
12.03.2007
PROFESSOR OU MERCADORIA?
Thais Fernandes/fazendomedia.com

Regina Zilberman: Professora universitária, graduada em Letras pela UFRGS, Doutora pela Universitat Heidelberg, na Alemanha, e Pós-Doutorada pela Brown University, nos Estados Unidos. É autora de mais de vinte livros, entre os quais destacam-se A formação da leitura no Brasil, O preço da leitura e A leitura rarefeita - todos em co-autoria com Marisa Lajolo. É responsável por uma das produções mais significativas na área da leitura e da literatura brasileira. Lecionando na PUC-RS desde 1977, foi surpreendentemente demitida em janeiro deste ano. Sua demissão, como também de outros colegas, provocou manifestações e protestos de diferentes partes do país.
Entrevista concedida a Thais Fernandes para o fazendomedia.com.
Diferentemente da Espanha, que instalou universidades em suas colônias americanas já no século XVI, Portugal proibiu que tais instituições fossem criadas no Brasil. A primeira delas, com status de universidade, foi a Universidade do Rio de Janeiro, criada em 1920. De acordo com o MEC, existem hoje mais de mil universidades no Brasil. Como avalia a evolução, a qualidade e o acesso às nossas instituições de ensino superior?
O projeto de uma universidade brasileira começou no século XIX, durante o Império ainda, mas foi um projeto que não se concretizou. A nossa elite se formava na época em escolas tipo o Pedro II, ou ia para o exterior. Existiam algumas instituições públicas, como a Escola de Direito de São Paulo, ou em Recife, ou então a Escola de Medicina, na Bahia, que formavam alguns poucos profissionais liberais. Era realmente muito elitizado. Essa situação se manteve até mais ou menos 1920. Essa é uma data oficial, mas não realmente representativa. Isso começa a se modificar em 1934 com a criação da Universidade de São Paulo. A primeira instituição de ensino superior pensada para a formação de quadros profissionais com a concepção de universidade - que universidade e universalidade são temas muito próximos e não é por acaso - data de 1934 com a criação da USP.
De 1934 até 1960, a universidade brasileira cresceu principalmente através do ensino público, quando apareceram as universidades públicas nas diferentes capitais. Depois com o Golpe Militar de 1964, e o chamado "Acordo MEC - USAID", uma parceria entre o Ministério da Educação e a United States Agency for International Development - USAID, que era um órgão norte-americano que financiaria o ensino brasileiro se ele aceitasse a ingerência norte-americana na educação. Isso determinou uma série de conseqüências, de que somos ainda resultado. Primeiro, a reforma universitária, que representou uma reorganização do sistema de ensino, com a criação do campus universitário, o afastamento das universidades de um centro mais político da cidade, uma nova divisão de departamentos e o surgimento de novas áreas. Isso foi uma das conseqüências, a outra foi a expansão do ensino particular.
O ensino privado vem na esteira de um outro processo, que é a necessidade de atender a demanda do crescimento da classe média brasileira. Então aumenta a população escolarizada nas décadas de 60 e 70, e essa população está esperando lugar na universidade. O sistema público não estava interessado em atender essa demanda. Não é que lhe faltasse condições. Nos anos 60 e 70 o Brasil não era essa miséria que nós vivemos hoje, era um país em crescimento, em processo de industrialização. Mas não era interesse dos governos militares oferecer essas vagas para a classe média emergente. Então vai ter a primeira esticada no ensino privado, o primeiro surto, e vão aparecer, sobretudo, cursos noturnos, cursos em bairros periféricos, fora as grandes capitais.
