
Editor: Leon Corrêa - correa@fazendomedia.com
02.07.2006
APOTEOSE DA MEDIOCRIDADE
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
"Se continuarmos jogando assim, poderemos até chegar à final. Mas não por apresentar um bom futebol, e sim por contar com a sorte - essa danada, que costuma ir embora sem se despedir".
O trecho acima foi publicado no dia seguinte à vitória contra Gana nessa mesma seção (veja aqui).
Não se trata de vidência, mau agouro ou palpite tresloucado. Isto é apenas a observação de alguém que acompanha esta Copa do Mundo com atenção.
Vejamos este outro trecho, publicado no dia seguinte ao jogo contra a Austrália:
"No jogo de ontem contra a Austrália ficou evidente que Parreira vai mesmo impor uma tática conservadora. Nessa seleção, o medo de perder é assustadoramente maior que a busca pela vitória. Está estampado no semblante de cada jogador titular. Só não vê quem não quer. Assim como só mesmo os apaixonados não enxergam que Ronaldo voltou a jogar mal e, assim como Adriano, autor de um gol, está fora de forma". (texto completo aqui).
Portanto, é preciso ser um lunático para dizer que a seleção brasileira decepcionou contra a França. E é preciso ser um hipócrita para começar a criticar Carlos Alberto Parreira apenas agora.
Uma seleção que não jogou nada contra Croácia, Austrália, Japão e Gana não pode decepcionar ninguém depois de perder para a França. Ela já era uma decepção desde o início da competição. Entre outras coisas, falta-lhe o que esse lateral esquerdo vendido negou: "Não precisamos treinar juntos, pois somos os melhores do mundo. É só a bola rolar que a gente se entende".
Não, não se entende. Se a seleção de 1970 precisava treinar em conjunto, o que faz com que esses jogadores de hoje se sintam superiores? Qual foi o Deus do futebol que disse a eles que seriam sempre os melhores do mundo?
Por certo, a apresentação contra a França foi a apoteose da mediocridade. E o senhor Carlos Alberto Parreira deveria ser chamado para dar explicações públicas. Sua hesitação em tornar o time mais ofensivo, mesmo em desvantagem no placar num jogo eliminatório, suscita mais que simples questionamentos com relação a uma provável teimosia.
Ou Parreira se passa por burro, ou explica por que diabos sua primeira modificação foi retirar Juninho e voltar com Adriano, restabelecendo a formação conservadora inicial. Ou Parreira assina um atestado de incompetência ou explica por que permitiu que Robinho jogasse apenas 12 minutos. Isso pra não perguntar o óbvio: por que Cafu e Roberto Carlos são escalados sempre se temos laterais em melhores condições físicas e técnicas.
Seja como for, o técnico da seleção brasileira conseguiu obstruir a essência do futebol brasileiro. Nossos jogadores são reconhecidos - e valorizados - no mundo inteiro por suas jogadas individuais, seus dribles desconcertantes. Porque é isso que define uma partida. É o inusitado que desarma o esquema do adversário. É inaceitável que uma seleção brasileira acerte um mísero chute na direção do gol em mais de 94 minutos. Parece até que era pra não correr o risco de a bola entrar.
Em tempo: esse papo de que "é preciso reconhecer que a França jogou melhor" é conversa fiada. É óbvio que a França jogou melhor, mas o que me interessa discutir é por que o Brasil entregou a partida. Uma coisa é peder como a Argentina perdeu - aguerrida, lutando e disputando até o fim. Outra, bem diferente, é entrar em campo com o único objetivo de servir de saco de pancadas.
P.S.: Essa derrota para a França teve ao menos um lado positivo. Serviu para mostrar aos defensores do esquema tático conservador que este não é garantia de vitória, equanto o futebol ofensivo será sempre garantia de bons momentos, alegria e recordações vivas - ganhando ou perdendo.
Quadrangular europeu
Dos quatro palpites para essas quartas-de-final, acertei 3 e errei um. Acertei os que apostei pela razão (Alemanha x Argentina, Portugal x Inglaterra e Itália x Ucrânia). O único em que usei a emoção, perdi. Porque se tivesse usado a razão, apostaria na França (Adidas) contra o Brasil (Nike).
Agora, as quatro seleções que seguem na Copa são européias. Portugal x França e Alemanha x Itália são as semi-finais, o que garante, por antecipação, o título para o velho continente. Estamos empatados: América do Sul 9 x 9 Europa.
As marcas que seguem: Adidas (2), Nike e Puma. Se França e Alemanha vencerem Portugal e Itália, teremos uma final da Adidas. O que seria um belo retorno para o investimento gigantesco que fez nesta Copa (única empresa de material esportivo a ter duas placas publicitárias em todos os jogos e a ter sua marca na página oficial da Fifa, patrocínio do uniforme dos trios de arbitragem e dos gandulas, bola, patrocínio das seleções da Alemanha, França, Argentina, Espanha, Japão e Trinidad e Tobago - quer dizer, isso é o que dá pra ver pela televisão).
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Leia outras informações sobre as marcas da Copa aqui e sobre o trabalho escravo empregado por Nike e Adidas aqui.