......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 




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15.02.2006
FAUSTO WOLFF
Escritor e jornalista, colunista do Jornal do Brasil

Entrevista concedida a Mariana Vidal, Thaís Tibiriçá, Mônica Tolipan e Marcelo Salles. Fotos de Fernando Coutinho.

Marcelo Salles - O que é, para você, ser de esquerda? E o que é ser de direita?
Ser de esquerda é você se colocar ao lado do homem e das suas necessidades. É você se colocar, não ao lado de uma realidade que te impõem, e sim de uma verdade que essa realidade esconde. Ser de esquerda é, entre o lucro e a dignidade, ficar com a dignidade. Ser de esquerda é não achar que o dinheiro é o fim e o objetivo de todas as coisas. Ser de esquerda é achar que o objetivo da nossa vida é o homem em si e, finalmente, para usar uma frase de efeito, ser de esquerda é lutar até nos descobrirmos deuses, e assim não precisarmos mais de deus algum.

"Ser de esquerda é lutar até nos descobrirmos deuses, e assim não precisarmos mais de deus algum"

Marcelo Salles - E a direita?
Olha, a direita é uma doença inculcada... O primeiro vencedor foi o macaco na época das cavernas que sentou um tapa nos outros três fraquinhos e "olha, esse canto aqui é meu e ninguém tasca". Está na tradição, na família e na propriedade, no caso do Brasil, nem tradição, nem família, nem propriedade. "Por que é que esses 500 quilômetros de terra são seus?" "São meus porque meu pai passou eles para mim". "E quem passou isso para o teu pai?" "Foi meu avô". "E quem passou para o teu avô?" "Meu avô tomou eles na marra". Então a revolução é você lutar pelas coisas, é você dizer "eu não acredito nessa lei e vou trabalhar contra ela". Agora, é claro que nós estamos perdendo e vamos perder cada vez mais se nós não atentarmos para a educação e para a cultura, porque a educação e a cultura são as únicas coisas que podem mudar. A filosofia comunista, ao contrário do que se pensa, só pode se transformar numa revolução se ela vier de dentro para fora. Por que você tem que se convencer de que não precisa usar as outras pessoas para poder ser feliz. Não precisa de dois automóveis, nem dez amantes, nem vinte isso ou aquilo. Como disse Proudhome: "a propriedade privada é um crime". E é realmente um crime. Então, ser de direita é ser um louco, ser de direita é ser um canalha, um psicopata perigoso, e a gente tem que tomar muito cuidado com eles. Melhor seria botá-los todos na cadeia.

Marcelo Salles - Em relação à educação aqui no Rio, o Brizola tentou fazer isso com os CIEPs e, até hoje, ele tem um estigma muito forte, principalmente na Tijuca, de "amigo dos bandidos".
Ele não permitiu que a polícia, essa polícia que está como policial porque não passou no vestibular para bandido, entrasse no morro e matasse todo mundo e foi a época que você teve menos crimes. E o Brizola fez a coisa certa, sem os CIEPs não tem solução; se os CIEPs tivessem funcionado em 1982... Vamos deixar por 200 CIEPs com 1000 crianças cada, seriam 200.000 crianças; essas crianças não estariam hoje vendendo chiclete nas ruas. Aí entrou esse canalha do Moreira Franco e disse que acabaria com o crime em meio ano; e a primeira coisa que fez foi acabar com os CIEPs. Olha, se você educa uma criança, se você pressiona essa criança, se leva essa criança para o crime todo dia e no dia em que essa criança se rebela você vai tratá-la como cachorro, é claro que ela vai morder. Seria uma beleza pegar todas essa crianças que estão na rua, e que são muito mais inteligentes que as crianças burguesas, são muito mais corajosas, muito mais talentosas e fazer escolas especiais para elas. Dessas escolas sairiam os grandes homens, os futuros dirigentes do país. Nós estamos vivendo na Idade da Pedra em matéria de humanismo. Pagamos cinco mil reais para manter o filho numa escola primária e não pagamos 400 reais para a empregada que vai cuidar dos nossos filhos.

