
Editora: Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com
30.10.2005
ENTREVISTA: ANA ARRUDA CALLADO
Jornalista, professora e escritora
A Bruno Zornitta, Leon Corrêa, Mariana Vidal e Marcelo Salles - redacao@fazendomedia.com
"As pessoas estão cansadas da grande imprensa"
"Imprensa livre pra quem?", quer saber. Cheia de vida aos 68 anos, sua voz guarda, quase imperceptível, o traço forte do nordeste. Nasceu no Recife e veio para o Rio de Janeiro em 1954, estudar jornalismo. Foi repórter do Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Diário Carioca, revista Senhor e TV Rio. Ana Arruda Callado, primeira mulher chefe de reportagem no Rio, é doutora em Comunicação e Cultura pela UERJ e foi editora-chefe de O Sol, jornal pioneiro na imprensa alternativa brasileira.
Marcelo Salles - Então, Ana, por que a opção pelo jornalismo?
Não sei... É um dos mistérios da minha vida. Na minha família não tinha nenhum jornalista, meu pai ficou desgostosíssimo e eu era aquela filha que queria agradar o pai, sabe como é? Nunca esqueci a frase dele: "Minha filhinha, jornalismo? Quem não dá pra nada é que vai ser jornalista!" Mas eu sempre tive vontade. Eu fiz um jornalzinho da família, "Repórter 1907", eu fazia à mão, contava as histórias porque minha família era muito grande e nós morávamos no apartamento 1907. Aí eu fiz esse jornal. E depois trabalhei num jornalzinho, esse me despertou realmente a vocação, o jornalzinho da Ação Católica. E o Cícero Sandroni era diretor desse jornal, que tinha um nome absolutamente pretensioso de "Roteiro da Juventude". E um dia ele foi a uma reunião e disse "quem quer trabalhar?" Eu fiquei maluca, fui trabalhar, e realmente foi engraçado, né, não sei de onde é que me vem isso: o dia que eu tive que fechar o jornal, na oficina da Última Hora, parecia que eu tava indo a um parque de diversões, ou a um baile, sabe como é? Eu fiquei tão contente de conhecer uma oficina como era antigamente, com chumbo, com poeira... Mas os operários lá, os tipógrafos me explicando, me mostrando a paginação, eu fiquei enlouquecida e decidi: "Eu quero fazer isso". E fui fazer o curso, eu fui pra lá em 1954! Tinha professores bons. Tinha pessoas que hoje, não tem nada a ver né, com jornalismo, mas, por exemplo, eu nunca esqueço as aulas do Vitor Nunes Leal sobre Teoria do Estado. A gente discutia Organização do Estado, sei lá, com Vitor Nunes Leal que era simplesmente o maior jurista do Brasil e naquele momento, da Casa Civil de Juscelino. Quer dizer, ele saía do Palácio do Catete pra dar aula à gente. E acabado o curso eu fui para o Jornal do Brasil, que estava começando uma grande reforma. Me deram o estágio, começou dia primeiro de abril de 1958, nunca esqueci por causa da data. Três meses depois eu estava contratada, carteira assinada e tudo mais e lá fiquei quatro gloriosos anos. Fiz muita reportagem, foi realmente um tempo maravilhoso. Foi assim. Agora vamos dar um pulo no tempo, senão...
Bruno Zornitta - Você teve uma militância no jornalismo? Como você via a questão da democratização da comunicação?
