
10.12.2007
MARCELO FREIXO – Quando a
mídia legitima o discurso da guerra

-
Ué, cara, bandido perigoso lendo Jorge Amado?
- Tá me sacaneando? Tá tirando onda com quem
é macho?
- Eu não, mas você falava que ler não
era coisa para você. Que não se renderia aos
estudos.
- É que agora sou mais perigoso do que eu era antes. Larguei
a arma para pegar no livro.
Já
fora do “momento
entrevista”, com gravador desligado e canetas em
posição de descanso, Marcelo Freixo, 40 anos,
contou esse
episódio do bandido que resolveu se tornar ainda mais
perigoso
para o sistema. E é sobre militância,
educação popular, segurança
pública e
mídia que o deputado estadual (PSOL-RJ) conversou com o Fazendo
Media. Entrevista concedida a Gilka Resende, Isabela Calil e Raquel Júnia.
Como
começou sua militância política?
Fui criado no Fonseca, bairro da zona norte de
Niterói, um lugar que também tem favela. Jogava
bola no
time Fla-Flu, que misturava asfalto e favela, por isso esse nome. A
gente jogava no campo do presídio que tem lá. O
presídio não era algo tão distante.
Era, pelo
contrário, o lugar onde eu mais me divertia. Só
que com
14 anos, é lógico, eu não tinha menor
idéia
do que representa o sistema penitenciário. Como uma
área
periférica, o bairro é marcado pela
violência
policial e pela violência do varejo da droga. Vi
situações absurdas e tive um monte de amigos
mortos.
Já
mais velho, depois de
fazer Economia, fui fazer História. Estava no segundo
período na Universidade Federal Fluminense e recebi um
convite
de uma socióloga para dar para dar aula de graça,
dentro
do presídio, maior roubada [risos]. A equipe
começou a
ler Paulo Freire e montamos uma Escola Popular, um projeto de
educação dos mais brilhantes que já
participei.
Foi
revolucionário, pois os
presos se envolveram muito. O Edimar, que está ali na porta
[apontando], foi um dos presos do projeto, e o Robson, que
também trabalha aqui no mandato, também.
São
exemplos concretos de que projetos assim funcionam, e não a
repressão.
Em que
ano começou o projeto? Ele funciona até hoje?
Foi em 88, 89, mas não existe mais.
Tivemos
muita dificuldade. O diretor da prisão, no
início,
não deu a menor bola. Depois, os presos estavam todos
mobilizados, aprendendo a reivindicar, fazendo até carta
para o
Ministério Público. Aí o diretor
não
gostou. Mas é claro, né? O resultado de uma
educação popular é a
organização do
povo, é a conscientização. E esse
grupo cresceu
muito, aprendi muito com aquelas pessoas.
Também
militei no movimento
sindical e fui, durante vinte anos, filiado ao PT. Quando o Partido dos
Trabalhadores saiu de si, eu saí do PT. Depois entrei para o
PSOL. Mas minha militância pelos direitos humanos tem essa
raiz,
que tem a ver com a minha história de vida e com esse
momento na
UFF. De lá para cá nunca deixei de trabalhar com
presídios.
E como
você avalia o sistema prisional hoje?
Qualquer sistema penitenciário
reflete a
sociedade que o produz. Não existe um sistema
penitenciário em crise, existe uma sociedade em crise que,
aí sim, produz esse sistema penitenciário. Em um
país desigual como o Brasil, em que uma parcela da
população sobrou, não está
empregada,
não é cidadã, não serve e
precisa ser
anulada socialmente e, por vezes, anulada fisicamente, o sistema
penitenciário tem seu papel. Esse papel é o da
pena de
morte social.
Vivemos em uma
sociedade onde a
relação de classes é muito perversa.
Ela
não apenas passa mais por um processo de
exploração capital-trabalho, mas é um
processo de
exploração no qual mais que o desemprego, mais do
que o
não acesso ao trabalho, você tem a
anulação
do outro como pessoa. Mais do que a porta da fábrica, a
porta da
favela é a maior trincheira da luta de classes hoje.
E quantas vezes
eu já
não escutei que direitos humanos são os direitos
de
defesa do bandido? Na verdade, o que se nega não
é fato
de ter direito, é o fato de ser humano. Como você
não considera que ele tenha os compromissos
éticos que
você tem, você o anula. E aí se torna
inadmissível que ele tenha um conjunto de direitos.
A
mídia ajuda a manter essa situação?
Claro! Ela consolida valores. É
instrumento
fundamental para uma sociedade como a nossa, com uma ordem
tão
violenta e desigual. E aí é a ordem que
é
violenta, não é o que atinge a ordem, entende?