Depois vamos ter um segundo momento de pouca expansão do ensino público, mas de grande expansão do ensino privado, que é na década de 90 com o governo Fernando Henrique Cardoso. Ali realmente há uma reorganização do ensino universitário, com a criação das universidades e dos centros universitários. Esses centros universitários são uma forma de ao mesmo tempo satisfazer certos grupos de faculdades pequenas, sem transformá-las em Universidades. Por exemplo, hoje nós temos no Rio Grande do Sul uma UniLasalle, UniRitter, essas várias "Unis" que na verdade são centros universitários. Estes centros não têm o compromisso que as universidades tem de desenvolver uma pós-graduação, de fazer pesquisa e etc. Então o ensino se populariza por um lado, atende aos grupos emergentes. E deve se expandir ainda mais porque eu acho que a população continua crescendo e nós vamos ter uma facilitação do segundo grau. Vai haver uma demanda crescente por vagas sem que o Estado precise investir em universidades públicas e as grandes universidades particulares podem se poupar de ter que atender essa demanda que está crescendo aí. Tu falastes em mais de mil? Eu acho que as universidades públicas não devem chegar nem a duzentas, não chega a um quinto desse total. É uma completa inversão do que tu vais encontrar em países europeus, por exemplo. Ao mesmo tempo, dentro das particulares tu tens diferentes opções, diferentes configurações dependendo do tipo de clientela que ela tem em vista.
A pesquisadora Helena Sampaio, em seu livro O ensino superior no Brasil: o setor privado defende que o ensino superior público e o privado cumprem papéis muito diferentes. O público, por ter como objetivo a pesquisa e a institucionalização da carreira docente, aumentou progressivamente seu custo de manutenção e limitou a expansão da área. O setor privado, por outro lado, cresceu vertiginosamente justamente para absorver a demanda de massa pelo ensino superior. Ainda assim, a pesquisadora aponta que por ser mais dinâmico no atendimento à clientela, o setor privado cresce rápido demais, o que influi na qualidade do serviço oferecido. Ela também ressalta que há uma diversidade de vocações institucionais, expressas em formas distintas de desenvolver as atividades de ensino, pesquisa, extensão e formação profissional. A universidade privada deve trabalhar apenas em função do mercado, enquanto a pública prioriza a pesquisa e a inovação?
Eu acho que esse é um dos grandes equívocos da universidade privada. Tu tens ai pelo menos três grandes nichos dentro do sistema de ensino superior brasileiro.
Primeiro o das públicas, das grandes universidades, que se desenham como universidades de pesquisa. E curiosamente é a universidade pública que assumiu esse encargo da pesquisa, tornando-se ainda mais cara. Então ela é pública, mas continua sendo de elite. E é ai que eu acho que a gente poderia resolver de outra maneira se houvesse vontade política do MEC. A universidade pública teria que ser de elite pelo tipo de aluno, de clientela que freqüenta. Os melhores, e não os mais ricos. São os mais ricos porque podem ter um primeiro e segundo graus de alta qualidade para entrar na universidade pública. Deveria ser da elite intelectual e acaba sendo da elite econômica.
Nas universidades particulares tu tens aquelas que realmente querem ou queriam ser universidades de pesquisa - e que o MEC dos anos 90 em diante procurou favorecer. Quer dizer, elegeu universidades particulares - a PUC do Rio de Janeiro é um bom exemplo disso - que supririam essa necessidade de existirem mais universidades de pesquisa do que as públicas. Então elas acabam sendo subvencionadas na pós-graduação. Nessas grandes universidades a pós-graduação acaba sendo pública, porque os alunos têm bolsas, têm tudo remunerado e podem até escolher não trabalhar.
E essa demanda que busca o diploma de curso superior, mas que precisa trabalhar e etc, se dirigiria para os centros universitários. A distorção começou quando as universidades que deveriam ser de pesquisa começaram a sentir a competição com os centros universitários e acabaram tendo que se dobrar às exigências que supostamente se atribui ao mercado. Então começaram a aparecer cursos absurdos, que são apenas para desenhar um espaço diferente, que talvez interesse a algum aluno e ele passe a procurar aquilo. Passam a investir muito na área de administração, empreendedorismo, marketing, enfim, essas disciplinas da moda, e deixam de investir na área de humanas, porque não dá muito dinheiro e a clientela já é mais pobre. E assim ela se enfraquece. Essa organização triangular que o Ministério pensou, vai se distorcendo por causa da necessidade de suprir essa demanda sem que haja investimento público.
