......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 




15.02.2006
FAUSTO WOLFF
Escritor e jornalista, colunista do Jornal do Brasil

Fausto Wolff é um dos raros colunistas da imprensa brasileira que dignificam a profissão. Em suas palavras, "vejo o jornalismo com os olhos de quem está no meio-fio da calçada". Por isso mesmo sempre foi pressionado pelos poderosos de plantão. Hoje, cada artigo seu no Jornal do Brasil deixa a dúvida sobre a publicação do seguinte (ele escreve às terças, quintas e domingos), tal a contundência empregada. O que podemos fazer para exercer a contra-pressão é escrever para cadernob@jb.com.br e manifestar nosso apoio a este grande escritor do nosso tempo.

Entrevista concedida a Mariana Vidal, Thaís Tibiriçá e Marcelo Salles. Fotos de Fernando Coutinho.

Marcelo Salles - Parece que o Ziraldo levou para o JB o mesmo pessoal que fazia o Pasquim 21.
Eu estou de relações cortadas com o Ziraldo depois de quase quarenta anos de amizade que aparentemente tinha mão única. Ia da minha direção a ele. Só posso dizer que ele é o rei da classe média. Com os nomes que levou para lá - alguns excelentes e outros para fazer média, o Caderno B seria sempre bom, mas jamais uma revolução cultural. Embora seja um gênio como artista gráfico, gosta do humor classe média que não enxerga nada além do seu umbigo e dos modismos do seu mundo-umbigo. Humor, exatamente por ter mais liberdade, só tem sentido se for revolucionário e radical, se revelar o que ninguém viu antes. A reação dos leitores em relação à minha coluna foi uma surpresa para o Ziraldo e um pouco para mim. A grande imprensa não estava acostumada a um colunista como eu - que depois de trabalhar em todos os jornais do Rio, foi estigmatizado e permaneceu trinta anos na imprensa alternativa. Os leitores responderam positivamente - recebo mais de dez cartas por dia. Depois de uma semana elas passaram a não ser publicadas até que a seção de cartas passou a funcionar de duas em duas semanas, se tanto.

Marcelo Salles - Por que você acha que se tornou o colunista mais comentado do Brasil do dia para a noite?
Do dia para a noite e mais cinqüenta anos de experiência, errando e tentando, errando e tentando. Acho que os leitores viram que atrás daquele texto havia um homem, alguém que comungava de suas dores e alegrias, que paga aluguel, faz dívidas, joga nos cavalos. Não viram um cagador de regras que vê a vida a partir da classe-média alta à qual ele pertence e como tal aceita todos os seus modismos. Eu sou o sujeito que já foi corneado, já sofri perdas irrecuperáveis, já vi a morte frente a frente, tomei porres famosos, fui amado, já brochei, já estive na cadeia e, o que é mais importante, tenho uma firme posição político-ideológica.

Marcelo Salles - Por que você não trabalhava na grande imprensa?
A grande imprensa não cumpria a sua parte. Primeiro diziam-me que não havia censura e depois me censuravam. Quando Sarney entrou para o governo e começou seu desgoverno quis fingir-se de democrata e convidou alguns jornalistas como Jânio de Freitas e eu para falarem sobre política. Jânio foi embora quando o programa acabou. Eu continuei em outro programa, mas era censuradíssimo. Passei a falar sobre política internacional. Mais censura. Passei a falar sobre literatura. Foi quando o Collor, psicopata, entrou e mandou que congelassem o meu salário. Depois de alguns meses, graças à inflação, eu estava ganhando 1 dólar por mês. Ao entrar alguns anos antes ganhava 1.500 dólares. Continuei trabalhando, entrei na justiça há mais de dez anos e o processo transitou em julgado. Há dez anos que a Advocacia Geral da União não paga o meu precatório. Hoje seriam algumas centenas de milhares de reais. Eu poderia me aposentar e escrever a obra-prima da literatura universal que só seria reconhecida como tal dentro de duzentos anos. Trabalhei ainda na Bandeirantes e no Última Hora mas depois de algum tempo a minha sinceridade em relação ao ouvinte e meu compromisso com a verdade se tornavam pesados demais para a direção. Algum poderoso reclamava e lá estava eu na rua. Na Bandeirantes, que anunciava não ter censura, uma repórter perguntou ao Zé Augusto Ribeiro o que ele achava e ele: "Posso garantir que enquanto o Fausto Wolff trabalhar aqui não haverá censura".