É
como fala Brecht: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que
é
violento. Mas ninguém chama violenta às margens
que o
comprimem”. Essa ordem é tirânica.
É
só olhar para as condições de vida da
população pobre.
Na ditadura, a
produção de inimigos tinha a ver com uma
lógica
política. Era aquele que pensava diferente, era a
ameaça
ideológica ao regime. É só pegar o
texto do AI-5 e
ler. Mas isso mudou e o novo inimigo público é
aquele que
sobrou de uma sociedade de mercado. É aquele que
está
desorganizado, desassistido. É identificado pela cor de pele
e
pelo local de moradia. Se o cara é negro e foi morto pela
polícia, não precisa de
investigação,
né? Ele já é considerado bandido.
Normalmente,
para o poder
judiciário permitir que a polícia entre na sua
casa, tem
que ter uma especificidade, é preciso ter um motivo que
garanta
que não existem outros caminhos, é algo muito
singular. E
o que tem acontecido no Rio de Janeiro? O poder judiciário
emite
o mandato de busca genérico, isto é, determina
que a
polícia pode entrar em qualquer casa de certas
áreas. Que
áreas? Só as favelas. É o
judiciário
absorvendo na sua prática o processo de
criminalização da pobreza. Além de
identificar
quem faz parte da sociedade e quem não faz, esse processo
é acompanhado por políticas públicas
pensadas e
efetivadas.
O
Caveirão é um exemplo?
É sim. Como imaginar um
país que diz
viver um Estado Democrático de Direito, existir um carro
blindado que é de policiamento ostensivo? Ele não
é para casos de exceção. O
Caveirão
não tem lugar para botar preso, não tem a chamada
“caçamba”. O Caveirão
é feito para
matar! É um carro com um alto-falante, usado como
instrumento de
pânico, de terror. É o medo vindo das
mãos de quem
deveria garantir a segurança ao conjunto da
população. É a inversão
completa do papel
da polícia. Ele é utilizado para uma
política de
guerra.
Hoje, a
essência da luta de
classe passa pela questão dos direitos humanos. Falam que
estamos em guerra e na guerra tudo vale. Para haver guerra,
é
necessário um território. No
território do inimigo
não existe parâmetro legal. E que
território
é esse? É a favela. É aí
que eu digo que a
imprensa tem papel fundamental, porque noticia a “guerra do
Rio”. E quando se absorve de forma inquestionável
que
estamos em guerra, você naturaliza e aceita uma
série de
coisas que a guerra traz, inclusive a morte. E de preferência
a
morte de quem não é igual a você. Esse
também é o discurso do Bope.
O que
você achou do filme Tropa de Elite? Qual é a
influência dele nesse tema?
O [José] Padilha é um
amigo de muitos
anos, gosto muito dele. É o mesmo diretor que fez o filme
“Ônibus 174”, um documentário
extraordinário que contribuiu muito na luta pelos direitos
humanos. Quase ninguém viu! E qual o problema do Tropa de
Elite?
Quando o Padilha fez “Ônibus 174”, ele
fez uma
opção política. Ele contou a
história do
Sandro, mas poderia ter contado a história do policial que
atirou na Geísa, podia ter contado a história da
Geísa.
Quando ele vai
fazer Tropa de
Elite e escolhe falar de segurança pública no
olhar do
policial do Bope, ele também faz uma escolha
política.
Uma escolha política de classe. Por quê? Porque o
olhar do
policial do Bope não é o olhar do policial
apenas.
É o olhar de um dos principais instrumentos de classe para
manutenção da ordem e de violência
contra um
determinado setor da sociedade.
O olhar do
policial do Bope
não é um olhar individual! Não
é o olhar de
uma pessoa apenas, por mais que ele tente mostrar o personagem em crise
com a família. É importante a sociedade conhecer
esse
olhar? Claro! O problema é quando esse olhar é
apresentado dessa forma para uma sociedade como a nossa, né?
É uma sociedade que não tem acesso aos meios de
comunicação democratizados. O bom debate
não
é feito, não de forma democrática.
Por exemplo,
esse filme
está sendo visto por muitos no exterior como uma
denúncia
contra a polícia brasileira. É essa a leitura
feita pela
maioria no Brasil? Não! Você tem que saber com
quem
está falando, para ter dimensão do resultado da
conversa
que sua obra vai provocar. O resultado da obra de arte depende
também para quem você faz, em que momento faz. Em
um
momento que a sociedade brasileira vive o medo, vive também
a
intolerância.