E deveria se configurar dessa forma ou a existência desses papéis distintos é inevitável no processo de desenvolvimento de ambas as instituições? Seria preciso conjugar as duas vocações?
Eu acho que a universidade não precisa responder para o mercado. Esse é o principal equívoco. Porque essa noção de mercado é uma noção que pode ser válida para o âmbito da economia, mas eu não acho que seja a adequada para o campo da educação. Um país como o Brasil, que quer ser desenvolvido, ter um lugar no Conselho de Segurança da ONU, falar de igual para igual com o hemisfério norte, tem que investir pesadamente em educação. Não tem outro jeito. Portanto o Brasil não pode deixar que a educação seja guiada, ou manipulada, monitorada por possíveis interesses do mercado, que é na realidade uma coisa muito abstrata. Se tu perguntares "quem é esse mercado?", as pessoas não vão saber responder.
Que implicações isso pode ter para a formação na área de Comunicação?
Se pensa no mercado, mas é um mercado da cabeça do curso, e não um mercado real. A imprensa escrita está sofrendo a concorrência da internet. As pessoas não lêem mais jornal como antigamente. Então começa a aparecer um jornal de graça, por exemplo. Eu estive em Londres agora e se eu comprar um Evening Standard, ou pegar na entrada do metrô um daqueles jornais gratuitos, é o mesmo jornal. Só não desarticula aquele jornal pago porque tem uma certa tradição, uma certa mística. Então o jornal hoje está partindo para outros tipos de operação, que não é a grande imprensa.
Qual deve ser o papel da universidade?
Na realidade, ao invés de esperar que a universidade te formasse como técnico, porque para te formar como técnico tu terias que fazer um curso técnico, ela teria que te formar como uma pessoa crítica, consciente, um intelectual se tu estás no âmbito das ciências humanas. E mesmo em qualquer área. Se tu fizesses medicina, tu terias que ter uma formação maior e principalmente aprender a pensar. E aprender a pensar é numa universidade de pesquisa. A universidade não tem assumido esse papel. Nem sei se de todas as públicas se pode dizer isso. Que dirá naquelas em que o aluno nem é considerado mais um aluno, mas sim um cliente.
Eu acho isso um grande equívoco. A gente conhece o que se faz nos Estados Unidos e Europa, e não é preciso nem sair do espectro da sociedade capitalista onde o Brasil se insere. Não posso pensar em Cuba ou em outros países de orientação socialista que fazem diferente. Estaria em outro patamar econômico e ideológico. Agora se eu pegar a universidade norte-americana, que é mais ou menos a fonte de inspiração da nossa, não é assim que a coisa funciona. Aqui é o imediatismo, o lucro, e assim por diante.
Nesse sentido, como avalia o vestibular?
Pois é, o vestibular era originalmente uma forma de seleção, de garantia daquele tipo de universidade da elite intelectual. Hoje ele é também um grande comércio. É curioso, porque ele deveria ser um filtro, para que as melhores universidades tivessem os melhores alunos, mas na realidade ela tem aqueles que foram preparados para melhor responder as perguntas do vestibular. Não avalia coisa nenhuma. Eu acredito que uma pessoa muita bem informada, culta, não passa no vestibular se não fizer um cursinho. Então se cria essa indústria paralela do cursinho.
Há alguns anos atrás nós falávamos que os cursinhos estavam massificando e hoje estão de novo se elitizando. Ele passou por uma fase de abertura de vagas - todo mundo fazia cursinho - e hoje eles estão se refinando. Isso me parece ser a versão caricata do nosso ensino. O cursinho agudiza a percepção que nós podemos ter do tipo de educação oferecido para a juventude. Na realidade é uma indústria, mostra o lado industrial e comercial da educação.