Olha, eu nunca pensei "A questão do Jornalismo". Eu acho que a questão do jornalismo está ligada à questão do país todo, da sociedade em geral. Realmente eu fui repórter, repórter de rua, repórter de grandes reportagens, de viajar... E isso me deu um conhecimento do mundo fundamental. Eu comecei a encontrar gente diferente e aí evidentemente eu me politizei. Aliás, saí do jornal por causa disso; houve uma greve em 1962, eu aderi à greve, fomos todos expulsos do jornal, mas conseguimos parar todos os jornais do Rio durante dois dias. Mas o importante, pra responder a você, Bruno, é o seguinte: é que eu descobri que a imprensa era uma das formas, um dos meios de se democratizar uma sociedade, um país! Quer dizer, a luta pela democratização da imprensa é ótima, é formidável, mas não é a única. A gente quer democratizar a imprensa para o direito à informação ser respeitado. Assim como outros direitos, não é? Quero dizer que a verdade seja buscada de fato na imprensa. Que a imprensa comprometida com o Estado ou com o capital não vai nunca dar a informação verdadeira, não é? Então eu acho que é mais ampla a questão do que a questão da imprensa. É mais, é mais complicada, é mais profunda. Agora, tem que começar duma coisa, e eu acho que a imprensa é um excelente começo. Um país que tem uma imprensa democratizada evidentemente vai ser um país democrático. Agora, acho difícil porque... Ou melhor, está começando a ser possível, é até bom eu me lembrar disso. Porque quando a imprensa começou no Brasil, qualquer pessoa que tivesse algum recurso podia ter uma impressora em casa. Assim o Frei Caneca fazia, assim o Cipriano Barata fazia, foram os grandes jornalistas, e políticos e revolucionários da primeira metade do século XIX. E essa gente fazia um jornal, agora, você dizia "bom, mas eram pequenos". Claro! Um jornal tirar 100 exemplares era um colosso naquele tempo. Havia muito menos gente, havia pouca gente que soubesse ler, havia pouca gente que participasse dos acontecimentos. Acho que hoje, com a informatização, voltamos a esse ponto. Na realidade qualquer pessoa pode fazer um jornalzinho em casa. Um jornal como o de vocês, por exemplo, quantos saem?
"A imprensa comprometida com o Estado ou com o capital não vai nunca dar a informação verdadeira"
Mariana Vidal - 2.250.
É uma tiragem boa, é um jornal que pode atingir muita gente, porque 2.250 é a tiragem, mas as pessoas comentam! Por exemplo, como é que caiu na minha mão? A Maria Inês Duque Estrada, que trabalhou no Jornal do Brasil comigo disse: "Olha que jornal interessante, e tem uma entrevista com o Jânio de Freitas!". Porque nós duas trabalhamos com o Jânio como chefe de redação. E esse jornal é muito importante, mas é claro que tem um custo. E a distribuição? Aí é que é o nó de tudo. É o grande empecilho. Mas você sabe que sucesso em uma publicação alternativa não é anúncio, é o boca-a-boca. Porque as pessoas estão cansadas da grande imprensa. A grande imprensa é empresarial! Uma empresa tem como objetivo dar lucro, e não dar informação. É claro que se ele é um jornal, e ele não dá informação, ele também fica desmoralizado e não dá lucro nenhum. Foi o que aconteceu, aliás, durante a ditadura. É curioso que se fala muito, aliás, Jânio falou isso [Fazendo Media número 32], que os jornais aderiram. É verdade. Claro que se tentou driblar a censura. Driblar, não ir contra, porque não era possível. Mas aconteceram duas coisas: 1) quando você dribla muito a censura você acaba não sendo entendido pelos leitores; 2) os jornais só começaram a reagir quando sentiram que iam morrer. Porque quem ia comprar o jornal sabia que o jornal era censurado? Então a imprensa começou a ficar valente. E também a ditadura tava desgastada. Mas durante anos conviveram muito bem com a censura, sim. Quando eu digo que não há imprensa livre, é o seguinte: a liberdade é pra quem? É pra empresa! E a liberdade devia ser para os profissionais e para os leitores. Essa liberdade na grande imprensa empresarial não vai para o jornalista nem para o leitor. Eu me lembro quando eu já tinha saído do jornal diário, tava dando aula, os alunos no desespero e que se queixavam. Tinha a Mônica, ela fazia