......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 




04.01.2007
MÚSICA PARA REVOLUÇÃO

Marcelo Yuka: compositor, letrista, percussionista, poeta, artista, ativista. É o cara que disse que em todo camburão existe um pouco de navio negreiro. Que disse que ninguém regula a América. Que fez uma análise profunda da elite antinacional que vive escondida atrás de carros blindados, morre de medo da realidade que a cerca e se entope de cocaína. Marcelo Yuka é o cara que fez O Rappa ser o que ele é hoje, é o cara que lançou o F.UR.T.O, é o cara que não consegue tirar da cabeça a injustiça social que faz do Brasil o país mais desigual do mundo. Nessa entrevista, que poderia ter dez páginas caso uma editora investisse no Fazendo Media, Marcelo Yuka fala de sua música, da elite e da indústria da moda.

Entrevista concedida a Marcelo Salles para o Fazendo Media impresso número 43, publicado em agosto de 2006.

O que você mais ama na música?
Ah... (suspira). Eu acho que tem uma coisa legal, o que eu mais amo é que ela é uma exposição invisível.

Como assim?
Quando você tá tocando, você pode ver o instrumento sendo tocado, mas ele tá emitindo ondas sonoras que você não vê. E é como o som da voz. Não toca fisicamente, mas desperta tantos outros sentidos, e a distância, que eu fico pensando o quanto isso é tecnologicamente apurado. Hoje você tá falando em holografia, mas a música é uma arte que tem o mesmo poder de uma emissão holográfica, só que tem a mesma idade do homem. Porque com certeza a partir do momento em que o homem fez o som ele começou a se comunicar e a decodificar esse som, e acho que a relação da música com a semiologia é muito próxima. Você estudar a linguagem, signos, significados... Eu prefiro, muitas vezes, ouvir músicas em que eu não entendo o que o cara está falando porque a minha mente pode fazer o texto daquilo. E aí completa aquela informação.

Mais ou menos como quando você lê um livro e constrói aquela imagem.
Exatamente, da mesma maneira. E esse processo neurológico de você decodificar os signos em imagens, o mais rápido e o mais dinâmico possível, é que tá sendo dito como o novo conceito de inteligência. Daí a poesia, que talvez das artes seja a que tem menos mídia, passa a ser mais importante ainda, porque ela é mais eficaz do que a matemática pra aguçar a nossa capacidade neural. Porque você tem que decodificar imagens subjetivas. E acho que a música, como qualquer manifestação artística; mas a música, com códigos únicos, ela te toca psicologicamente e, sem ser direta, ela sugere. E quando ela sugere, quando você tenta decodificar essa sugestão, você é cúmplice do autor. E isso é a maior das comunicações. E isso beira o amor, de tão bonito entre os homens. E é corriqueiro, é popular, não precisa de grandes sabedorias ou tecnologias. Desde a palma da mão até um computador, uma orquestra. Tudo comunica. E até por entre as fronteiras que são impostas hoje, religiosas, políticas. É lógico que existe uma massificação da cultura americana, mas mesmo assim existe a comunicação.

E pra compor, como você faz? Precisa ficar sozinho?
Quando eu tô compondo música, fazendo melodia, harmonia, eu gosto de estar com as pessoas. Mas pra escrever, prefiro ficar sozinho. Porque aí é visível. Aí já me dá uma timidez. Na real eu risco mais do que eu aproveito. Eu risco muito. Algumas coisas até jogo fora, porque não sei esteticamente pra onde aquilo vai, ou o que eu quis dizer ali. Porque tudo, na realidade, antes de ter uma linguagem estética que eu procuro, eu procuro botar meus bichos pra fora. Essa necessidade é muito grande. Mais aí depois vem a coisa estética, que é como você vai botar isso pra fora. Qual a linguagem a ser usada. E isso é o que me agonia mais. Porque o mais natural é só botar pra fora. Eu acho que num texto eu quero sempre ser parceiro de quem vai absorver aquilo. Então é trocar uma idéia pra gente pensar junto. Se a conclusão da pessoa não for a mesma que a minha, tá tudo bem também. Mas eu acho que você tem que criar temas que são factíveis de discussão, ou então que aguce você a pensar sobre. Por isso eu trabalho com metáforas. Se eu sou muito direto eu poderia ter apenas um ranço jornalístico, que é o que eu tinha no começo.

Que é uma maneira de não impor.
De não impor, exatamente. Acho que eu consigo mais fazer um cenário psicológico daquilo. Aí a pessoa que recebe divide comigo esse cenário e as conclusões saem daí, não são impostas. Saem desse cenário. Se você for ver, até as imagens que eu crio dentro da poesia são para a pessoa se posicionar psicologicamente dentro daquilo, pra ela sentir o mesmo tipo de sufoco, de calor.