Nesse sentido,
o filme ajuda a
cristalizar determinadas concepções de
segurança,
ajuda na consolidação da
criminalização da
pobreza. O filme traz a idéia de que tem duas
polícias:
uma corrupta e outra que é violenta, mas que resolve. O que
não é verdade, pois opõe tortura e
corrupção. Na história do Brasil,
tortura e
corrupção sempre andaram de mãos
dadas, desde a
escravidão.
O filme traz um
grande
prejuízo pedagógico na luta por uma
visão de
segurança pública que deve ser inclusiva, baseada
na
construção da cultura de direitos. Não
baseada na
eliminação, no enfrentamento. Legitima-se o fato
da gente
ter a polícia que mais mata no mundo. De janeiro a outubro,
a
polícia do Rio de Janeiro matou 1.072 pessoas com
título
de auto de resistência [resistência à
prisão]. Também temos um número de
policiais
mortos assustador. Mas não em serviço.
No confronto, a
proporção é de um policial morto para
cada 30
civis, o que descaracteriza a idéia de guerra,
né? Mas o
número de policiais mortos fora do horário de
serviço é também um dos maiores do
mundo. Quem
ganha com isso? Essa política trouxe a
redução da
criminalidade? Tem construído uma sociedade mais segura?
Não! Além de ser uma política desumana
e que serve
a apenas uma classe, é ineficaz.
E a
questão da redução da maioridade
penal?
Essa é a idéia de que
é
necessário ampliar o sistema penitenciário, o que
é um equívoco. A população
carcerária do Brasil é uma das que mais crescem,
já é quarta população
carcerária do
mundo. Hoje, são mais de 400 mil presos. De 95 a 2006, ela
cresceu 170%. Só São Paulo tem o dobro de presos
que tem
a Argentina. Presos em condições aviltantes e o
pior, o
grau de reincidência do preso no crime é de 70%. E
na
maioria das vezes, o preso comete um crime mais grave do que o levou
à cadeia.
A
prisão é um
instrumento de barbárie, é uma maneira muito cara
de
tornar as pessoas piores. Só tem que prender aquele que
oferece
um perigo muito concreto à sociedade. Até para
você
ter um número razoável de presos para que
possamos,
evidentemente, cumprir a lei. Hoje, temos é um
exército
de esfarrapados.
Quem
são os traficantes
apresentados? São aqueles que vão deixando seus
chinelos
pelo caminho antes de serem atingidos por tiros vindos de
helicópteros. Quer dizer, o tráfico internacional
de
drogas e armas, que envolve milhões de dólares,
tem como
seus principais representantes no Brasil pessoas que não
têm dentes e escolaridade, que moram em péssimas
condições nas favelas. Essa
combinação
é esquisita, né?
Perfeita
para o capitalismo?
Sim. Na verdade, não se combate o
crime, se
combate um modelo de criminoso. Não é de
interesse
combater o crime. É um crime que acumula dinheiro, explora
mão-de-obra barata, que faz muito dinheiro entrar no banco e
circular pelo mercado financeiro, pelo mercado imobiliário.
Esse
crime é bem adaptado ao modelo capitalista.
O que
não é
adaptável é o modelo de criminoso.
Então, prender
mais cedo, reduzir a idade penal é estupidez. Nos
países
que tiveram crescimento da população
carcerária, a
violência aumentou. A juventude pobre e negra que iria para
prisão com a redução da idade penal
é a
maior vítima da violência. Isso é pegar
quem
é vítima e transformar em algoz. A
violência
aí é de classe, claramente de classe. Em
Copacabana e
Leme, em 2004, foram 17 homicídios. Em Rocha Miranda e
Acari, no
mesmo período, foram 617 mortos. Isso atinge todos da mesma
maneira?
Qual
é o papel da Educação nesse contexto?
Você continua em sala de aula?
Continuo, dou aula desde 90. Toda quarta estou
numa
cooperativa de ensino chamada Associação
Educacional de
Niterói, que envolve pais e professores. Dou aula de
história para o terceiro ano. É um projeto que
acredito
muito. Não tem dono, não tem lucro.
Não tenho
tempo para dar aula em outros lugares, mas não queria
abandonar
a sala de aula, que adoro. Você cria uma
relação
muito boa com os alunos.
Digo que a sala
de aula é
um espaço crítico, um espaço de
construção que pode ser muito transformador. Mas
a
educação pública no Rio de Janeiro
chegou ao fundo
do poço. Recentemente, visitei uma escola em Bangu. O
prédio foi esvaziado pela defesa civil, ia cair. 1.400
alunos
assistiram aulas em tendas de lona preta! E o salário do
professor? Tem professor que ganha 400 reais. Inacreditável!