Para utilizar sistemas educacionais como o americano, por exemplo, que usa como critério as notas do aluno durante sua vida escolar, dependemos primeiramente de melhorias do nosso ensino médio. Como deveria ocorrer o ingresso nas universidades?
Eu acho que realmente o segundo grau é o primo pobre da educação. A escola fundamental tem problemas, mas ainda há muita discussão, amplas discussões sobre a qualidade do ensino, os parâmetros curriculares, formação de leitor, quer dizer, toda uma discussão que pode ser efetiva ou não. Mas com o ensino médio ninguém se preocupa. Talvez ele merecesse um investimento específico, até porque segundo as estatísticas tem aumentado o número de jovens que chega ao ensino médio. Antes o ensino fundamental fazia aquela filtragem e não tinha muita gente que chegasse ao segundo grau. Hoje eu acho que já tem mais gente no segundo grau do que vagas, de novo. O que significa que ele merece uma atenção particular.
O segundo grau brasileiro foi pensado não para ser um curso intermediário. Acabou ganhando esse nome, "ensino médio", que em si já é comprometedor. Deveria ser um período terminal da educação, que aparamentasse as pessoas para irem para o trabalho. Uma boa formação, boa escrita, boa leitura, um painel de conhecimentos que permitisse que a pessoa fosse escolher sua profissão. Não é isso que acontece. O foco no vestibular é tão grande que afunila o tipo de formação e a pessoa sai do segundo grau despreparada para o mundo do trabalho. É um processo de banalização pelo qual passa o ensino brasileiro desde 1970. É um processo de mais de 30 anos, quer dizer, já vai para duas ou três gerações comprometidas por esse tipo de formação muito facilitadora, muito generalista.
Qual a sua avaliação sobre as políticas afirmativas de inclusão, como o Prouni e as cotas?
Em tese acho válido ambos os projetos, porque ajudarão a diminuir a exclusão. Talvez não sejam a melhor maneira de procurar uma solução para os desequilíbrios sociais e educacionais; mas são, pelo menos, uma iniciativa. E se os alunos oriundos do sistema de cotas ou do Prouni não são tão bem preparados como os que entram através do vestibular, eles terão quatro ou mais anos para irem suplementando os conhecimentos que lhes faltam.
É possível atribuir a despolitização da juventude ao modo como está estruturado o ensino?
A despolitização da juventude é um processo muito forte em todo o mundo ocidental agora. Não é uma coisa específica nossa, estamos nesse ponto repetindo o que tu vais encontrar com a juventude norte-americana e européia. A juventude politizada foi aquela que lutou contra a Guerra do Vietnã, aqui lutou contra a Ditadura e assim por diante. Hoje tem uma guerra no Iraque e não tem uma juventude brigando contra isso. Talvez porque a guerra tenha se tornado uma guerra de máquinas...
Midiatizada?
Exatamente. E as pessoas não vão tanto para o corpo-a-corpo. Não se vê nada delas, dos efeitos. E isso ajuda a despolitizar. Acho que a despolitização é encontrada também no cinema, na música popular. Com o processo da globalização e também uma absorção da juventude pelos meios de comunicação de massa, isso se torna mais amplo. Se a escola pudesse quebrar isso... mas na realidade ela acaba repetindo a dose. Ela já foi um lugar de contestação. Hoje, não vejo assim. A universidade também, a gente não tem visto isso. Talvez daqui a alguns anos aconteça de novo, se a gente acredita que a dialética realmente mova as ações sociais.
O que é preciso fazer para que as universidades passem a formar cidadãos?