"Os leitores sentem falta de um jornal que não insulte sua inteligência"

Marcelo Salles - E o Jornal do Brasil?
Cansei de declarar em rádios e tvs que se um dia encontrassem um artigo meu na grande imprensa, um de nós teria mudado. O JB havia feito um contrato com o Ziraldo para passar-lhe a edição do Caderno B. Um ano antes, Ziraldo me dizia: "Não assuma compromisso algum, pois você é o sujeito que melhor escreve no Brasil e é o meu trunfo para o caderno B". Pouco antes tive uma isquemia e o Ziraldo ligou não para saber se eu estava bem, mas se eu ainda tinha condições de escrever. Eu acreditei e continuo acreditando cada vez mais no projeto. Eu não mudei, mas o JB mudou para melhor. Isso significa que poderá voltar a ser o melhor jornal do Brasil, recuperar todos os leitores que perdeu para O Globo. Os leitores sentem falta de um jornal que não insulte sua inteligência.

Marcelo Salles - E o Tanure?
Um dos editores - cujo nome não vou citar - pediu-me para maneirar uma vez. Foi uma questão entre cavalheiros. Não mudei e escrevi outro artigo. O jornal - não é antes de tudo, mas certamente é também um estabelecimento comercial. Não faz sentido ele ter prejuízo porque um colunista decidiu usar um vocábulo em vez de outro. Tanure, desde o nosso primeiro encontro demonstrou ser um gentleman e um homem de palavra. Jamais me dei bem com patrões. Ele, porém, é um executivo, um intelectual que quer fazer um bom jornal. Agora que contratou Augusto Nunes, um dos maiores profissionais da imprensa, não há porque não fazê-lo.

Marcelo Salles - Quais temas foram censurados?
Num artigo eu opinava sobre o próprio jornal e noutro defendia a causa palestina. Vendo a coisa toda agora, talvez eu tenha pegado pesado demais.

Marcelo Salles - E a imprensa sionista?
Isso é uma maldição. Perseguem-me desde que escrevi um livro chamado Palestinos, Judeus da III Guerra Mundial, no qual defendo o direito de os palestinos terem sua terra e não a favela onde hoje são obrigados a viver sob constantes ataques israelenses. Este foi outro motivo de eu ter permanecido tanto tempo fora da grande imprensa. Logo eu, cujo segundo romance, O Campo de Batalha Sou Eu, posfaciado por Alberto Dines, foi o primeiro no Brasil a ter um protagonista judeu. A esquerda israelense quer viver em paz com a Palestina. A direita israelense e os judeus que vivem fora de Israel é que não querem. Tratam o conflito como se fosse um jogo de futebol no qual torcem pelo seu time. Em guerra se torce por quem tem razão e a razão está ao lado dos palestinos. Não aceito o insulto de anti-semita, pois não sou contra etnia alguma. Uma comissão de sionistas esteve no JB pedindo a minha cabeça. Como coincidiu de a direção do jornal decidir diminuir o número de páginas no Caderno B, tive de parar com o [Nataniel] Jebão e escrever minha coluna apenas três vezes por semana. Li na Internet que os sionistas pensam que isso se deu por causa deles, mas foi pura coincidência. Alguns dos meus melhores amigos são judeus e anti-sionistas. Pergunto-me o que meus ídolos Jesus Cristo, Marx, Freud e Einstein, todos judeus, diriam de uma figura como Ariel Sharon.

Marcelo Salles - Tem uma anedota sua de um jovem jornalista que chega à Redação, conversa com o dono do jornal e diz que tem o sonho de fazer um jornalismo humanista. O dono o incentiva, admira sua intenção, mas quando o jornalista vai embora ele liga para a portaria e diz: "Nunca mais deixe esse filho da p... voltar". Os donos da mídia, hoje, são assim?
Já falei do Tanure. O outro dono com o qual me dei bem foi o Samuel Wainer, que nunca me censurou. Minha opinião sobre este assunto é a seguinte: o grande jornal não pode simplesmente expressar a opinião do seu dono. Acabaria acontecendo o que acontece na televisão. Quem patrocina o programa - Casas Bahia, digamos - determina a cultura do povo. Creio que a obrigação do jornalista com o patrão é de fazer para ele um jornal bem feito e que lhe dê lucro. O sistema é capitalista e essas são as regras do jogo. Quanto à posição política do jornal, esta deve ser determinada por um conselho de redação onde a participação patronal seja mínima, a dos jornalistas média e a do público leitor a máxima. Tivesse eu um jornal daria duas páginas aos leitores. Os conselhos de redação já existem em alguns dos principais jornais do mundo há muito tempo: Frankfurt Algemeine, L'Unitá, Paese Sera, The Independent, Politiken, Le Monde, entre outros. No Brasil a situação é tão patética que o governo acha que a TV Educativa é dele e impõe e proíbe o que bem entende em vez de dar aos empregados a possibilidade de fazerem a melhor TV do Brasil. Esquecem-se que a TV é uma concessão do povo e que, portanto, cabe ao povo decidir o que quer ver na sua rede. Quando estive na Itália a primeira vez e fiz um estágio na RAI fiquei impressionado ao ver Giancarlo Pajjeta, veterano deputado comunista, desancar o governo democrata cristão. A resposta foi óbvia: numa democracia todos os espaços políticos têm espaço. Se a TV Educativa não fosse um cabide de empregos poderia ser a melhor, pois elementos capazes ela tem.