Marcelo Salles - Parece que as pessoas têm vergonha de se assumirem comunistas. Será que não é porque o comunismo é mal entendido no Brasil?
Mal entendido, mal lido... A direita fez as pessoas pensarem que comunismo é burocracia, que comunismo é stalinismo. Comunismo é uma filosofia humanista que ainda não deu certo. Mesmo se você pensar que na Rússia os patrões falavam francês entre si, alemão com os empregados e russo com os cachorros e porcos, houve uma grande evolução estagnada pelo neoliberalismo. Se compararmos a Rússia pré-perestroika à Rússia de 1917 veremos que ela realizou a maior obra de engenharia social do mundo. Quanto a Stalin, acho que nada desculpa você tirar uma vida humana, mas nada, nada. Não acredito que os fins justifiquem os meios. Claro que isso não me impede de querer a pena de morte para genocidas, ou seja, para esses canalhas que mandam milhões de dólares para fora do país e com isso matam milhões de crianças de fome.

Mônica Tolipan - O ocidente gastou mais dinheiro em propaganda contra o comunismo do que qualquer outra coisa. Quando eu era menina minha mãe me levava para o outro lado da rua quando passava um vizinho que diziam ser comunista.
O Globo publicava histórias em quadrinhos que mostravam guerrilheiros cubanos degolando crianças. O país inteiro amanheceu com um pôster nos muros onde se via um ponto de interrogação vermelho e sob ele: "E o resto é silêncio". Os jornais brasileiros não publicavam notícias das agências do leste e ainda hoje, se você fizer uma comparação dos países do leste europeu com os países da América do Sul, vai ver que, com exceção da Polônia, você não tem um analfabeto.

Mariana Vidal - Com a chegada agora do Evo Morales e de uma socialista no Chile, qual sua expectativa em relação à América Latina?
A minha expectativa é de que enfim se possa fazer um Mercosul. O Brasil, idiota, sempre foi dominado pelos portugueses, depois pelos franceses, depois pelos ingleses e agora pelos americanos. Sempre deu as costas para a América do Sul. É hora de se começar um intercâmbio político, militar, cultural, econômico que faça mudar as coisas, ou seja, que realmente concretize o sonho de Bolívar de uma América Latina livre. Nós no Brasil não conhecemos a América do Sul, não temos idéia do que é a América do Sul. Eu gosto muito do Chávez, eu gosto muito do Morales, índios, nativos, retomando o país. Gosto da moça chilena [Michele Bachelet]. Acabarão compreendendo, como Fidel, que a coisa é simples: "de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades". Não precisa dizer mais nada. Basta você acreditar que todo o ser humano é igual a você; você olha uma mão e vê cinco dedos. Quantos engenheiros e arquitetos você precisaria para bolar uma maravilha como essa? Você tem mais ligações nervosas, neurônios no cérebro humano que em todos os computadores do mundo e, no entanto, essa porra só serve para levar porrada da polícia.

Thaís Tibiriçá - A questão da cultura que você falou, o lançamento do seu romance agora, o "Olímpia" e o mercado editorial, em que o livro mais vendido é "O monge executivo"...
A tendência é essa mesmo. Se você quer estabelecer um sistema capitalista, e você quer estabelecê-lo sem limitações, é fundamental que o povo não pense, que a maioria não pense. No Brasil nós conseguimos isso, nós temos favelas. Por quê? Porque o povo não pensa. Porque se ele pensar, vai chegar à conclusão: "mas por que eu estou comprando essa porcaria?". Isso é pecado mortal para o sistema. "Por que estou comprando essa porcaria, por que não vou ali no vizinho, não peço emprestado, não troco, não faço qualquer outra coisa?". Por que é que tenho que comprar essa merda desse tênis para o meu filho? Nós temos uma nação de escravos! Até a classe média, ela é toda escrava.

Mônica Tolipan - É muito americano isso. Se você tem um bom emprego, você está salvo na vida. Você faz qualquer coisa para se manter no emprego e perde o caráter.
A direita quer que você acredite que a vida é um inferno. Quer que todos sejamos filhos do medo para obedecermos sem pensar.

