......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 




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15.02.2006
FAUSTO WOLFF
Escritor e jornalista, colunista do Jornal do Brasil

Entrevista concedida a Mariana Vidal, Thaís Tibiriçá, Mônica Tolipan e Marcelo Salles. Fotos de Fernando Coutinho.

Mariana Vidal - Você acha que essa falta de senso crítico é imposto ou é auto-censura do repórter?
Fifty-fifty. O repórter não investiga porque parte do princípio de que não será editado quando, eventualmente, acontece o contrário. É auto-censura do repórter, claro. Essa é uma profissão que você só exerce se você a ama muito. E se você ama muito essa profissão, você precisa ser independente. Muito bem, quando você está começando, está aprendendo, vai fazendo o que os outros dizem até enxergar com seus próprios olhos e perceber que você trabalha para uma direita. Fui candidato a deputado federal pelo PDT e disse que não tinha bens materiais a declarar e não tenho.

"Os semitas aproveitaram o holocausto para pressionar o mundo a lhes dar metade da Palestina"

Marcelo Salles - Quando nós entrevistamos o Emir Sader, ele disse que ele foi afastado da Globonews por pressão dos judeus.
Não há porque duvidar dele. Os sionistas querem fazer crer que quem apóia a Palestina é anti-semita. Meu Deus do céu, os grandes amigos meus são judeus, minha mulher também é judia por parte de pai. Uma coisa é você ser judeu, outra coisa é você ser judeu e ter isto como raça; que porra é essa de raça? Não existe raça judaica, não existe raça nenhuma. Só tem uma raça, a raça humana, e quem sabe a dos pigmeus no meio da África do Sul.

Marcelo Salles - Aprofundando um pouco essa questão, como você vê esse conflito Israel e Palestina, que parece que nunca termina?
Os semitas aproveitaram o holocausto para pressionar o mundo a lhes dar metade da Palestina. Os palestinos, com exceção dos fanáticos sionistas, viviam com os judeus muito bem. Até que de repente surgem judeus liderados por Ariel Sharon massacrando palestinos e usando o holocausto como desculpa. O Holocausto foi provavelmente o maior crime cometido no mundo, seguido de perto pelo bombardeio de Hiroshima e Nagazaki. Mas, por que os judeus não brigam com os alemães em vez de quererem escravizar os palestinos? Se eu fosse a ONU teria estabelecido o Estado de Israel no Vale do Rhur para que os alemães jamais se esquecessem do opróbrio.

Marcelo Salles - Como foi o exílio?
Eu nunca fui oficialmente exilado. Em 1968, antes do AI-5, eu tinha 3 colunas em 3 jornais diferentes, diárias, e atuava num programa de televisão chamado Jornal de Vanguarda. Com a censura, ainda antes do AI-5, eu comecei a falar de flores e plantas e o público sabia que eu estava sendo censurado. Eu tinha 28 anos. O diretor do programa era amigo do Magalhães Pinto, que era Ministro das Relações Exteriores. Ele informou-me de que eu estava numa lista dos primeiros a serem presos. Uma semana depois eu estava em Roma. Hoje eu tenho certeza que eles teriam me matado. Eu era um jornalista conhecido, mas não era um Millôr Fernandes, um Carlos Heitor Cony, um Hélio Fernandes, cuja ausência daria o que falar. Eu ia desaparecer. Eu estava cansado desse negócio de não poder escrever, de não poder fazer.

Marcelo Salles - Passou os dez anos em Roma?
Não, não. Fui professor da Universidade de Copenhague, professor da Universidade de Nápoles. Morei um tempo na Grécia.

Marcelo Salles - E a volta?
Eu voltava sempre ao Rio quando conseguia dinheiro para a passagem. Porque meu nome não é Fausto Wolff e eles estavam atrás do cara chamado Fausto Wolff. Tinha sempre alguém me esperando no aeroporto. O Millôr ou Daniel Tolipan, tio da Mônica, ou a Nelma do Pasquim. Logo eu não tive grandes problemas com a ditadura com exceção do medo de que ela me matasse. Entre um país governado por más leis e um sem leis prefiro o primeiro. A ditadura não tinha leis. Mudava as regras do jogo quando queria. O cara batia na sua casa 6h da manhã e te levava pra algum lugar. E hoje isso acontece com todo o sujeito que é pobre, com todo o João da Silva, é absolutamente a mesma coisa. A polícia sobe no morro, pega o cara e mata. O que eu tenho contra os jornais do Brasil é que eles trabalham para a minoria livre ou pseudo-minoria. E eu tenho a pretensão de escrever para todo o mundo. Quando eu voltei, sem lenço e sem documento, sem dinheiro e sem emprego, verifiquei que muitos colegas tratavam os ministros de "vocês", viviam nas festas. Eu não poderia trabalhar desse jeito, fingindo que tudo ia bem. Quando saí daqui trabalhava na Tribuna, no Jornal do Brasil e no Diário de Notícias. Ao voltar, o Diário de Notícias já tinha acabado e só restava um caminho, que era o Pasquim. E no Pasquim fiquei. Eu tinha 40 anos e morava numa pensão. Pensão mesmo, três da manhã era comum um comitê de baratas me esperando todas as noites.

