
30.10.2006
A QUEM INTERESSA A NORMA CULTA DA NOSSA LÍNGUA?
Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br
Recentemente tive o prazer de participar de um debate numa universidade em que se discutia um tema instigante e bastante relevante nesses dias que correm. Tendo como pano de fundo as relações de poder presentes no uso da língua, os participantes discutiam sobre até que ponto a imposição da norma culta é uma forma de dominação de classe.
E um argumento ao mesmo tempo sedutor e polêmico veio à baila: se somos capazes de compreender a mensagem que o interlocutor pretende transmitir, esteja ela coalhada de erros gramaticais evidentes ou não, porque não reconhecer essa fala como legítima? Quando se percebe que boa parte da população brasileira encontra enormes dificuldades para se expressar de acordo com a norma culta da língua, o argumento torna-se ainda mais atraente, visto que aparentemente democrático.
Nesse sentido, talvez fosse o caso de reconhecer que é chegada a hora de rever os alicerces sobre os quais o ensino da língua portuguesa vem sendo pautado desde sempre. Na medida em que observamos que, a despeito das normas gramaticais vigentes, o povo sabe muito bem se comunicar e transmitir aquilo que pensa e deseja, seria forçoso reconhecer que é necessário rever também o modo como nossa língua tem sido ensinada e aprendida nas salas de aula desse Brasil afora.
A norma culta funcionaria então como uma estratégia deveras eficiente de exclusão, impedindo o acesso de milhões de brasileiros aos meios universitários e aos melhores postos de trabalho. Seria, ao mesmo tempo, uma forma de preservar o acesso restrito a uma cultura burguesa e dominante, à qual o "andar de baixo" - como diria Elio Gaspari - jamais terá acesso.
E pensando assim, por tabela, ainda poderíamos redimir todos os usuários daquilo que hoje temos denominado como uma linguagem cyber, em que a língua portuguesa vem sendo reinventada abrindo mão das vogais, juntando consoantes e procurando reproduzir foneticamente por escrito o modo como ela é falada - especialmente pelos jovens que têm o privilégio de acessar a internet e suas salas de bate-papo, blogs e etc.
Durante o debate, os presentes dividiram-se entre o entusiasmo e a apreensão diante do argumento exposto. Dentre os primeiros, pude notar um sentimento de alívio diante das enormes dificuldades que são inerentes ao aprendizado de nossa língua. Enfim poderíamos admitir que não há um falar e escrever errado, há sim um uso elitista e excludente do nosso idioma contra o qual devemos lutar. Já entre os apreensivos, pairava a incerteza sobre os rumos de um abandono progressivo das normas gramaticais: afinal, para onde vamos assim?
O escritor Lima Barreto (1881-1922) constantemente tornava públicos os seus embates com a gramática, batendo-se contra suas normas e regras. Foi inclusive acusado de não saber escrever e cometer freqüentes erros gramaticais que explicariam sua trajetória à margem do establishment intelectual da época. Suburbano, negro e pobre, o escritor - segundo alguns dos seus contemporâneos - não poderia mesmo ser equiparado a um Machado de Assis ou Aluísio Azevedo. Nem mesmo poderia almejar uma candidatura ao olimpo da Academia Brasileira de Letras, ousadia que Lima Barreto insistiu em cometer.
Entretanto, quem se aventurar pelos escritos do "mulato de Todos os Santos" (modo como muitas vezes se referem ao autor, tendo em vista que morou nesse bairro do subúrbio do Rio de Janeiro por muitos anos), vai perceber que Lima Barreto saiu vitorioso nesse embate com a norma culta da língua portuguesa, dominando-a com maestria a ponto de produzir artigos e crônicas de indiscutível qualidade literária e romances inigualáveis como "Triste fim de Policarpo Quaresma".
Talvez convenha refletir cuidadosamente sobre esse argumento supostamente democrático quanto à flexibilização da norma culta. Quem atua cotidianamente nas salas de aula de uma escola pública, como o autor dessas mal traçadas linhas, põe-se necessariamente a refletir sobre o sentido desse debate. Devemos então adotar uma postura mais liberalizante e parar de corrigir os inúmeros erros gramaticais da garotada? É chegada a hora de anunciar o reino da felicidade e decretar enfim que todos podem falar e escrever em paz, pois ninguém mais vai aporrinhá-los com incansáveis correções?
Sei não... Fico pensando se agindo desta forma, não estaríamos mais uma vez engendrando outra sofisticada e sutil forma de dominação de classe. Abandonar o ensino da norma culta não seria admitir de vez que ela não é mesmo destinada aos pobres, às camadas populares? Não seria admitir que esse biscoito fino não cai bem na boca do povão? E não representaria, por fim, negar-lhes o acesso a toda uma cultura letrada produzida ao longo de séculos, que esses novos leitores jamais conseguirão compreender?
O meu receio é que isso possa representar, em última instância, a legitimação da fábrica de analfabetos funcionais em que a escola pública no Brasil já se transformou. Até porque, as escolas das elites dificilmente hão de se tornar liberais sequer quanto ao uso da linguagem cyber, que seus filhos utilizam confortavelmente diante de computadores conectados a uma banda larga ainda inacessível à imensa maioria da população.
Então a quem interessa condenar os filhos dos pobres e despossuídos a ignorar a norma culta da língua portuguesa? Num tempo em que lutamos tanto pela inclusão digital, vamos agora perpetrar a exclusão lingüística? O debate está aberto...
Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.