Tentar não ser direto vale também pra Ninguém Regula a América e Egocity, que parecem mais diretas?
Egocity, por exemplo. Tem uma frase muito sutil, que é "E vão lambendo os cartões de crédito". Porque muitos viciados batem a cocaína com o cartão de crédito. Eu acho isso uma imagem forte, porque o cartão de crédito é a sua identidade como consumidor.

O que você acha da elite brasileira?
Acho que a elite está cada vez mais emburrecida e emburrecedora. Ela ainda não descobriu isso do lucro inteligente. Não é ser bonzinho para os outros. Eu não espero isso deles. Mas que eles entendam que é matemático, lei da ação e reação, E = mc2. Se a indústria privada desse país não for mais benevolente, se a elite intelectual, econômica, até mesmo a política, ficar ainda com esse ranço de extrativismo humano, a qualidade de vida diminui pra eles também. Mas muito mais rápido do que antigamente. Porque todo processo histórico mundial entrou numa velocidade que jamais o ser humano viu na terra. Então, o efeito colateral do que eles estão causando é muito rápido. E mesmo assim, por mais que tenha estatísticas, números, se fica mais ainda preconceituoso. A Daslu não tem entrada pra pedestre...

Na Barra da Tijuca só se pode andar de carro...
Só se pode andar de carro. Em Brasília, cidade-satélite é pra botar pobre pra fora da arquitetura original da cidade. Brasília, uma cidade de ruas tão amplas, você vê no final do expediente pessoas andando quilômetros pra chegar até o ponto de ônibus. Porque até isso é contido. Aglomerações em lugares planejados. Quer dizer, o conforto que as pessoas estão procurando é cada vez mais burro e de uma burrice letal. Eu não sou nenhum gênio pra ter essa lucidez. Muitos deles aí têm muito mais informação e educação do que eu. Sabem disso melhor que eu, mas continuam numa ciranda viva na tentativa de serem célebres, numa procura louca de poder.

E as soluções que são apresentadas parecem que vão mais no sentido de reforçar a coisa do jeito que ela está.
Não precisa ser gênio pra ver que diminuir a idade penal não vai reduzir a violência no país. Se fosse investir em educação nos lugares de maior incidência de violência, seria muito mais barato do que é gasto pra reprimir. E o resultado seria muito mais positivo. Quer dizer, eu falo em número não porque eu queira, mas porque é a linguagem que eles entendem. A elite desse país só entende quando dói no bolso. Estão crescendo novas instituições. A moda pode ser uma nova maneira de arte. Tudo bem. Vou ponderar isso. Mas, por exemplo, será que é certo um desfile de moda ter maior exposição, maior divulgação do que a exposição do Mário Quintana?

EVocê já percebeu que a moda vende um corpo, um jeito de ser, que só uma minoria possui? A maioria não tem. Ao mesmo tempo a indústria vende uma série de produtos de beleza, emagrecimento, etc. para essa maioria que não tem o corpo da modelo?
Quando alguém fala "Ah, essa roupa assim é maravilhosa, mas se você é gordinha, você não pode usar". Olha, peraí, cara! A pessoa tem o direito de usar qualquer coisa. "Ah, mas fica feio". Fica feio pra quem? Cara, o que acontece é ela. É ela, a pessoa, com aquilo. Se a mulher pesa 180 quilos e quer botar uma minissaia, aí vem um conceito não sei de onde... Tudo bem que se discuta a estética do vestuário, que se discuta a representação sóciocultural disso. Isso se misturou a nossa cultura. Mas dizer quem pode ou não usar aquilo!? Aí mudou. Aí é outra maneira de pensar. Se o cara tá se esforçando pra ter um corpo mais bonito, beleza. Agora, parece algo assim: o dono do seu interesse, que aquilo depois vai pra sua sala, pro seu carro, pra sua família. É tudo "Me, myself and I". É tudo "eu", "eu", e não o comum. Eu passei ontem na praia, à noite, do Leblon até Copacabana, e tinha uma porrada de atividade esportiva na praia, cara! Tinha vida ali, era bonito de ver. Fiquei olhando e falando: caralho, que bom, que bonito! Ainda, por mais que tenha apartheid econômico aqui, a praia ainda luta pra socializar. Por mais que andem espancando travestis e homossexuais na praia, ela ainda insiste em ser um momento de encontro. Mas, aí eu atravesso o túnel, e quando eu saio aqui, tá tudo deserto. Não tem atividade nenhuma, todo mundo com medo, e a cidade sitiada. Não tem mais espaço socializante no lado de cá [Zona Norte]. Os campos de pelada estão perdendo pras construções.


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