Mariana Vidal - Quando você estava fora do Brasil, em algum momento pensou que deveria ter ficado e lutado?
Puxa vida, eu não tinha porque dar colher de chá para um vagabundo qualquer me dar um tiro. Eu ainda tinha muita coisa para escrever.

Marcelo Salles - Depois do Pasquim você...
Depois do Pasquim eu só tive um emprego público, cargo de confiança. Eu fui chamado para dirigir a Fundação Rio, o que fiz durante quatro anos. Nesse tempo, eu escrevi um livro no campus da universidade, chamado Rio de Janeiro. Eu fiz o festival do Teatro Amador, a Poesia Passageira, a poesia em ônibus, bar. Ah, e com Olga Savary fiz um livro chamado Antologia da Poesia Brasileira, dos poetas que tinham nascido depois de 1904. Eu fiz coisa para burro, sem trabalhar muito. Imaginem se eu trabalhasse. Nunca mais me chamaram para nenhum cargo público.

Mônica Tolipan - Quando eu conheci o Fausto ele estava sem emprego, começando a escrever O Homem e seu Algoz. Tinha acabado de separar.
Eu não estava sem emprego.

Mônica Tolipan - Você estava traduzindo um livro chamado Breaking the News, que denuncia o show business em que se transformou o jornalismo americano.
Eu traduzo do inglês, alemão, francês, italiano, espanhol. Entendo holandês, dinamarquês, grego, romeno, norueguês. Quando um cara estuda até a segunda série ginasial, ele tem que sempre mostrar que é melhor, pois ele não pode se defender com um diploma.

Marcelo Salles - Você ainda edita pela Bertrand?
Tenho três ou quatro livros sob contrato. Estou negociando os demais com outras editoras. Eu tenho o site O Lobo (www.olobo.net), dirigido por meu amigo Jean Scharlau.

Marcelo Salles - E o Horácio?
O Horácio é uma espécie de agente/assessor meu. Um dos rapazes mais inteligentes que eu já conheci. Ele, Scharlau e Maria Belmoral são as grandes promessas da literatura atual na minha opinião. A Internet é muito bom. Ao mesmo tempo em que você tem um site de esquerda como o de vocês, tem um de direita muito bem escrito, o Digestivo Cultural, da linha arte pela arte. Seu editor ainda não entendeu que sem o homem não há literatura, assim como não há texto sem contexto.

Mônica Tolipan - Você está vendo acontecer uma guerra urbana e que ninguém quer ver? Entre as favelas?
Infelizmente é a direita - tráfico - quem manda nos morros. Fosse a esquerda, o morro já seria bairro digno de seres humanos ou já teria descido. O Rio de Janeiro continua vivo, porque em 1964, 65, 66, o Partido Comunista, em vez de infiltrar-se nos exércitos e nas favelas, preferiu fazer as favelas persistirem em terreno urbano. Tinha que infiltrar gente nas forças armadas, nas universidades. Pessoalmente eu acredito que estão matando e afogando mendigos no Rio de Janeiro. Quem te garante que estes canalhas não peguem crianças de madrugada e vão para matar? Os americanos estão cada vez mais colocando as manguinhas de fora. Seguindo o exemplo de Israel, querem fazer uma cerca que separe os Estados Unidos do México.

Mariana Vidal - Se este tipo de coisa saísse na nossa grande imprensa, você acha que a população estaria preparada para pegar um jornal diário e ler isto?
Se tudo der certo, podemos provar que o jornalismo que diz a verdade pode dar mais lucro do que o venal.

Marcelo Salles - Existe verdade? Existe uma verdade?
Olha, basicamente a verdade é aquilo que você toca. Aquilo que você toca e pode ver. Mas há falhas sobre ver, então seria aquilo que você toca. Tocou, você sentiu. Hoje, em termos políticos, é tudo aquilo com o qual você se acostumou. A verdade, porém, deve desmascarar a realidade que o poder pretende natural. A maioria das crianças das favelas não vai à escola, mas os jornais noticiam que um grupo de faveladas da Maré está fazendo um curso de flores artificiais. Essa é a realidade que encobre a verdade, que é a seguinte: as crianças faveladas e sem teto estão sendo viciadas, estupradas todos os dias. Vinte crianças numa cama só, a mãe mudando de amante todo dia. E nada disso é verdade. A verdade é o curso de flores artificiais das faveladas.

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