
Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com
15.09.2005
JOGO DE CENA: ROBINHO É EMBAIXADOR DA ONU
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Com todo o respeito aos excelentes quadros que figuram na ONU e a seus milhares de voluntários espalhados pelo mundo, deixo registrada a crítica abaixo:
Robinho joga muito e disso poucos duvidam. Chegou ao Real Madrid aclamado como o príncipe do futebol e agora está entre os chamados galácticos que, dizem os especialistas, são a nata entre os melhores jogadores do mundo.
No final da semana que passou chegou-nos a notícia de que Robinho aceitou o convite para ser embaixador da Boa Vontade da ONU para crianças desnutridas do mundo e, assim que tiver tempo, viaja a Nova Iorque para formalizar o contrato. Seu empresário, Wagner Ribeiro, disse que o jogador quer "contribuir com tudo que puder para esta causa, já que ele também foi um menino pobre em sua infância e não se esquece de suas origens". Outro jogador brasileiro, Ronaldo, também ocupa um cargo nas Nações Unidas. O "fenômeno" é embaixador da ONU contra a fome, faz alguns anos.
Não parece casual que jogadores extraordinários (ou pelo menos que ganharam este contorno no imaginário coletivo) de países explorados recebam tais títulos de uma organização controlada por países exploradores. Esta é mais uma maneira de legitimar a exploração.
A imagem de um jogador com tais predicativos corre o mundo e na cabeça da maioria das pessoas surte um efeito do tipo: "Puxa vida, como ele é solidário; puxa, como a ONU é solidária". Enquanto belos sorrisos são expostos em campos de refugiados, a geopolítica mundial que leva a este quadro é omitida pela mídia corporativa a serviço dos países exploradores. A começar pelos termos utilizados, como "país em desenvolvimento", o que contribui para a alienação da verdadeira condição de explorado que caracteriza a maior parte das nações.
A despeito de isso ser uma publicidade e tanto para o jogador, a verdade é que esse teatro não passa de jogo de cena. Não consta que a ONU tenha melhorado as condições de vida da população mundial com este tipo de caridade, até porque, sejamos sinceros, não interessa às potências ocidentais que a controlam empreender um verdadeiro plano global de solidariedade que, de fato, pudesse pôr fim a tanta miséria espalhada pelo mundo. Um plano desse porte não precisaria de publicidade, da imagem de um jogador excepcional. Um plano para exterminar a miséria precisaria, antes de tudo, ter foco no ser humano (o que não vem acontecendo). Para ter sucesso em sua empreitada, a ONU poderia começar perguntando aos cubanos como fazer, pois um país que sobrevive há mais de quatro décadas com um bloqueio continental e, ainda assim, consegue alimentar todos os seus habitantes deve ter um pouco de autoridade no assunto.
Além disso tudo, nós, conterrâneos desses novos e afortunados embaixadores, sabemos que muito diferente daquilo que a imagem dá a entender, o exemplo que esses jogadores costumam dar na prática, sobretudo no caso de Ronaldo, é levar uma vida boêmia, cheia de carros e mulheres, sem qualquer tipo de engajamento político. Quem conhece futebol sabe que, se a ONU quisesse mesmo transformar a realidade, deveria nomear mais pessoas como João Saldanha em lugar de Ronaldos e Robinhos.