Isso tem que ser um projeto da universidade. Realmente essa pergunta é difícil de responder, porque tu não podes esperar que seja assim. A universidade está tão formatada, tão formalizada, inclusive em termos administrativos, que será necessário uma demanda de alunos mesmo, e de professores como grupo social, ou realmente a universidade vai ser um lugar de passagem. Hoje ela é um lugar de passagem. O corpo docente se profissionalizou, estudou, se doutorou, mas se estabeleceu também uma competição interna por titulação, quer dizer, tem que ter mestrado, doutorado, tem que publicar artigos e etc. Toda a avaliação do ensino superior depende disso. O número de publicações que tu tens, o número de eventos de que tu participastes, as letrinhas que tu pões na frente do teu nome... E o professor acaba não tendo tempo de pensar na sua ação pedagógica, na sua aula. Quer dizer, se tu és um bom ou mau professor é secundário. Não precisa agradar aos alunos, tem é que escrever, publicar e ter o título. Esse modelo realmente pegou e talvez fique vigorando por muito tempo.
O MEC está muito subordinado a números. Do ponto de vista do funcionamento das instituições brasileiras, Fernando Collor, Fernando Henrique e Lula não têm grande diferença. Não se percebe grandes alterações em termos de diálogo do Estado brasileiro com os organismos internacionais de financiamento. No caso da educação brasileira há uma influência muito grande do Banco Mundial, faz parte do pagamento da dívida no exterior apresentar números na educação brasileira. Para o Brasil ser um país atraente para investidor estrangeiro, é preciso ter uma formação, um certo número de pessoas com título superior, com título de pós-graduação, matriculadas na universidade, quer dizer, é preciso apresentar resultados quantitativos para se tornar atraente. Essa necessidade de apresentar quantidades para os organismos internacionais faz com que tudo fique muito acelerado, muito competitivo e a avaliação da educação que se faz no Brasil hoje é uma avaliação em termos de números. Inclusive aquela coisa do bom professor. O cara que é bom professor e não se preocupou em fazer mestrado e doutorado, não tem lugar na universidade. É um absurdo isso! Eu acho que uma universidade para ser de pesquisa tem que estimular, abrir espaço realmente para a pessoa fazer doutorado, levar adiante as suas pesquisas. Mas também não pode deixar de lado o valor de um cara que dá uma boa aula e que faz os alunos estudarem.
E como foi a sua demissão da PUC-RS? É reflexo disso?
A alegação das universidades para as demissões é de ordem econômica. Eu acho que há casos e casos. Há casos em que o profissional se tornou caro, então tu podes colocar uma peça de reposição mais barata. E pode fazê-lo às vezes por razões pessoais. Mas não é essa a questão principal. A questão principal é justamente quando a universidade acredita que ela tem um certo capital, que é representado por esses professores bem qualificados, capazes de atrair investimentos e que talvez tenham sido até bons professores, e pensa que pode dispensar isso em nome de outros valores que são puramente econômicos. Quer dizer, mesmo que seja apenas para fazer economia, está na realidade fazendo uma opção de trocar aquilo que armazenou em termos de capital através do que o professor representa para a avaliação. Então se faz, me parece, uma equação errada. A universidade troca aquilo que já acumulou por algo que talvez ela vá economizar. Trocar aquilo que já conseguiu, vai representar para ela, inclusive, vantagens econômicas, em nome de gastar menos. A PUC-RS alega exatamente isso, a questão financeira, e está demitindo vários professores titulados do seu quadro.
O professor Universitário, no âmbito do setor privado, está desvalorizado?
Sim, desvalorizado não apenas porque ele pode ser adquirido por um preço mais barato, mas desvalorizado, sobretudo porque no campo das ciências humanas acaba sendo desprestigiado e não se percebe o que ele pode representar em termos de investimento para a própria instituição. Certamente um professor com a qualificação desses que foram demitidos, se ele estivesse atuando na área da medicina não teria sido demitido. Nós que fomos demitidos não somos das áreas consideradas básicas e que atraem alunos das elites.
