......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 




08.11.2006
"GOVERNOS DE COLABORAÇÃO DE CLASSES SÃO A ANTE-SALA DO FASCISMO"

O jornalista, escritor e professor da PUC-SP José Arbex Jr. não acredita em governos que promovam a colaboração de classe, situação que descreve como "a ante-sala do fascismo". Para Arbex, ainda há muita ilusão dos movimentos sociais com relação à capacidade e à vontade do governo Lula. Nesta entrevista, o editor especial da revista Caros Amigos fala de sua saída do Conselho Editorial do jornal Brasil de Fato, sobre a recente disputa eleitoral e sobre o cenário político e social brasileiro daqui pra frente.

O povo venceu a mídia nessas eleições presidenciais?
Sim, se você focar a análise no último ano - a partir da eclosão do chamado "escândalo do mensalão" - e mais particularmente no curto período propriamente eleitoral, quando houve um evidente esforço, por parte dos donos da mídia, no sentido de eleger Geraldo Alckmin. A mídia corporativa não conseguiu dourar a pílula do "chuchu". Mas a resposta é negativa, se você considerar que a mídia é a grande propagadora do discurso neoliberal, e quem venceu, no fim das contas, foi um candidato neoliberal, ainda que com um discurso supostamente endereçado aos mais pobres. A resposta, portanto, não é simples. Não se resolve com um simples "sim" ou "não". Os interesses em jogo são muito mais complexos do que pode sugerir um esquema primário de oposição.

Qual a sua perspectiva do ponto de vista das lutas sociais para o próximo mandato de Lula?
A formulação da pergunta é ambígua. As lutas sociais, se entendidas no seu aspecto objetivo, como eclosões provocadas por contradições sociais, econômicas e culturais, serão inevitáveis, já que o sofrimento de setores inteiros da população atinge hoje níveis alarmantes. Basta mencionar a situação dos "sem" (terra, trabalho, moradia, etc.). As lutas poderão ser adiadas um pouco, já que há muita ilusão, ainda, na capacidade e vontade do governo Lula em resolver questões sociais urgentes, mas elas acontecerão. Agora, se a pergunta remete não à questão social em si, mas sim às direções dos movimentos sociais, aí a questão fica mais complicada, pois o que não falta é direção de movimento social louquinha para fechar um acordo com o governo Lula, no sentido de negociar o "bom comportamento" em troca de migalhas. Muitos dirigentes de movimentos sociais funcionam hoje como freio, como breques às lutas populares. Para falar mais claramente: o governo Lula promoveu o neo-peleguismo.

O programa do governo Lula para as comunicações evidencia a necessidade de se democratizar a mídia, inclusive propondo o recadastramento de todos os concessionários de radiodifusão e cancelando as concessões que estiverem em desacordo com a legislação. Além disso, o programa fala em incentivar a mídia alternativa e comunitária. Você acha que este governo terá força e vontade suficientes para cumprir essa proposta?
Uma coisa é uma declaração genérica de que serão canceladas as concessões que estiverem em desacordo com a legislação. Até aí, isso faz parte da Constituição brasileira. Não há nada de mais. Qualquer governante, se não for um completo débil mental, defende, no discurso, a democratização dos meios de comunicação. Mas se se verificar a prática recente do governo Lula, que multiplicou a doação de novas concessões a coronéis regionais, reescalonou dívidas antigas de corporações e, em contrapartida, continua fechando e prendendo rádios comunitárias - como aconteceu, recentemente, com a rádio Heliópolis, que tinha um papel social extremamente relevante na sua área de atuação - então só posso concluir que o governo não terá força, vontade nem mesmo a intenção de levar a sério o seu próprio blá-blá-blá.

