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Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com


08.07.2006
MAZZOLA, UM HERÓI ESQUECIDO

Por Renato Gianuca - contato@fazendomedia.com

Agora que a Copa do Mundo da Alemanha de 2006 terminou para nós, a par de assistir à partida final neste final de semana (09/07), resta remexer nos baús da memória. E relembrar épocas mais felizes, como a Copa do Mundo da Suécia de 1958. Naquela época, a Rádio Guaíba (de Porto Alegre) colocava no ar, pela primeira vez, uma transmissão ao vivo de uma emissora gaúcha diretamente dos estádios da Escandinávia. A TV brasileira, ainda engatinhando, mostrava apenas os teipes dias depois das batalhas futebolísticas. E tudo em preto-e-branco. As transmissões coloridas, hoje tão comuns, ainda não existiam. Só viriam 12 anos depois, com a Copa do México, em 1970.

Pois em 1973, este repórter passava longa temporada na Europa, aproveitando climas políticos mais amenos. Afinal, o Brasil vivia os anos de chumbo, com todos os seus horrores. Entre eles, é claro, a rigorosa censura à imprensa, com seqüelas que se estenderam muitos anos depois do encerramento do regime militar, em abril de 1985.

Vivendo em Roma, em pequeno apartamento que era, de fato, uma “república” de brasileiros inconformados com as coisas pelas quais passava o país, este repórter, de licença do jornal Correio do Povo, descobriu um assunto neutro, sem tinturas ideológicas capazes de merecer um veto dos censores da época. Decidimos viajar de Roma até Turim, este repórter e o jornalista carioca Mário Augusto Jakobskind, colunista do Fazendo Media. A meta: entrevistar o craque José Altafini, o Mazzola.

A matéria foi publicada pelo vetusto Correio no dia 14 de fevereiro de 1973, à página 17 daquela edição, na editoria de Esportes. No alto da página, a manchete da época: “Jadir retorna à meia cancha do Grêmio”. Abaixo, com uma foto de quatro colunas de um treino de Mazzola e seus colegas da Juventus, a matéria enviada de Roma, via Varig: “Altafini: Pretendo abandonar o futebol agora, em junho próximo”.

O tempo se incumbiu de revisar muita coisa. Uma delas, certamente, é a manchete colocada na matéria com Mazzola pelo editor de Esportes da época. É que Mazzola não encerrou a carreira conforme ele prometera. Só deixou de jogar aos 42 anos, atuando em clubes menores da Suíça italiana. Outro fato curioso: Mazzola é um dos seis jogadores, em todos os tempos, que defenderam duas seleções: a brasileira em 1958 e a italiana, em 1962.

Do fundo do baú
As páginas já amarelecidas do velho Correio do Povo contam o que segue:

“Corso Unione Soviética, 155, em Turim. É aí, precisamente, a nove horas de trem da capital italiana, que vive hoje o nosso oriundo Mazzola. Ele vive num belo apartamento, próximo ao estádio do Juventus, um dos primeiros clubes de futebol da Itália, e cujas cores Altafini agora defende.

A casa de Mazzola tem o aspecto de uma residência marcadamente burguesa, apesar da infância relativamente modesta do famoso futebolista. É no “living room” que Altafini curte sua saudade do Brasil, ouvindo nas tardes livres discos do carnaval passado e dos futuros. Ele ainda tem tempo para se interessar pelas artes plásticas: seu apartamento está decorado com quadros de um amigo, Corrado Cagli.

Em toda a Itália, quando se fala em Mazzola, todos procuram lembrar que ele herdou o caráter reto de sua mãe, Maria Marchesi, de origem italiana. Mazzola nasceu no final de julho, é do signo de Leão. E é precisamente assim que ele é apelidado: “Il Leone”.

“Sua grande paixão é o cinema. Se pudesse, iria ao cinema diariamente. Não discrimina o gênero: tanto pode ser um faroeste como um policial francês. Tudo serve para satisfazer sua necessidade de diversão.