"Somos um rapaz mulato desdentado com 16 anos em frente a uma loja de discos cantando uma música americana que ele não sabe o que quer dizer"

Marcelo Salles - O que você esperava do novo Caderno B?
Uma revolução. Uma espécie de Village Voice com tempero carioca. Ziraldo encheu o jornal com seus amigos. O B praticamente só tinha colunistas quando deveria ter bons críticos de artes plásticas, cinema, teatro, tv, ballet, literatura, poesia, música, grandes reportagens e principalmente uma linha de defesa do cinema e da literatura nacionais. Uma campanha a favor de um teatro e um cinema subvencionados pelo Estado para fazer frente ao lixo hollywoodiano. Lutar pelos autores nacionais que sofrem para editar bons livros enquanto que qualquer best-seller americano ou europeu ganha páginas e páginas de propaganda. Deveríamos resgatar a música brasileira, que já foi a melhor do mundo quando imposta pelo povo aos meios de comunicação, e não ao contrário como ocorre hoje. Naquela época o carnaval era uma revolução anual com milhões de pessoas cantando novas músicas de protesto social todos os anos. A cada carnaval o povo aprendia mais de cinqüenta novas músicas e as cantava em uníssono do Amazonas ao Rio Grande do Sul. "Você conhece o pedreiro Waldemar? Não conhece, pois eu vou lhe apresentar. De madrugada apanha o trem da circular, faz tanta casa e não tem casa pra morar". O jornal deveria lutar para que os protagonistas das escolas de samba voltassem a ser o povo e não os turistas. Deste modo o protagonista do jornal voltaria a ser a notícia e o seu maior compromisso, o leitor. Hoje, realmente, mais do que ter bananas, nós somos bananas. Temo que se amanhã os marines invadirem o Brasil as moças e rapazes da classe média vão pedir autógrafos. Ziraldo colocou vários cronistas jovens (alguns até bons), mas que só sabem dizer "eu". Creio que, a não ser em casos excepcionais, um jornalista só deveria dizer "eu" depois de dez anos de redação. A direção decidiu diminuir o número de páginas porque os colunistas viviam se chocando e atrapalhando grandes talentos como o Aldir Blanc, o Nani, o Reinaldo Jardim e alguns outros.

Marcelo Salles - Você também fala muito de você.
Aprendi isso com a literatura. Uso-me como matéria prima para que o público melhor possa julgar. Antes disso, porém, eu vivi. O diabo não é esperto porque é velho. É velho porque é esperto. Tenho 65 anos, oito casamentos, filhos, netos, vinte livros, três guerras. As dores e alegrias são muitas. Porque usar as experiências alheias se as minhas senti na alma e no corpo? Com raras exceções, os jovens colunistas em vez de desmascarem uma realidade mentirosa de superfície deixam-se envolver por seus modismos, pois não conhecem outra realidade. A exceção fica por conta dos cartunistas como o Alan Sieber, que é jovem, mas já tem mais de trinta anos. Seus livros de quadrinhos fazem de uma realidade aparentemente banal (para quem não é ferido por ela) verdadeiras tragédias. Você ri chorando. As grandes exceções, naturalmente, são Jaguar, Millôr, Ziraldo (apesar de tudo), Angeli, Glauco, os irmãos Caruso, que já nasceram geniais.

Marcelo Salles - O que você tem contra modismos?
Há bons modismos que ficam. Mulher e futebol, embora estejam querendo acabar com esses dois modismos. Basta ver o grande numero de filmes sustentando o homossexualismo como o ideal. Já o futebol ficou difícil quando já se sabe o resultado de antemão. Mas, falando sério: não gosto de modismos porque eles são mentirosos e tentam fazer do ser humano - a máquina mais sofisticada do universo - um bufão, um palhaço, um boi sem vontade própria. Eu vejo o jornalismo com a visão de quem está no meio-fio da calçada, como a empregada doméstica. Sou um intelectual e por isso mesmo simplifico. Se amanhã escrever um artigo sobre Joyce ou Kafka, vou fazê-lo de modo a ser entendido por qualquer pessoa inteligente. Para isso é preciso harmonizar a linguagem jornalística com a literária. Morro de rir quando vejo um cronista começar o texto dizendo: "Acabo de voltar do Japão onde recebi o prêmio". Precisamos devolver o jornalismo ao povo e para isso ele (povo) precisa ser respeitado. O bom jornalista informa ao povo o que faz o poder e não o contrário.