Durante os debates presidenciais, temas importantes ficaram de fora (leilões do petróleo, auditoria da dívida pública, lei da remessa de lucro, transgênicos, entre outros). Você acha que houve algum tipo de acordo para não se falar nesses assuntos? Ou simplesmente não interessava a nenhum dos candidatos?
Não se trata de um acordo de bastidores. Trata-se de uma agenda política. Ambos os candidatos foram pautados pela agenda neoliberal, a agenda proposta e defendida pela mídia corporativa e pelos jornalistas, de resto muito bem pagos, que aceitam o Consenso de Washington como um ponto de partida (e de chegada).

Desde 2002 penso que talvez fosse melhor não ter vencido a eleição até que os movimentos sociais estivessem tão fortes a ponto de garantir um governo verdadeiramente de esquerda, uma vez eleito um partido teoricamente de esquerda. Mas aí depois penso que, mal ou bem, existe diferença, ainda que pouca. O que você acha?
Esse raciocínio não serve. Concordo com Marx: fazemos a história, mas não nas condições que queremos, e sim naquelas que são objetivamente apresentadas. Não foi a fraqueza dos movimentos sociais que causou a adesão do governo Lula ao neoliberalismo, mas a adesão de Lula ao neoliberalismo ajudou a cooptar centenas - ou milhares, sei lá - de militantes e dirigentes de movimentos sociais, acentuando a fraqueza dos próprios movimentos sociais. Por outro lado, nada garante que a não eleição de Lula em 2002 desembocaria, necessariamente, no desenvolvimento e fortalecimento dos movimentos sociais, segundo uma escala linear e progressiva que prepararia o terreno para, algum dia, quando tudo estivesse "pronto", aí sim tomar o poder. Isso não existe.

Em sua carta de desligamento do Conselho Editorial do Brasil de Fato, você diz: "Não quero nem posso ver o meu nome publicamente associado a uma linha editorial que julgo absolutamente errada e nefasta para a luta dos trabalhadores e jovens brasileiros". Por que você acha que a maioria dos conselheiros escolheu este caminho? Que linha editorial você teria adotado?
Não posso responder pelos demais conselheiros. São todos meus amigos, gente extremamente combativa, honesta, séria e que merece todo o meu respeito e consideração. Acho, apenas, que eles cometeram um grave equívoco, pelas mais variadas razões. Eu teria mantido a linha editorial que estava em vigor no primeiro turno, e antes disso, nos últimos meses: linha crítica ao governo Lula, sem tomar posição por este ou aquele candidato, abrindo as páginas para o debate com todos os setores da esquerda.

No item 6 da mesma carta, percebe-se que sua maior preocupação é a "devastação causada na esquerda pelo PT, maior do que nos 8 anos de FHC". Essa devastação é de responsabilidade exclusiva do PT ou outros partidos de esquerda também contribuíram? De que forma?
Claro que há relações de cumplicidade e interesses não explícitos por todas as partes. Não sou partidário de esquemas que querem identificar o "bem" e o "mal" como se fosses categoriais absolutas localizáveis em apenas um dos lados. Mas a direção do PT, sem dúvida, tem a maior parcela de responsabilidade, por razões óbvias.

Nesse tópico você fala também que um governo de colaboração de classes é a ante-sala do fascismo. Pode explicar melhor esse ponto?
Aí é só pesquisar fatos históricos. Quem preparou o franquismo? A Frente Popular espanhola. O mesmo aconteceu com a França, cuja Frente Popular abriu a avenida para a república colaboracionista de Vichy. Os exemplos se multiplicam. É inevitável: as ilusões com o governo fazem com que os movimentos populares desçam a guarda, abandonem posições de confronto, comecem a aposta na estabilidade burguesa e nos acordos para "melhorar um pouquinho" a vida. Cria-se a percepção ilusória de que os conflitos podem ser resolvidos na mesa de negociações. Junto com isso, vem a corrupção, a cooptação dos dirigentes, o abandono de princípios. Aí estoura a crise, e a burguesia ataca as migalhas que antes haviam sido atiradas ao povão. Só que, nessa altura, todas as organizações populares, pelo menos as mais importantes, já foram desmanteladas. Foram transformadas em caricaturas. O povão fica desesperado. Surgem as lideranças de massa da burguesia para oferecer uma perspectiva fascista para o movimento de massas. É mais ou menos assim que funciona, com algumas variações importantes. Hoje, o PT e a CUT não passam de caricaturas idiotas daquilo que um dia foram. Está pavimentado o caminho para um novo desastre histórico no Brasil.