Palácio Guanabara pro Globo. E ela saiu do Globo onde estava bem e era muito prestigiada, porque ela disse que todo dia tinha que pedir desculpa no Palácio! Porque chegava no Globo e mudavam as coisas. Eu nem lembro quem era o governador na ocasião, acho que era o Brizola. Então era uma exclusiva do secretário, ela anotava direitinho, escrevia certinho o que era o projeto. No outro dia o título tava já colocando dúvida, tinham cortado alguma declaração, ela ficava desesperada. Então o jornalista não tem liberdade, a não ser que ele adquira muito prestígio, e convença o jornal que vale a pena. Por exemplo, tem uma historinha que eu gosto de contar: Paulo Francis, que todo mundo conhece, né, um mito. Paulo Francis começou como diretor de teatro, trabalhou em 1963 num jornalzinho que o Brizola fazia chamado "Panfleto". Eu trabalhei nesse jornal, Fernando Gabeira e Cássio de Castro também, era uma turma boa. E Paulo Francis escreveu um artigo uma vez chamando Roberto Marinho de cocô. Era um artigo furioso contra a Globo e as Organizações Globo, e chegando a esse nível de desaforo e de grosseria. Passam-se os anos, Paulo Francis adere ao establishment e é convidado para trabalhar na TV Globo. Mas aí um dos chefões disse "Você está maluco? Paulo Francis escrevia coisas horríveis contra o Dr. Roberto Marinho, ele não vai deixar!" Aí a pessoa que tinha convidado foi falar com o Dr. Roberto. "Dr. Roberto, olha, nós achamos que a TV ta precisando de uma sacudida, que o Paulo Francis é fantástico, as pessoas adoram... Queria saber se o senhor se opõe a chamar Paulo Francis?" Roberto Marinho disse assim "Vocês acham que esse rapaz vai aumentar a audiência?" "Ah vai, com certeza!". "Então contrata". Agora, claro que há jornalistas que fazem o trabalho decentemente, meu Deus, imagina se eu vou dizer que minha profissão é uma profissão de covardes e canalhas! Claro que não! Jornalistas tentam. Aliás, eu não conheço nenhum jornalista... Conheci, dois ou três, mas a grande maioria, quando vai pra rua, tenta apurar o que aconteceu mesmo. Agora, ele vai com a cabeça, com a ideologia e o sentimento dele. Não existe objetividade. É outro mito: liberdade é um mito e objetividade é outro mito. Porque nenhum ser humano é inteiramente objetivo! Seria um absurdo você ser objetivo. Você tem que ser é correto. Honesto. Isso não tem a ver com objetividade.
Marcelo Salles - Pode dar um exemplo?
O exemplo do meu marido. Callado foi o único jornalista do mundo ocidental, fora um ou dois cubanos, que cobriu a guerra do Vietnã do lado do Vietnã do Norte. Ele chegou no Jornal do Brasil, onde era editorialista e já não fazia reportagem há milênios, estava com a vida ganha, e um dia na reunião de editorial ele disse pra Nascimento Brito "Por que todos os jornais aqui só cobrem a Guerra do Vietnã do lado de Saigon? Por que você não leva alguém lá pro Vietnã do Norte, não tenta Hanói?" Aí o Nascimento Brito olhou pra ele e disse "Acho sua sugestão perfeita, vá! Vá que o jornal paga!" Ele ficou nessa obrigação, lutou pra conseguir o visto, os vietnamitas do norte tinham pânico com negócio de Brasil, achavam que era tudo ligado aos americanos, que não iam conseguir uma cobertura correta, mas ele conseguiu, depois de meses de batalha ele conseguiu e foi ao Vietnã do Norte. Quando ele voltou publicou um livro, "Vietnã do Norte: advertência aos agressores" E aí, numa entrevista à televisão, alguém fez essa pergunta "Mas Calado, a reportagem não devia ser isenta? Como é que você tomou partido?" Ele disse "Uai, porque quando eu saí do Brasil, eu já sabia qual era o lado que tinha razão. Eu não fui lá pra descobrir quem tinha razão! Eu fui lá pra descobrir como é que os vietnamitas conseguiram derrotar os franceses e como estão conseguindo deixar desesperado o maior exército, as maiores Forças Armadas do mundo! A maior potência militar do mundo! Foi isso que eu fui saber. Como era isso de um país de heróis, como é que se fabrica um país de heróis. Então eu fui saber isso e isso eu apurei direitinho como um bom repórter".
Mariana Vidal - Mas você não acha que hoje existe muita auto-censura? É uma coisa que eu percebo que já vem desde faculdade...