"Nossos jornais falam de uma realidade de 15%. Os outros são loucos, que vêem a TV Globo. Esses não têm mais salvação"

Marcelo Salles - Mas, deixando o JB de lado, eu digo os jornalões em geral, os donos hoje estão mesmo assim?
Essas coisas infelizmente não vão ser resolvidas porque há uma geração que hoje tem 40, 50 anos e que não consegue ver nada além do dinheiro. Alguém precisa lhes dizer que não são imortais. São os executivos neoliberais ideologicamente mortos. Eles nem partem do princípio de que se pode fazer um grande jornal dizendo a verdade. A manchete do Globo de ontem foi "Hamas toma o poder na Palestina" e não, como seria correto, "Hamas vence eleições na Palestina". Quando o legislativo, o executivo, o judiciário e a imprensa são sócios, você tem uma ditadura, e é isso que nós temos com raras exceções.

Marcelo Salles - Você costuma dizer que em 64 a imprensa ficou sócia do poder com o golpe.
O golpe cristalizou essa sociedade, mas ela já vinha desde 54 quando Getúlio foi assassinado. Revigorou-se com a Aliança Para o Progresso, de Kennedy, e com o contrato Time-Life, que permitia que uma companhia jornalística estrangeira ditasse a linha editorial de um canal de TV. O resto foi repetição. Já poderíamos ter imprensa independente se Ziraldo, apesar dos meus protestos, não houvesse feito a melhor revista do Brasil e a chamasse de Bundas. Poderia ter acontecido com Pasquim 21 se Ziraldo, que se acha um homem de negócios, garantisse contratos de propaganda de pelo menos um ano com o governo Lula, uma vez que fizemos a campanha do PT. O único órgão de imprensa que fechou foi Pasquim 21, o que mais brigou pelo PT.

Marcelo Salles - O que você me diz daquela história de o PT estar fazendo esse governo agora para arrecadar recursos e depois efetivamente fazer um governo de esquerda...
Ah, isso é bom, isso é um negócio muito interessante: primeiro eu vou arranjar dinheiro, primeiro minha mulher vai ficar rica, meu filho vai ser prefeito... Isso é uma coisa nojenta! Esse pessoal, deputados, senadores, são todos office-boys das grandes transnacionais. Eu hoje tenho absoluto nojo e desprezo pela quase totalidade dos políticos.

"O PT surgiu para acabar com o Partido Comunista"

Mariana Vidal - Você acha que hoje nós temos uma esquerda no país? Uma oposição de esquerda?
Eu falei com o pessoal do Partido Comunista do Brasil e eles me convidaram para ser candidato a Presidente da República, eu acho até que seria engraçado. Não, eu acho que hoje não temos mais esquerda. Acho que a grande armação brasileira foi o PT. Brizola tinha razão, trata-se da UDN de tamancos. Ainda assim votei no Lula por falta de opção. Logo que ele começou a fazer bobagens escrevi um artigo: "Se estiver sendo pressionado, vá à televisão e diga ao povo o que está acontecendo". Desisti no Fome Zero, aquela demagogia idiota de levar ministro ao Nordeste e dizer: "Ministro, olha, essa é a fome. Fome, esse é o ministro fulano de tal. Agora que vocês se conhecem nos veremos nas próximas eleições".