Você acha que PSDB e PFL simularam uma oposição durante o primeiro mandato de Lula? O que se pode esperar desses dois partidos no segundo mandato?
Novamente, não acho que se trata de uma simulação de bastidores. Eles representam setores distintos da burguesia brasileira e do capital financeiro internacional. Embora, em tese, jurem pela mesma cartilha, são comprometidos com práticas e setores específicos da classe que representam, e que, eventualmente, apresentam interesses e perspectivas contraditórias. Mas, naquilo que é fundamental - a defesa dos interesses de classe - jamais vacilarão. É melhor ninguém ter ilusões sobre isso. E, por incrível que pareça, ilusões há, de sobra. Basta ver o absurdo namoro entre Lula e único signatário civil do AI-5. É o fim do mundo.

Se Lula também é um candidato neoliberal, por que jornais e colunistas neoliberais o atacaram com tanta virulência durante a campanha?
Se dois candidatos defendem, em termos gerais, a mesma ideologia, isso não significa, necessariamente, que ambos sejam iguais. Não é verdade, por exemplo, que Bush e Clinton adotem as mesmas políticas e estratégias, embora ambos representem os interesses gerais do imperialismo. Lula tem uma história diferente de Alckmin, isso é óbvio. Para a burguesia brasileira, seria muito mais interessante uma derrota esmagadora de Lula nas urnas, pelo aspecto simbólico que tal derrota teria. Mas esse fato, por si só, não justifica que a esquerda estivesse condenada a apoiar a candidatura Lula, pois Lula usa precisamente essa simbologia - dada por suas origens sociais, pelo papel que ele teve para construir o PT, pela importância do PT, etc. - com o objetivo de aprovar todas as leis reacionárias e neoliberais que seu governo aprovou. Novamente, chamo a atenção para o fato de que a natureza ambivalente do governo Lula cria situações complexas, para as quais não há respostas simples, imediatas.

Já que Alckmin e Lula estão pautados pela agenda neoliberal, significa que 90% do eleitorado brasileiro votou no neoliberalismo?
Em hipótese alguma. Não há uma relação direta, transparente, imediata entre o voto e o votado. Não é verdade, por exemplo, que ao eleger Adolf Hitler a sociedade germânica tivesse escolhido, conscientemente, o extermínio de milhões de judeus, comunistas, socialistas, ciganos, etc. Em primeiro lugar, as plataformas dos candidatos nem sempre são transparentes, claras e objetivas. Em sua campanha durante o segundo turno, por exemplo, Lula falou o tempo todo na "opção pelos pobres", quando sabemos que nunca os bancos faturaram tanto quanto no seu governo. Mas se você não tem essa informação em mente, você embarca no discurso da opção pelos pobres. Em segundo lugar, o entendimento que cada eleitor tem das propostas que cada candidato apresenta é permeado por erros de interpretação, por ilusões, por interesses específicos que nada têm a ver com o conteúdo propriamente ideológico. Milhões votaram em Lula por acreditar que Alckmin acabaria com o bolsa-família; contraditoriamente, portanto, ao votar em Lula, votaram a favor da intervenção distributiva do Estado e contra o neoliberalismo, embora isso também demonstre uma profunda ilusão quanto ao significado do assistencialismo estatal. Finalmente, muitos votaram em Lula apesar de Lula, isto é, não concordam com suas propostas, sabem que seu governo foi o governo dos patrões e do neoliberalismo, sabem que o segundo governo não será diferente disso, mas ainda assim optaram pelo chamado "mal menor", diante da possibilidade de o Brasil vir a ser governado por alguém da Opus Dei. Não é possível, portanto, fazer a relação maluca que você propõe na tua questão.


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