se intitula libertador hoje, é o Hugo Cháves, da Venezuela, chefe do populismo fascista na América" (Arnaldo Jabor).

Já a Caros Amigos abriu espaço para o relato de um jovem estudante de direito da USP, que estava no local e acompanhou o enfrentamento entre policiais e torcedores do início ao fim, mostrando que durante grande parte da madrugada, a iniciativa violenta partiu da própria polícia que bateu e atirou bombas indiscriminadamente sobre quem quer que estivesse em seu caminho. Ele não se contentou em apurar por telefone e internet, ou ainda, reproduzir preguiçosamente um comunicado de assessoria de imprensa da PM.

Evidentemente, a maioria da população teve mais acesso às versões da Folha e da TV Globo, do que à página da Caros Amigos. E o que fica, lamentavelmente, é a imagem, falsa, de que todos os são-paulinos são bandidos perigosos que saqueiam e quebram tudo o que vêem no que deveria ser a pacífica comemoração de um título histórico.


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