......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 




03.11.2006
DEMOCRATIZAÇÃO DA MÍDIA: "EU ESPERO QUE O LULA ESTEJA À ALTURA DAS CIRCUNSTÂNCIAS"

Para Mino Carta, diretor da revista CartaCapital, o governo tem força política para avançar substancialmente nas questões relativas à democratização dos meios de comunicação. "Esse governo tem um aval extraordinário. A mídia martelou por um ano e meio, a mídia acusou esse governo, o PT, Lula pessoalmente, de todas as maneiras e não adiantou nada". Nessa entrevista ele também comenta o abaixo-assinado da TV Globo, ressalta que a opinião pública não se deixou manipular nessas eleições e avisa: "A mídia apoiaria qualquer golpe. No fundo eles adorariam se os tanques reaparecessem".

Mino, estou ligando a propósito das duas últimas edições de CartaCapital, que descortinaram a manipulação da grande mídia no primeiro turno, o que ampliou a discussão sobre a democratização dos meios de comunicação.
Certo.

Réplica de Ali Kamel, abaixo-assinado de jornalistas da TV Globo, artigos e reportagens contra você e a CartaCapital. Como está sendo lidar com isso?
Tá sendo muito divertido pra mim. Eu chafurdo alegremente nessa hipocrisia toda. Eu já chamei o Ali Kamel de Tarturfo, que é uma personagem muito boa de Molière, o hipócrita-mor. Porque trata-se de hipócrita. Quanto ao abaixo-assinado, eu sei que muita gente não assinou, não se prestou a isso. Sei que quem é a autora do texto, ou pelo menos quem fez toda a operação, é a Mônica Maria Barbosa, também chamada Mona, a chefe de produção do Jornal Nacional; o abaixo-assinado foi apresentado aos jornalistas pelo chefe de cada qual e, como disse, muitos não assinaram. O pessoal do Globo Repórter de São Paulo, em peso, não assinou. Houve quem assinasse, amedrontado, e depois retirasse a sua assinatura.

Eu acho que estamos vivendo um momento muito interessante, porque a vitória do Lula, em relação a cujo governo esta revista já teceu muitas críticas, mas o que se pode dizer é que a vitória do Lula é a derrota da mídia, a derrota clamorosa da mídia. Aliás nós estamos saindo amanhã com a nova edição da revista e ela vem com um artigo do Marcos Coimbra, que como você sabe é o diretor da Vox Populi, um artigo magistral, no qual ele prova como a opinião pública brasileira, desta vez, conseguiu deixar de ser manipulada pela mídia.

Você diria que se trata de um momento único na história do país?
É um momento novo. Em 2002 não foi bem assim, porque quando a vitória do Lula ficou evidente, a mídia jogou de uma forma ambígua, foi mais cordata, foi mais comedida, foi mais cautelosa. Não houve o lance final como em 1989, o debate manipulado, ou então a história da filha do Lula, em 2002 não aconteceu. Mas aconteceu, por exemplo, a história do dossiê. O que é uma bobagem inominável cometida por petistas, isso claro que ninguém discute, mas é a tentativa in extremis de evitar a eleição do Lula. Então eu acho que estamos vivendo um momento muito interessante. Não é somente um momento interessante para o jornalismo brasileiro. Temos uma chance de mostrar que o jornalismo não é aquilo que os senhores do poder costumam praticar, mas eu acho que é um momento muito interessante para o povo brasileiro. Eu sempre tive muito medo de usar a palavra povo para não ser acusado de demagogo, um jornalista que cai na retórica é uma coisa muito feia, né? Mas eu começo a usar essa palavra com um certo gosto.