Começa a auto-censura na faculdade, começa a escrever artigo como o professor quer, começa a escrever matéria como o professor quer, não como quer, como devia ser. Há autocensura e está maior agora. Por quê? Quando eu digo "está maior", é em relação a quê? Ao meu tempo. Que naquele tempo havia uma concorrência muito menor. Havia muito menos gente. Hoje as faculdades despejam centenas de jovens, todos os anos vão procurar emprego. Então é muito fácil, você sabe que se você se rebelar, tem uma fila de gente pro seu lugar. Então de fato está mais difícil hoje você ser firme, defender seu ponto de vista, entende? Eu tive chefes de reportagem formidáveis, como Araújo Neto, como Wilson Figueiredo, e, quer dizer, "Ah, mas a condessa é muito católica, isso aí pega mal, parece que a igreja está errada". Eu digo "Gente, mas foi isso que o bispo disse!". Aí eu conseguia, entendeu, eu brigava pela matéria.
Marcelo Salles - É verdade que você foi a primeira mulher a ser chefe de redação no Rio de Janeiro de um jornal diário?
Primeira chefe de reportagem, no Diário Carioca, e depois chefe de redação no Sol. Olha, eu tenho muito medo de dizer "sim", porque de repente vão dizer "Não, imagina que teve um dia, teve um mês que no Diário de Notícias de 1928 era uma mulher..." Nunca ouvi falar, e foi dito muitas vezes que eu fui a primeira e ninguém desmentiu. Eu só posso dizer isso. E, enfim, o Diário Carioca usou isso até como publicidade. Porque como era a nova fase, eles fizeram até eu ia à televisão, dava entrevistas, eu virei uma espécie de bicho esquisito.
Mariana Vidal - Você sofreu preconceito por isso?
Sim, dentro do jornal? Fora de lá as pessoas adoraram. As pessoas achavam formidável, todo mundo "ah, que bom", tem até uma história engraçada, Naum Sivadski foi um grande jornalista, eu digo "foi" porque nunca mais recebi os despachos dele, ele trabalhava para um jornal virtual desses... Ele está morando em Israel. Voltou pra Israel, tem um filho lá. Mas Naum foi diretor da Manchete. Um dia tava com um pessoal, era chefe de reportagem do Diário Carioca, tava almoçando com um grupo lá, num restaurante perto, de repente o Naum, que era muito escandaloso, e aos gritos foi chegando perto da minha mesa assim: "Ana Arruda! Levante-se!". Eu tomei aquele susto, fiquei vermelha, que ficava vermelha à toa e ainda fico. Aí eu disse "Que isso Naum?! Que bobagem, que grosseria é essa?". "Levante que eu quero lhe dar um beijo pois nunca beijei um chefe de reportagem na vida!".
Marcelo Salles - Você era bem nova também, né?
Sim, relativamente.
Marcelo Salles - 27 anos, é isso?
É, eu tinha menos de 30 anos. E tinha cara de menos, sempre tive.
Marcelo Salles - Hoje em dia parece que tem uns 45... Tá bom, 50!
Claro, claro...
Marcelo Salles - Falando da universidade, professora Ana Arruda, como você avalia os cursos de comunicação hoje, especificamente Jornalismo?
Olha, se cobra muito dos cursos de Jornalismo. "Ah, porque os alunos saem sem saber nada". Eu acho que é meia verdade, pois as pessoas entram no curso muito incompetentes, como é que em quatro anos vão virar pessoas competentes? Eu tinha aluno que nunca tinha ouvido falar em Carlos Lacerda, e queria ser jornalista. Isso no quinto período. Eu tive aluno que dizia "Ah, esse negócio de acento eu nunca entendi!" Quer dizer, ou aprendia isso no curso fundamental ou nunca vai ser bom profissional em nada. Nada! Agora, querem que uma pessoa recém-saída de uma faculdade de Jornalismo entre numa redação e faça uma matéria perfeita! Eu acho que as empresas jornalísticas não estão investindo em formação de pessoal, pra complementar a formação da faculdade. Então não se pode exigir tanto dos cursos. Mas eles são ruins. E por que eles são ruins?
Marcelo Salles - É, por quê?