Depois de falar sobre sua carreira na Itália, a passagem pelo Milan logo após a Copa do Mundo da Suécia e seu ingresso, em 1969, na Juventus de Turim, Mazzola queixou-se do excesso de peso e sua luta contra a balança:

“Nesse tempo, seriamente, pensei em abandonar a Juventus, pois meu passe é livre”.

Recuperado do problema, já titular de novo, ele comentou:

“Na Itália, é difícil fazer gols todo o dia. O campeonato é duro, um dos mais difíceis do mundo”.”

Do futuro passado e os dias de hoje
Perguntado sobre seus planos para o futuro, Mazzola falou assim para o Correio do Povo:

“Pretendo jogar até junho deste ano de 1973. Se a Juventus quiser, fico mais um ano. Depois disso pretendo parar definitivamente. Não tenho ainda nada em vista. Ser técnico? Acho meio difícil. Seria até a última coisa que faria. Em caso de derrota, o técnico é sempre o bode expiatório.”

E seu retorno ao Brasil?
Por enquanto não há nada definido. Talvez mais tarde. Economicamente, deu para fazer um pé de meia. (Altafini é um dos jogadores mais bem pagos da Itália). Não que eu seja milionário, vejam bem, pois os gastos são muito grandes, como o Imposto de Renda, vida muito cara na Europa etc.

Só para concluir: Mazzola, você se considera realizado profissionalmente?
Não posso me lamentar nestes 14 anos de Europa. Muito pelo contrário. Foi uma coisa que caiu do céu. Eu aspirava, no futebol brasileiro, ser apenas um jogador profissional em minha cidade. Realizei-me mais do que pretendia.”

E no fecho da matéria:
“A viagem para Roma é longa. Altafini nos leva até a porta . E pede, por intermédio do Correio do Povo que sirvamos de portadores de sua mensagem de saudade e simpatia para com o povo brasileiro”.

Uma quantia fabulosa
O tempo tem suas razões, como já vimos. Mazzola, após deixar a Juve, ainda vestiu a camisa do Napoli nos anos 1975 e 1976. Depois também jogou em dois pequenos clubes da parte italiana da Suíça, para só então encerrar sua carreira no futebol, já quarentão. Nunca mais voltou em definitivo ao Brasil. Só em férias, e de passagem. Durante muitos anos, comandou um bem-sucedido programa de esportes na televisão italiana.

Nascido em 1938, Mazzola destacou-se no Palmeiras. De lá, jogou na Seleção Brasileira na Copa de 1958. Fez dois gols na partida de estréia contra a Áustria (Brasil 3 a 0, o outro gol foi de Nilton Santos). Na partida seguinte, contra a Inglaterra, não marcou e o placar final foi mesmo um empate sem gols. No dia 15 de junho de 1958, o Brasil venceu a União Soviética por 2 a zero, com dois gols de Vavá, o substituto de Mazzola.

Mazzola nunca mais jogou pela Seleção do Brasil. Ele saiu do time por ter assinado contrato com o Milan. Um motivo que ele mesmo reconheceu anos depois: “Após o jogo contra a Áustria, me avisaram que eu havia sido vendido para o Milan. Foi uma quantia fabulosa. Aquilo mexeu com a minha cabeça. Tinha apenas 20 anos de idade, toda uma carreira. No jogo seguinte, contra a Inglaterra, eu já não joguei tão bem. Só pensava na minha transferência”.

Lembro de Mazzola, da matéria para o Correio, e penso naquele ano de 1958, em contraste com o ano de 1973. Como éramos jovens. E ingênuos. Afinal, vivíamos os anos dourados, de JK, o presidente bossa nova, de um país que crescia a inacreditáveis 8% ao ano, com a nascente indústria de carros, novas hidrelétricas, novas ferrovias, e pleno emprego. E a jóia da coroa: Brasília, erguida em pouco mais de três anos, a nova capital de um tempo de esperança em um país mais justo, mais solidário, mais humano. De fato, éramos mesmo muito ingênuos.


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