Sabe-se que nas universidades privadas a grande maioria dos professores trabalha no regime de horista, ou seja, recebe apenas pelas horas/aulas trabalhadas e nada mais. Para assegurar o desenvolvimento de pesquisas e a produção de conhecimento seria necessário que os professores fossem regidos por contratos de 40 horas/semanais com dedicação exclusiva, tendo de 8 a 12 horas em sala de aula e o restante para pesquisar, como ocorre nas públicas. As universidades particulares caminham na direção de criar estas condições?
Se pudessem trabalhariam com "tarefeiros". Quer dizer, aquele professor que dá seis meses de aula e depois é dispensado. Como a legislação proíbe, então é o horista. E sobre a questão da pesquisa, eu acho que esse é o passo em falso e as universidades acham que isso é reversível. Eu imagino que o pensamento seja esse: "Eu tenho aqui um grupo de professores em tempo integral, que tem bolsa do CNPq, recebem bolsistas, investimentos e etc, mas eu posso dispensar eles porque eu compro um produto mais barato, pode ser até bem bom, mas é mais barato, e com o tempo esse chega ao estado daquele". Então primeiro ele é horista, depois se mostrar serviço passa para tempo integral - e enquanto o pau sobe e desce eles vão fazendo economia. Acontece que fica um intervalo entre a demissão de um grupo até esse outro chegar nesse patamar. E há uma perda em termos de qualificação docente, de prestígio. A PUC-RS hoje se diz a melhor universidade privada da região Sul, mas isso não foi conquistado na semana passada, é fruto de um trabalho de muito tempo em cima desse capital que agora estão dispensando. Se dispensam esse capital, vão acabar perdendo essas estrelinhas todas.
Helena Sampaio fez esse levantamento na sua pesquisa, afirmando que apesar do crescimento acelerado do setor privado, a tendência é a queda da qualidade do serviço oferecido...
É ai que eu me questiono muito. A universidade às vezes acredita que se ela tiver um prédio bonito, de 50, 20 andares, com ar condicionado e etc, vai ser uma boa universidade. Era preferível que tivesse instalações mais precárias e um corpo docente mais qualificado. Essa avaliação de que só a fachada, só a forma física, vai ser suficiente para atrair o cliente é um pouco equivocada.
As verbas de fomento à pesquisa têm diminuindo nos últimos anos?
Sobretudo nesse ponto eu acho que houve altos e baixos. No início dos anos 90 houve um aumento de verbas. No segundo governo Fernando Henrique Cardoso houve uma queda. Agora no governo Lula há um investimento maior em pesquisa, um crescimento nesse tipo de investimento. Talvez haja também uma distribuição mais restrita, quer dizer, mecanismos de seleção mais refinados para evitar a dispersão dos recursos. Então talvez os recursos possam ser os mesmos, ou menos, mas há uma canalização. Está mais focado.
Como avalia o CNPq, CAPES e outras agências de fomento nesse processo?
O CNPq e a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) tiveram um crescimento maior nesses últimos anos. São agências de fomento que realmente ganharam crescimento significativo nesse período do Lula. A CAPES não, vem crescendo desde os anos 90 e tem uma ação muito importante, porque faz a avaliação da pós-graduação, que eu acho que foi até mais rigorosa nos anos 90 do que agora. Isso no sentido de não vulgarizar a pós-graduação. A pós é o espaço da pesquisa propriamente dito, então precisa de recursos aportados pelo Estado, ou eventualmente por empresas interessadas em investir em pesquisa. Mas precisa de um rigor muito grande na avaliação para não acontecer o que já aconteceu com a graduação. Essa banalização de que a gente falava. A CAPES desempenhou esse papel e acho que continua desempenhando, mas tem havido uma facilitação para os mestrados. Os mestrados estão cada vez mais acessíveis e é ai que mora o perigo, vem sendo um espaço de recomposição financeira de muitas faculdades privadas. Torna-se um lugar que começa a ser uma possibilidade de ganhar dinheiro.
O título também começa a se banalizar dessa forma...