Eu batalhei durante anos na Escola de Comunicação da UFRJ pra que se fizesse um projeto antigo, várias pessoas tentaram, "Semestres Temáticos". Alguém pode se formar, pode aprender alguma coisa, fazendo oito disciplinas diferentes? Então ele assiste à aula de Técnica de Reportagem, sai correndo pra assistir à aula de Antropologia, depois sai correndo pra assistir à aula de Sistemas de Comunicação... Tinha que ser o seguinte: um semestre vamos aprender o que é jornalismo. Um pouquinho de História do Jornalismo e ler jornal. Saber o que é uma reportagem. Outro semestre, "vamos aprender a escrever para jornal impresso, para veículos impressos". Um semestre inteiro produzindo matérias de verdade e indo pra rua, fazendo... Outro semestre, "vamos aprender rádio..." enfim, pode ser assim ou pode ser outra divisão. Então é preciso Antropologia, e muito. Mas Antropologia tinha que ser, por exemplo: vamos fazer esse semestre uma revista sobre o problema do índio no Brasil. Aí o pessoal de Antropologia ia dar aula. Entendeu? Sociologia: "problema da favela". O professor de Sociologia ia passar aquele semestre dando a aula de Sociologia, mas os alunos também produzindo matérias. Com aquelas aulas, os alunos sempre dizem assim "Pra que a gente dá essas matérias?" Eles não entendem. Por quê? Porque elas são isoladas. Cada disciplina é uma coisa isolada. Não pode! É esquizofrênico. Isso prejudica o aluno.
Leon Corrêa - Emendando nesse tema, quando os cursos de jornalismo foram criados no Brasil, eles eram subordinados à faculdade de Filosofia, depois passaram à área de Comunicação e existe um projeto agora para eles passarem para Letras. Eu queria que a senhora falasse sobre isso...
É uma boa pergunta, mas parte de uma premissa errada. Eles não faziam parte da Filosofia; aqui no Rio é que existia a "Faculdade de Filosofia Ciências e Letras", que foi a única universidade de verdade que eu conheci. Por quê? Porque ali tinham todos os cursos, conviviam; na hora do cineclube tinha aluno de Química, de Física, de Geografia, de Jornalismo; então a gente tinha uma vida cultural universitária - que a universidade é isso, são todos os saberes possíveis e depois ela foi explodida né? Com o golpe militar de 64, resolveram que ali era um antro de comunistas e realmente havia uma politização muito grande lá dentro, e resolveram acabar com ela. Maria Ieda Linhares, que foi professora lá muito tempo diz que "esquartejaram" a Faculdade de Filosofia. Mas os cursos eram isolados, havia muitos cursos isolados em São Paulo e em outros lugares. Então ela nasceu realmente dentro da faculdade de Filosofia, mas era um curso de Jornalismo, se estudava ali Jornalismo. Depois se inventou essa história de escolas de Comunicação. "Comunicação" é uma coisa vasta demais. É vasto demais. Então ficou essa coisa indefinida. Aí começaram as habilitações: então você faz faculdade de Comunicação, habilitação Jornalismo, habilitação Propaganda, habilitação RP, habilitação Rádio, enfim, Radialismo, que não é Radiojornalismo, é... Televisão e Rádio... Eu acho que ir pra faculdade de Letras é assassinato. Nada contra as faculdades de Letras, que têm que fornecer bons professores de Português para os cursos de Jornalismo. E só. Já estou fazendo concessão, porque por mim não tinha curso de Português em universidade: Português se aprende no colégio! Uma pessoa que entra na universidade sem dominar a sua língua não devia entrar na universidade, na minha humilde opinião. Então eu acho essa coisa de Letras um horror, um pavor.
Bruno Zornitta - A gente não falou quase nada sobre O Sol...
Marcelo Salles - Pois é, no crepúsculo da nossa entrevista, O Sol...