"Se você quer estabelcer um sistema capitalista, é fundamental que o povo não pense"

Mônica Tolipan - Não precisa ser um pesadelo.
Não é um pesadelo. Para qualquer lado que você olhe, só vê beleza. Você só vê porcaria quando é feita pelo homem, como aquela lixeira em Queimados. Os peixes boiando, as praias poluídas, a selva desmatada, tudo feito pelo homem. A natureza está sempre bonita, o azul é bonito, o verde é bonito, o amarelo é bonito, fazer amor é bonito, mulher é bonito, o homem é bonito, tudo é bonito... A direita é que é anti-tudo.

Marcelo Salles - Você escreveu certa vez que os escritores foram vencidos pela mídia.
A arte foi e é verdade. A não ser que eles façam parte da mídia, quais são os escritores que mais vendem? Bons ou ruins são os que têm colunas em grandes jornais ou programas de TV. Os meus livros provavelmente vão vender mais por causa do Jornal do Brasil; se eu for pro Globo, então, sou capaz de arranjar dinheiro para comprar o apartamento em que vivo. Mas isso não vai acontecer porque venho de longe, como dizia o Brizola. Pedi demissão da TV Globo em 1965 e nunca mais passei na frente. Nunca dei uma entrevista para TV Globo.

Marcelo Salles - Você uma vez escreveu uma história de um poeta a quem o produtor pedia um texto, parece que de teatro, fazia o texto e deixava na mesa do produtor, aí o produtor não gostava e mandava ele reescrever. Ele reescrevia mudando um pouco e deixava na mesa de novo. Até que ele reescreveu pela última vez e deixou de novo com um bilhete "Pior não dá para ficar".
Ah, foi o Antônio Maria que fez isso na TV Tupi: "Pior não sei fazer". Qualquer canal de televisão trata o telespectador como gado. Os canais fechados pouco menos.

Marcelo Salles - É verdade que você brigou no elevador com o Adolfo Bloch?
Não. Não foi no elevador, eu nem briguei com ele, dei um tapa e hoje me arrependo, embora ele merecesse.

Marcelo Salles - Sei que você deve estar cansado de contar essa história, mas eu não sei os detalhes.
Eu morava em Roma, e o Ney Sroulevich, meu querido amigo que já faleceu, ligou para mim de Paris. A revista Manchete, cuja sucursal ele dirigia, tinha uma seção chamada Paredon. Eles pegavam uma figura popular brasileira e internacionalmente conhecida e faziam perguntas para as celebridades do mundo inteiro. Resolveram fazer isso com o Pelé. E Ney pediu-me que fizesse perguntas a celebridades italianas. Eu estava indo para a Grécia, atrasei minhas férias. Aí eu fiz uma relação - Pasolini, Moravia, Riva, Tognazzi, uns dez mais ou menos. Pedi-lhe 500 dólares pelo trabalho e ele concordou, mas a casa só pagaria se eu fosse cobrar no Rio. Na época eu escrevia para o Pasquim e tinha que entrar com passaporte falso no Brasil. E, porque o Pasquim não estava me pagando, estava sem dinheiro. Aí fui à Manchete cobrar. Realmente estavam lá na administração: 500 dólares - Paredon com Pelé. E eu já estava muito puto com essa história de olhar pro chão, olhar pro lado. Era uma época brava, 1970, 71. Eu queria pegar aquele dinheiro e me mandar. Aí o Adolfo passou, eu era novo, tinha uns 30 anos, e disse: "Dá para você assinar para eu receber?" Ele olhou para mim como se eu fosse louco. Disse: "500 dólares para uma entrevista? Você está muito louco! Eu pago 100". Aí eu dei um tapa nele e fui embora da Manchete e do Brasil.