No artigo do Kamel de 31/10 ele diz que a grande imprensa brasileira é uma das melhores do mundo...
Bom, isso deixa pra lá. Isso é ridículo. Porque o elogio em boca própria é sempre um vitupério. Digamos, a imprensa inglesa não ousa afirmar que é a melhor do mundo. Então, quem afirma... Somos assim. A Globo se considera uma televisão extraordinária. Mas, olha, mesmo quando as pessoas falam dos programas de auditório da televisão italiana, não pode comparar, porque nós temos Gugu, temos Faustão... Os programas de perguntas e respostas são assim: dois mais dois dá quanto? Se ali perguntam onde nasceu Dante Alighiere... Portanto, são coisas um pouco diferentes. Nós somos um pobre país limítrofe que teria mérito, condições de ser um dos primeiros países do mundo - porque, na verdade, ele foi protegido não sei se pela natureza, por Deus, pelas circunstâncias, pelo acaso - mas é um país incrivelmente favorecido, e tem uma elite que é uma das piores do mundo, como de resto a sua imprensa, que a serve passivamente, e que joga fora esse patrimônio. Até hoje jogou fora. E de quem é a culpa se nosso povo é o que é? De quem é a culpa se nosso PIB é insuficiente? De quem é a culpa se crescemos tão pifiamente? É de quem manda, não?

Sim.
Então é isso. E aí joga futebol em cima dos coitados, que assim a cada gol eles gritam de felicidade. Uma vergonha isso, uma coisa trágica.

Mino, na sua opinião esse governo vai ter força para avançar, de fato, na questão da democratização da mídia?
Olha, eu posso dizer que deveria. Porque recebeu um aval tão extraordinário nessa eleição, uma coisa diferente de 2002, recebeu um aval tão incrível... A mídia martelou por um ano e meio, a mídia acusou esse governo, o PT, Lula pessoalmente, de todas as maneiras e não adiantou nada. Furo n'água. Então esse governo tem um aval extraordinário. E eu espero que saiba entender isso. Eu espero que o Lula esteja à altura das circunstâncias. É isto.

Um aval de 20 milhões de votos de diferença e um apoio substancial entre os governadores.
60%! 60%! 61%, quase. Uma loucura. Um apoio de pelo menos 16 governadores que pode até crescer. As condições de formar uma maioria parlamentar. O PFL no ocaso. O PSDB realmente destroçado, em busca, talvez, de uma nova identidade.

E, Mino, no governo anterior a verba publicitária não era distribuída eqüitativamente. Parece que a coisa mudou um pouco com o novo governo, não?
Não sei. Você acha que está mudando? Eu acho que, no meu caso, eu tive, quer dizer, a CartaCapital teve, o benefício da isonomia. No governo Fernando Henrique a revista foi perseguida sinistramente. É só isso. Não teve praticamente publicidade alguma do governo. Nesse governo nós tivemos isonomia. Eu acho até que... Eu teria que discutir essa isonomia. Porque a revista Exame, da editora Abril, da qual os poderosos de plantão têm tanto medo, né, a revista Veja, a nau capitânia da Abril, mas a Exame, que é apenas uma quinzenal de business, ela teve mais publicidade que a revista CartaCapital.

Então ainda não há equilíbrio na distribuição das verbas publicitárias públicas?
Eu acho que nem equilíbrio, por hora, porque no fundo, no fundo, existe uma espécie de corporação de publicitários, alguns inclusive têm ligações no governo, nos bastidores do governo, etc. e tal, que descobriram um maná ao botarem anúncios na Globo e na Veja. É tão simples. No mais você fica pensando na vida, fazendo as suas bobagens e tal, porque tá resolvido, é só botar a publicidade ali que ninguém vai se queixar.

Uma última pergunta: nosso ex-presidente Fernando Henrique, em sua infinita humildade, evocou Carlos Lacerda...
Eu falo disso no meu editorial da revista que sai amanhã (hoje). Eu acho que ele foi muito oportuno na exumação, ou quem sabe ele pensasse na ressurreição de Lázaro, né?

Você acredita que se a oposição sentisse que há espaço para um golpe, ela embarcaria?
A mídia apoiaria qualquer tipo de golpe. No fundo eles adorariam se os tanques reaparecessem. Ela é totalmente golpista, movida a ódio de classe.

Você não tem dúvida disso?
Não, nenhuma dúvida. Basta ler o senhor Kamel pra saber disso.


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