O Sol foi uma aventura! Uma aventura muito boa que eu fiz depois de já ter sido chefe de reportagem, depois de já ter um tempo de jornal, e quando a ditadura tava sufocando a gente. Não totalmente, porque em 68 sufocou mesmo, não tinha mais Sol porque não podia ter mesmo né? Mas foi uma aventura... É curioso que quando eu fiz O Sol ainda não era professora. Mas sentia um desejo muito grande de ensinar, no sentido não de sair deitando regra, dizendo "é assim que faz", não. Ensinar como deve ser, quer dizer: ajudando, ouvindo o outro, orientando. E Reynaldo Jardim, quando bolou esse jornal, que seria um jornal-escola, me deu essa chance formidável. Ele me chamou logo, nós escolhemos o grupo que ia ser de editores, todos jornalistas profissionais. E depois de um curso - a gente fez um seminário em Friburgo, na casa de Reynaldo, um fim de semana delicioso discutindo O Sol, e nesse fim de semana Zuenir Ventura sentou numa maquininha e bolou, fez o modelo das matérias: 4 colunas, 2 colunas e pequenas notas. Pegou um fato, da guerra do Vietnã como estava no jornal e reescreveu, como a gente devia escrever no Sol. E fizemos o curso, ele deu aula, mas quando ia sair o jornal ele disse "Reynaldo, Ana, não dá. Isso é uma loucura, isso é uma aventura, não vai dar certo! Eu tenho responsabilidades de família, eu vou cair fora". Saiu, e eu fiquei no lugar dele, no lugar que seria dele. Eu fiquei como chefe de redação. E a equipe era formidável, porque realmente nós criamos um cargo que nunca existiu em jornal nenhum, que era o de conselheiro; os conselheiros eram Carpeaux e Sérgio Lemos. Sérgio Lemos era sociólogo, e o Carpeaux era aquele sábio, sabia tudo e era politizado e participante, ia pras passeatas, berrando, muito engraçado. E essas duas pessoas tinham uma função fantástica na redação. Eles chegavam de tarde e me perguntavam "Quais são as matérias?" Aí, digamos que fosse um assassinato, aí o Sérgio ia até o repórter que tava fazendo e dizia "Escuta, vamos conversar aqui um pouco sobre isso: violência, assassinato de família, como é que é, quem foi que matou?" E dava uma aula de sociologia e violência praquele repórter fazer uma matéria melhor. O Carpeaux ia pra um que tivesse fazendo uma matéria internacional e dava uma aula sobre aquele país, sobre os conflitos anteriores, pra pessoa entender e não escrever bobagem. Isso eles faziam com 3, 4 matérias, cada dia. Cada um deles, quer dizer, com as matérias mais importantes, era formidável! E tinham o cuidado de revezar, se eles atendiam um repórter num dia, atendiam outro no outro. Isso era uma coisa formidável. Então era um jornal-escola mesmo.
Bruno Zornitta - Iam fazendo uma contextualização, né?
Exato! O que eles faziam era isso, era dizer "Esse fato não é isolado, esse fato acontece porque aconteceu antes isso". Se fosse um caso de assassinato: "Você perguntou a condição da vítima, qual era a relação dela com o assassino ou a assassina?", enfim, ele dava e falava um pouco sobre o local, sobre as circunstâncias em que tinha acontecido o fato. E o Cony, por exemplo, fazia experimentações de linguagem fantásticas, ele tinha um grupinho que adorava ele, fazia experimentações legais assim "vamos escrever ahn... folhetim. Cada notícia de polícia aqui vai ser um pequeno conto". E esse negócio dava muito certo.
Mariana Vidal - Mas quem sustentava o projeto?
Era o Jornal dos Sports. Porque Reynaldo Jardim convenceu o genro da Dona Célia, o Mário Filho tinha morrido. Então a dona do jornal naquele momento era a Dona Célia Rodrigues. E Dona Célia, como não entendia nada de jornal, pegou um sobrinho, acho que era sobrinho, chamado Zé Guilherme Padilha. Zé Guilherme Padilha topou o projeto de Reynaldo e convenceu o resto do pessoal. A família Rodrigues só ficava rondando, sempre aquela confusão, família Rodrigues é um caos, né? Aí quando o jornal começou eles bancavam direitinho, mas começou a não ter anúncio suficiente. Então começou uma pressão daí, a pressão não foi só política, houve a pressão política, porque começou a engrossar. O AI-5 não veio de repente. A gente sentia que tava engrossando. Quando aconteceu a reunião do FMI aqui, que a gente deu o título "FMI é o FIM", na realidade estávamos decretando o nosso fim. Porque aí houve um escândalo: "Como é isso, maluco, jornal de subversivos!" coisa e tal. E não adiantou botar Nelson Rodrigues pra escrever crônica, que uma das táticas usadas para acalmá-los... Porque o Nelson era aquele reacionário fantástico né, formidável, talentosíssimo, mas um horror politicamente. E aí começou a piorar e nós chegamos a sair do encarte do Jornal dos Sports e vendemos na rua. Foi aí que usamos a música de Caetano "O sol nas bancas de revista..." como propaganda. E O Sol tinha fãs incríveis. O Ziraldo fazia quase ponto; depois ele pediu que fosse fazer o Jeremias lá, porque não era o espírito do jornal botar Ziraldo pra fazer... Um dia ele foi fazer. O Nilton Carlos, que nunca escreveu pro jornal, mas ia muito lá, as pessoas adoravam. E nós tínhamos os informantes, por exemplo, a parte política, tinha os vereadores, os vereadores que eram a resistência, era MDB naquele tempo, né, não podia ter outra coisa, que era o Roberto Rajão, o Fabiano Vilanova... Eles adoravam, mandavam notícias pro Sol, abriam o jogo pro Sol e tinha muito político e nós tínhamos assim "sucesso de estima", mas na realidade vendia pouco. Tinha repercussão porque as pessoas que compravam tinham um papel na sociedade.