No
orçamento do governo do
estado do ano que vem não há acréscimo
para
educação. Não é prioridade.
Também
é visível o abandono na UERJ e na UENF.
Então, uma
educação do jeito que temos é
comprometedora de um
país que possa ter uma visão crítica.
Que venha a
ter uma maior mobilização política. E
isso tem
relação direta com a maneira de encarar Tropa de
Elite,
por exemplo. O Bope virou uma produção de
heróis.
O número de policias inscritos para Bope cresceu seis vezes.
Então, o Bope é visto como
solução quando
é uma das piores coisas que a política de
segurança já produziu.
A
mídia também contribui para isso?
Quando a mídia legitima o discurso
da guerra e
reafirma que existe um inimigo, ela legitima a
eliminação
desse inimigo. Li uma reportagem assim: “Madrugada em claro
ao
som de tiros e explosões”, d’O
Globo.
Falava que os vizinhos dos morros não conseguiam dormir e
que,
ao amanhecer, ficaram com medo de sair na rua com seus cachorros.
Parece que o morro é o problema. Não é
o morro que
tem o problema. Está aí a
produção de
invisibilidade. E nessa operação morreram quatro
pessoas.
Tem outra que
dizia:
“Menores moram em bueiros em Ipanema”. Pensei que
era uma
reportagem preocupada com a situação dos meninos.
Não! Falava que era um absurdo os banhistas de Ipanema
levarem
grandes sustos quando os garotos resolviam sair do bueiro. Ter uma
criança dentro de um bueiro não é o
problema, o
problema é ele sair do bueiro. A matéria quase
diz que se
eles não saíssem de lá, não
haveria
problema. Essa postura alimenta uma ideologia. É um processo
pedagógico de poder.
E a
sua relação com a mídia? Como
é?
Tenho amigos n’O Globo,
no Dia.
E já fiz boas matérias. Mas foi a partir do
momento que
também passou a interessar a eles. Um exemplo foi o da
Polinter,
uma prisão onde ficavam os presos da Polícia
Civil.
Passei muitos meses investigando a Polinter até que descobri
um
carimbo institucional assim: “declaro pertencer à
facção tal”. Os presos tinham falado
que eram
obrigados a dizer que pertenciam a facções, mesmo
quem
não pertencia. Então, o cara que havia roubado um
celular
na rua, ao entrar na Polinter, passava a ter uma
facção.
E isso acontece até hoje nas prisões.
É
a idéia de organização do que
não é tão organizado assim?
Isso. Quem organiza aí é
o Estado, que
é sócio do crime, é o ministro da
barbárie.
Se o cara responde que não tem facção,
eles
perguntam onde o sujeito mora e o enquadram no mapa das
facções A, B ou C. O discurso oficial
é de que
é melhor para o preso, para que ele não caia em
áreas de facções rivais. Na verdade, o
Estado
ingressa o preso numa facção que tem regras,
códigos, todas as relações de poder
dentro do
espaço público. E esses presos disseram que eram
obrigados a assinar embaixo desse carimbo.
Eu trabalho
há 20 anos com
presos. Nunca me pediram nada, nem um real. E também nunca
fizeram uma denúncia que não procedesse.
Aí
averigüei e o carimbo era verdade. Consegui uma
cópia e
procurei o governo do Estado. Pedi uma reunião para ver se
aquilo mudava. Não fui recebido, ainda não era
deputado,
né? Então, liguei para um amigo jornalista
d’O Globo, e aí acho que tinha
que ser d’O Globo por uma
questão de estratégia. Podia ser o Fazendo
Media, mas como eu queria derrubar a Polinter inteira, o Fazendo
Media não me ajudaria muito nisso, com todo
respeito. Aí negociei.
Queria a
primeira página de
domingo, caso contrário, marcaria uma coletiva. Ele falou
que
era quase impossível sair, pois era a época do
Severino
[Cavalcanti]. Só dava Severino, Severino. Mas acabou saindo.
Saiu com a foto dos presos amontoados e o carimbo em cima. No domingo
à noite toda a Polinter foi demitida.
Isso muda minha
opinião
sobre o papel da imprensa? Não, não muda.
Já
fiquei muito chateado por causa de informações
deturpadas
também. A gente não pode é criar a
ilusão
em cima do papel político e ideológico do jornal.
Mas se
der para cavar um espaço e fortalecer a luta do dia-a-dia,
acho
que a gente tem que fazer. Seria ingenuidade não fazer.