......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



06.07.2007
CAMILA, A CRAQUE DE CAXIAS

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

A bola dividida caiu em seus pés, na intermediária do campo de defesa. Dominou de perna direita, avançou com um, dois, três toques na bola e enfiou um passe de 50 metros, com incrível precisão, que deixou a atacante de frente para a goleira. Um chute cruzado de perna esquerda fez com que a bola descrevesse um arco perfeito, encobrisse a adversária, e caísse suavemente dentro do gol. CEPE Caxias 4 x 1 EUA, final de jogo no Maracanã.

Camila Cristina de Oliveira Cruz, a camisa 8 do CEPE Caxias, foi quem armou a jogada descrita acima. Ela também fez o segundo gol do time brasileiro e, de resto, deu uma canseira na seleção sub-20 dos EUA. Não é pouca coisa. A seleção estadunidense é considerada uma das melhores do mundo e, no último mundial, venceu o Brasil na fase final por 2 x 1. Mas Camila é modesta ao falar sobre a sensação de vencer os EUA. Voz serena, como se comentasse um treino qualquer: "Foi muito bom. Não é a primeira vez que a gente joga, mas todas as vezes é uma oportunidade boa porque vai muita gente pra ver".

A meia-armadora é a mais jovem do time. Tem 16 anos, treina há dois no CEPE. A sigla quer dizer Clube dos Empregados da Petrobrás, que funciona dentro da Refinaria da empresa em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. De acordo com o último estudo divulgado pelo IPEA, trata-se do município mais violento do estado. E embora tenha um dos maiores PIBs do país, sua população tem um dos menores índices de desenvolvimento. Em outras palavras: as riquezas ali produzidas estão indo para outro lugar.

A Petrobrás paga uma ajuda de custo para as atletas, que inclui o almoço, mas não o transporte. Na época em que foi superintendente da refinaria, o engenheiro Fernando Fortes brigou bastante lá dentro. Tem uma turma que é contra essa história de investir "na molecada pobre" e foi a duras penas que ele conseguiu a verba necessária para estender os projetos a mil crianças, com tudo o que tem direito: transporte, café da manhã, almoço, tratamento médico e odontológico, acompanhamento psicológico, esportes, informática e etc. Entretanto, em 1994, veio o recado de Brasília, a contemplar as ordens do então recém-empossado presidente da República: "Refinaria é para refinar petróleo, e não para refinar criança". As mil crianças foram reduzidas a cem. E tem gente que acredita quando a turma neoliberal anuncia "investimentos sociais".

Camila explica que na cidade do Rio de Janeiro não existe futebol feminino. O Flamengo, seu time do coração, não tem? "Não". Por isso, seu sonho é chegar à seleção. No dia 17 deste mês, ela vai para São Paulo disputar o campeonato regional. É mais uma oportunidade de mostrar seu futebol. Esse mesmo futebol que ela mostrou contra a seleção dos EUA: inteligente, ofensivo e suave, mas ao mesmo tempo com garra e determinação. É daquelas jogadoras que, antes de receber a bola, já sabem o que vão fazer. Foi assim no lance do quarto gol; lembrou o lançamento de Gérson para Jairzinho, na Copa do Mundo de 1970. Camila joga de cabeça em pé e dificilmente erra um passe, diferentemente desses jogadores de empresário que enterram a cabeça na grama e só abrem os olhos na hora de errar o passe. E quando não está armando o meio-campo, Camila está ajudando na marcação, característica fundamental para uma jogadora completa.

Pois bem, isso tudo com a ajuda de custo. Só com a ajuda de custo da Petrobrás e o talento que Deus lhe deu. Fico imaginando se o Brasil investisse em suas crianças e adolescentes a metade do que o país campeão do mundo investe. Fico imaginando a revolução social que aconteceria aqui. Porque da mesma maneira que seriam revelados craques como Camila, surgiriam grandes matemáticos, professores, pesquisadores, médicos, educadores, mas também artistas, músicos, malabaristas, animadores culturais, cantadores e tantos outros profissionais indispensáveis para a formação de uma verdadeira nação.

Infelizmente, o pensamento dominante ainda acredita que refinaria existe apenas para refinar petróleo. É uma pena que refinaria também não refine pensamento.


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