Mariana Vidal - O jornal terminou por censura do governo ou por motivos econômicos?
Eu diria que se conjugaram. A censura, não do governo, mas o medo da empresa Jornal dos Sports, de ser fechada por nossa causa. Porque o Sol perturbava o governo, cutucava o governo. O Castello Branco, que foi o primeiro dos ditadores, gostava de se dizer um homem democrata, ele tinha essa vaidade. Então ele tinha um pouco de pudor de fazer a censura direta e foi só depois dele que começou. Mesmo assim, evidentemente, havia a auto-censura, pois as pessoas tinham medo de serem presas, e ir em cana não era brincadeira... Então acho que foi isso, a ditadura estava endurecendo, e o Zé Guilherme começou a ser bombardeado pela família Rodrigues para não continuar com aquela aventura.
Marcelo Salles - Você disse que não gosta de falar sobre sua prisão, mas em que situação você foi presa?
Tinha entrado num grupo aí, que foi uma burrice, não me arrependo, mas entrei mais por remorso de ver amigos sendo presos, torturados, sumindo, e não estar fazendo nada...
Marcelo Salles - Qual o nome do grupo?
RAN. Resistência Armada Nacional. A gente fazia divulgação de notícia, panfletagem. Era um fracasso, fomos todos presos.
Marcelo Salles - Você pegou em armas?
Não, nunca. Mas arranjei dinheiro pra comprar armas.
Bruno Zornitta - Qual sua opinião sobre o referendo para proibição do comércio de armas?
Eu vou votar "sim", pela proibição, mas compreendo os argumentos contra. E quando você junta uma coisa com a outra, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Quando se fala em luta armada naquele tempo, era luta armada mesmo, para derrubar a ditadura! Todos os grupos achavam que, crescendo, iriam virar uma grande guerrilha. Era uma ilusão, uma bobagem, uma burrice, mas a gente tinha essa esperança. É diferente de hoje. A população armada é típica de americano, essa barbaridade que estão fazendo no Iraque. Mentalidade de país que nasceu com caubói, com tiro, com bang-bang. Aliás, é o nome que deram pra uma novela agora. Eu acho que arma é um horror. Claro que o Exército e a Polícia têm que ser armados, mas lamentavelmente eles não sabem usar, pelo menos a Polícia não sabe. O ideal de um país democrático era ter uma Polícia bem armada que soubesse usar as armas e uma população desarmada. Porque uma arma dentro de casa só pode causar desgraça. Eu não vejo uma vantagem de um revólver dentro de uma residência de família. "Ah, para se defender do bandido". Ora, o bandido vai entrar numa casa sem saber o que vai encontrar? Algum bandido é tão imbecil que assalte alguém sem ter estudado a situação? O cidadão normal não sabe se defender com arma. Tem que se defender de outra forma, fazendo alguma coisa para que a democracia se fortaleça.
Marcelo Salles - Pra terminar, que avaliação você faz do governo Lula?
Uma decepção absoluta. Decepção absoluta! Não fez nada que eu esperava que ele fizesse e fez um monte de coisas que eu jamais imaginaria que ele fizesse.