Eu acho que a universidade brasileira tem que ser o lugar da reflexão sobre sua sociedade. Mas para fazer isso, a universidade tem que ter autonomia. As públicas ainda têm esse tipo de autonomia porque elas são autárquicas e ninguém pode interferir. Às vezes o Estado tenta restringir essa autonomia cortando verbas, mas é uma luta entre o mar e o rochedo, quer dizer, quem é que ganha a parada? Ou a universidade briga, reivindica e consegue, ou então ela se submete e acaba restringindo a sua capacidade de reflexão. Mas essa é a função da universidade: formar recursos humanos no sentido de formar cidadãos. Ela pode se preocupar com a diplomação das pessoas, formar profissionais para atuar nessa sociedade. Porém, o mais importante é que esses profissionais sejam pessoas que reflitam sobre o lugar, o trabalho que eles exercem. Senão é curso técnico. Aí sim formaríamos bons enfermeiros, bons programadores de computador - bons mesmo, não é menor isso, ser um bom enfermeiro ou técnico de qualquer área que seja. Para isso serve um curso técnico, e pode ser um curso técnico de nível superior, mas isso não é universidade. Tanto as particulares quanto as públicas tem que se preocupar com isso.
A universidade tem mais de 600 anos, vem lá do século XIV. Ela está ai, sobreviveu, teve seus altos e baixos, mas sempre foi para a frente. Não são crises específicas que devem levar a mudar essa sua função primordial. Às vezes tem uma crise financeira, um problema aqui ou ali, áreas que não são suficientemente rentáveis... Mas é nesse sentido que ela precisa se organizar e não perder de vista seu foco principal. Caso contrário, não precisamos das universidades, precisamos apenas das escolas técnicas para nos dar bons médicos, bons engenheiros... Mas não serão um lugar de discussão, reflexão e pensamento.
Qual a sua sugestão para que as instituições caminhem num passo comum? O que deveríamos esperar da universidade brasileira?
Eu acho que a universidade brasileira tem que ser o lugar da reflexão da sua sociedade. Mas para fazer isso, a universidade tem que ter autonomia. As públicas ainda têm esse tipo de autonomia porque elas são autárquicas, e ninguém pode interferir. Às vezes o Estado tenta restringir essa autonomia cortando verbas, mas é uma luta entre o mar e o rochedo, quer dizer, quem é que ganha a parada? Ou a universidade briga, reivindica e consegue, ou então ela se submete e acaba restringindo a sua capacidade de reflexão. Mas essa é a função da universidade, ela forma recursos humanos no sentido de formar pessoas cidadãs para essa sociedade. Ela pode se preocupar com a diplomação das pessoas, formar profissionais para atuar nessa sociedade, mas mais importante é que esses profissionais sejam pessoas que reflitam sobre o lugar, o trabalho que eles exercem. Senão é curso técnico, então nós teríamos que ter as escolas técnicas. Aí sim formar bons enfermeiros, bom programador de computadores, bons mesmo, não é menor isso, ser um bom enfermeiro ou técnico de qualquer área que seja. Para isso serve um curso técnico, e pode ser um curso técnico de nível superior, mas isso não é universidade. Tanto as particulares quanto as públicas tem que se preocupar com isso, e se elas se preocupassem com isso certamente mesmo as particulares teriam fontes de financiamento. A longo prazo, mas teriam.
A universidade tem mais 600 anos, ela vem lá do século XIV. Ela está ai, sobreviveu, teve seus altos e baixos, mas sempre foi para a frente. Não são crises específicas, que devem levar a mudar essa sua função primordial. Ás vezes tem uma crise financeira, um problema aqui ou ali, áreas que não são suficientemente rentáveis, mas é nesse sentido que ela tem que se organizar e não perder de vista seu foco principal. Senão não precisamos das universidades, precisamos apenas das escolas técnicas para nos dar bons médicos, bons engenheiros, mas não vão ser um lugar de discussão, de reflexão e de pensamento.