Mariana Vidal - Saiu uma pesquisa recentemente sobre o hábito de leitura do brasileiro. O resultado é que os brasileiros lêem muito pouco, inclusive brasileiros de nível superior. Muitas pessoas falaram que só leram aqueles livros indicados pelos professores para conseguir o diploma.
Parece que ler é castigo. Agora, no Rio Grande do Sul, o prefeito de Cachoeira disse que seus funcionários têm que ler um livro por semana e têm que dar o comentário. É castigo.

Mariana Vidal - Mesmo sabendo disso, o que leva um escritor a continuar escrevendo?
Eu sou um escritor e tenho que fazer isso. Porque eu não conseguiria viver sem fazer isso. Eu não poderia viver sem escrever. É uma coisa quase metafísica, é uma coisa superior a mim. A Mônica sabe que entre um livro e outro eu fico muito nervoso. Eu acho que nós todos temos que deixar um testemunho da nossa época para facilitar a vida de quem vem. O que seria minha vida sem Balzac, Tolstoi, Kafka, Joyce, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Castro Alves, Drummond. Estes são os grandes heróis do mundo. Os grandes heróis do mundo não são os generais que destroem, mas os filósofos que constroem. Já imaginaram como o mundo seria mais triste apenas com depoimentos de militares? "A senhora leu o último poema do Geisel"?

Marcelo Salles - Você vê alguma forma de se reverter esse quadro?
Há várias formas de reverter. Vocês estão revertendo a situação. No momento em que vocês fazem um jornal como esse, qualquer pessoa bem intencionada, profissional, verá que estão fazendo um trabalho sério. Tão sério que vocês estão aqui. Vocês pegaram o Jânio de Freitas na Folha de S. Paulo, pegaram o [Eduardo] Galeano. Essas coisas importam muito. Chamaram a minha atenção, chamaram a atenção de muitos outros. Outra coisa importante e possível é fazer um jornal de bairro, um jornal comunitário. Realmente levar isto às últimas conseqüências. Quando o pessoal do bairro sentir que aquilo não é um negócio só para colocar anúncio e poeminha, e vir que você está preocupado realmente com aquela vala suja, a reação do público será imediata. Outra coisa: você pode fazer até um Jornal Nacional. Os grandes sindicatos, em vez de mil house organs, façam um grande jornal nacional e nacionalista. Uma coisa que eu sugeri ao Banco Central, quando eles vieram pedir que eu fizesse um jornal para eles: olha, o jornal do Banco Central vai ser uma bobagem, eu quero fazer um jornal em que vocês todos ponham dinheiro do Banco Central, Petrobrás, Caixa Econômica, tudo. Aí a gente ia fazer um jornal, tinha até dado o nome: FORTE.

Mariana Vidal - O Banco Central?
Não, o sindicato dos funcionários do Banco Central. Imagine, o Banco Central não vai me pedir nada, vai me dar um tiro. O Banco Central só dá dinheiro para banqueiros.

Mariana Vidal - Falando sobre as colunas, questões como a América Latina, Palestina, você escreveu sobre os indígenas, furacão Katarina. Por que essas abordagens ficam apenas restritas às colunas? Não dariam boas reportagens?
Cada coluna minha dá uma grande reportagem. Acontece que a maioria dos repórteres viraram office-boys. Acabou a aventura, acabou a beleza que era. Antigamente a gente não ganhava nada, mas se divertia pra burro. A gente é que fazia o jornal. Hoje as redações foram ficando mais silenciosas, desculpe as mulheres, mas elas têm grande culpa nisso. As mulheres tiraram muito os lugares dos homens por ganhar menos. Elas são mais silenciosas. As redações não são mais os magníficos palcos que costumavam ser, cheias de nervos, sangue, suor, gargalhadas e lágrimas. A notícia precisa chegar viva à redação para ser transmitida vivíssima. Hoje, ela chega morta na mão do repórter, depois vai para redator e chega morta ao leitor. É preciso mais indignação, menos medo; é preciso mostrar que nem sempre aquilo que é natural não é um crime. Um menino vendendo chicletes de madrugada, por exemplo. Milhares de seres humanos esperando numa fila de hospital. Hoje um general brasileiro se suicida no Haiti e ninguém investiga.

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