Mariana Vidal - Votaria de novo?
Não. Hoje tenho certeza de que o PT surgiu para acabar com o Partido Comunista, com os comunistas no Brasil. Aproveitou-se de que a burguesia esclarecida não podia mais acreditar na Arena. Por outro lado, tinham medo do comunismo e de Brizola. Ela tem muito medo do Brizola. Porque ele não só propunha como fazia; ele fez os Cieps, e seu erro foi dizer que tinha feito 500 quando fez 200, ainda que 30 já seriam uma maravilha! O Brizola nacionalizou a Bond & Share e tinha a educação e a cultura como metas. Lia pouco, tinha o dedo podre, não sabia muito sobre marxismo, mas era um homem profundamente digno e honesto. Isso a direita, que quer o povo alienado, não podia aceitar. Os burgueses optaram pelo PT, que não era de direita aparentemente, mas também não era de esquerda. O que eu não sabia é que depois de Collor e de FHC o candidato do Consenso de Washington era Lula e não Serra, talvez por este ser um desastre ambulante. Comecei a pensar o seguinte: Quem são os fundadores do PT? Logo vi que era a burguesia intelectualizada que não quer ser comunista, ao mesmo tempo não quer se comprometer muito com a esquerda, mas não é de direita. E assim acaba com o comunismo sério. E não estou falando do PPS, que não ousa dizer seu nome, nem do PCdoB, que tem o presidente da Câmara. Pensei: "Esse pessoal vem do Chile, vem de Paris, tudo filhinho de papai, tudo montado numa bela grana, querendo fazer um partido de esquerda light. Mas para fazer um partido assim precisavam de um ícone, de uma marca registrada, de uma coisa como a Coca-Cola, eles precisavam de um operário. Quem é o que aparece mais, o que fala mais? Ah, é o fulano de tal! Então pegaram o operário como se ele fosse o novo Jesus ou o novo Lênin. Hoje você vê que o Lula é uma pessoa absolutamente despreparada para qualquer coisa, ele não sabe nada de nada, ele é um ator que foi colocado ali para decorar um papel. Agora que o largaram sozinho, ele fica dizendo besteiras: "Garanto a você que não existe ninguém mais ético que eu".

Marcelo Salles - Em 64 a estratégia era fazer uma invasão cultural e depois manter uma ditadura durante um tempo?
A invasão cultural vem se dando desde 64, é verdade, mas foi duplicada a partir do Sarney. Agora é que nós não temos mais músicas, não temos mais escolas, não temos mais jornalismo, nós não temos nada, nós somos um rapaz mulato desdentado com 16 anos em frente a uma loja de discos cantando uma música americana que ele não sabe o que quer dizer. Esse é o retrato do Brasil.

Mariana Vidal - Você acredita na redemocratização da mídia no Brasil? Você acha que é possível reverter essa invasão cultural?
Não, enquanto não valer a pena. Pode ser que valha a pena e creio que é isso que pretende o Tanure. Da última vez que estive com ele, falou-me da criação de um Conselho de Redação que desse maior importância ao leitor. Houve um caso na África do Sul de um jornalista amigo do Stephan Bico, grande revolucionário contra o apartheid. O Bico estava solto enquanto o Mandela estava preso. Este jornalista, Donald Woods, vivia tranqüilamente achando que estava num país normal, porque os filhos dele iam à escola para brancos, tinha uma empregada negra que adorava as crianças. Os empregados moravam em favelas distantes e iam trabalhar na casa dos ricos. Isso era perfeitamente normal, como é no Brasil, não é mesmo? Ele sabia, como a gente sabe que acontecem coisas inacreditáveis em Nova Iguaçu; que todos os dias morrem crianças assassinadas na Rocinha, mas quem é que está dando bola para isso? Ninguém! Até que o Bico vai ao jornal falar com ele: "Como é que é, rapaz, seu jornal está matando gente". Woods perguntou: "Como"? O Bico explicou e ele começou a ver. Seria a mesma coisa que você levar um jornalista para o Morro do Rato Molhado. A verdade é que Woods começou a ver a realidade do país dele. Os nossos jornais aqui falam de uma realidade de 15%. E os outros são loucos que vêem a TV Globo, que vêem novela, esses coitados são loucos, eles não têm mais solução. Então esse jornalista, que depois teve que fugir da África do Sul para a Inglaterra, começou a falar dos direitos dos negros, a tratar os negros como seres humanos, coisa que não acontecia. Daí os anunciantes retiraram toda a publicidade, mas os negros, que eram maioria, começaram a comprar o jornal, que passou a ter uma tiragem extraordinária, o que fez os capitalistas anunciarem novamente, porque comércio é comércio, porque quem consumia eram os pobres. Tornou-se o jornal mais popular da África do Sul. E o mais vendido. É esse o tipo de jornalismo que eu quero fazer, onde o jornal seja o advogado de quem não tem advogado. O advogado barato que você compra na banca. Agora, isso não está acontecendo no JB, mas tenho esperanças que virá a acontecer. Continua acontecendo... Eu ficarei muito chateado se me despedirem do JB, porque apesar de alguns percalços e angústias tem sido uma experiência muito boa. Eu detesto esse adjetivo adorado por entrevistadoras de TV: gratificante; mas é o que melhor define o que sinto. Eu nunca deixei de dizer que eu era comunista, a primeira coisa que eu fiz no JB foi informar. No meu primeiro artigo escrevi: "O que é que um jornal tem que dizer? A verdade! A verdade precisa sempre estar sob a luz dos refletores".

> Continua...


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