
Editora: Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com
29.08.2005
"QUE PARTIDOS? QUE POLÍTICA?"
Curso de extensão que apostou na relação entre universidade e MST é encerrado com debate entre partidos políticos de esquerda e movimentos sociais
Arquivo MST

Militante do MST estudando
Por Raquel Junia - redacao@fazendomedia.com
Uma realidade brasileira de movimentos sociais e "lutadores do povo", como Florestan Fernandes, Paulo Freire, Olga Benário e Pagu, estava retratada nos cartazes que decoravam as paredes do último debate do curso Realidade Brasileira, oferecido pela Universidade Federal Fluminense em parceria com o MST, durante dois anos. A turma de cerca de 30 alunos, das mais variadas idades e dos mais variados movimentos sociais, incluindo sindicatos, movimento estudantil, professores, políticos e diversos outros militantes, presenciaram no dia 27 de agosto o debate "Que partidos? Que políticas?, no auditório da Geociências, no campus da Praia Vermelha (UFF).
"Muitos fins de semana nos deram fundamentos teóricos para continuarmos sendo lutadores e lutadoras do povo", assim dizia o texto pronunciado por dois alunos do curso, na cerimônia de encerramento. Virgínia Fontes, uma das professoras e mediadora do debate, endossa, diante do sucesso da experiência do Realidade Brasileira, a necessidade de relacionamento entre universidade e movimentos sociais. "O fim desse curso anuncia um trabalho obrigatório entre universidade e o MST".
A música da Internacional Comunista foi cantada pelos alunos, entre eles, Wilson Paes de Macedo, de 77 anos, membro do Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Estaduais do Rio de Janeiro (Sintuperj). "A aquisição do conhecimento não tem idade e o que aprendi aqui deveria ser passado a todos os brasileiros. A universidade cumpre, assim, a proposta de socializar o verdadeiro conhecimento, já que o sistema nos transmite um conhecimento alienante".
Partidos e Movimento Social
O tema do debate não poderia ser mais pertinente em tempos de crise política. Entretanto, o partido do governo acusado de corrupção não estava presente, pelo menos, não na mesa de debate e nem representado nominalmente.
O representante do MST, Guilherme Gonzaga, o professor da UFF e membro da direção nacional do P-SOL, Marcelo Badaró, o representante do Movimento Consulta Popular, Ricardo Gebrim e o professor do CEFET-SP e também membro da direção nacional do PSTU, Valério Arcary, foram os componentes da mesa. A entrada enfeitada com fitas coloridas que traziam frases - "Não basta conquistar a sabedoria é preciso usá-la", ou "O Pensamento é a ação ensaiando" - servia como um desafio aos formandos e também aos debatedores. Como agir para transformar a realidade brasileira? Por meio de partidos políticos e da disputa pelo poder político?
A resposta à última pergunta foi positiva, a necessidade de partidos políticos e de um programa de atuação que tenha como base a transformação socialista foi consenso. A disputa pela institucionalidade também não foi colocada em cheque, diante da ausência de um posicionamento contrário à existência de partidos entre os palestrantes, já evidente pelo próprio nome do debate. As falas trouxeram para o auditório Lênin, Rosa Luxemburgo, Marx e Gramsci. O discenso se formou em torno das opiniões a respeito das relações entre movimentos sociais e partidos, da análise de conjuntura nacional, bem como da estrutura dos dois partidos presentes à mesa - P-SOL e PSTU - além de algumas contradições apresentadas pela platéia.
A Revolução socialista
Guilherme Gonzaga cita Rosa Luxemburgo: "Venceremos se não tivermos aprendido a aprender". Para ele, embora a tarefa de hoje seja fazer a revolução, tem-se muito o que construir para que isso aconteça. O representante do MST considera a esquerda brasileira atrasada em termos de construção de um programa e de um projeto claramente revolucionários. "Precisamos construí-los de maneira que o povo fale é isso, e que não seja um projeto apenas construído no papel, mas nas lutas". Ele aponta também que os movimentos não podem ser instrumentos do partido, ao contrário, são os movimentos sociais que devem levantar as questões para a organização das frentes de luta.
Para Ricardo Gebrim, a atual condição é vantajosa ao povo para que esse construa a revolução. Ele considera que as propostas da classe dominante não oferecem alternativas nenhuma, o que abre possibilidades organizativas diante das informações mínimas a que a classe trabalhadora tem acesso a respeito da atual situação política brasileira e da condição também mínima de compreendê-la.
Já Arcary lembra que a revolução socialista não consta na maioria dos programas políticos da esquerda mundial e ironiza: "A esquerda está sendo coerente: não há revolução socialista em seus programas". Ele afirma que o regime democrático burguês impõe a ilusão de que o voto pode transformar a realidade, por isso, o quadro para que haja uma revolução não é tão favorável assim. Ao contrário de Gebrim, para o professor a burguesia tem claramente uma proposta para o povo - ela controla a mídia, controla a economia e controla, sobretudo, a mentalidade da base social da esquerda, de maneira a pressionar para que essa assuma uma posição contrária à revolução e favorável apenas a eleição.
Badaró acredita que não há uma fórmula pronta e exportável de revolução e que um projeto contra-hegemônico deve ser baseado em debate profundo, em formação de quadros intelectuais. Ele defende a organização partidária com práticas horizontais e papel autônomo da classe trabalhadora. Além disso, defende, ao passo que se contrapõe ao representante do MST, que os partidos são as 1ª células onde se "sintetiza o gérmen da vontade coletiva", de maneira a lembrar Gramsci. O membro do P-SOL aponta também para a necessidade de construção de uma frente de luta da esquerda, mas que essa não seja simplesmente pela eleição.
Valério Arcary condenou as tendências existentes no P-SOL. "Tendências permanentes são nefastas e perigosas. Deve haver tendências em debates pontuais, mas não permanentes se o partido tem um programa único". O representante do PSTU disse que a construção da unidade para a eleição de 2006 em torno da candidatura de Heloísa Helena depende do programa de governo. "Da mesma maneira que o programa deve conter também o projeto de reforma agrária do MST, o projeto de reforma universitária dos professores. Não um programa das direções dos partidos, mas de baixo para cima", completou.
O representante do P-SOL respondeu que o que dividiu o partido em tendências não foi a elaboração programática e que a unificação da esquerda deve ser em torno da denúncia do "caráter classista do governo Lula". Para ele a pressão de maneira a se dar muita importância à eleição atinge o partido, mas não é o norte deste, e que o mesmo acontece com o PSTU. "Não foi à toa que, em 2004, o PSTU escolheu fazer um ato no dia 16 para divulgar a legenda (16) do partido".
Crise política
"Apesar de toda a tragicidade, temos uma dimensão cômica no processo brasileiro que lembra o roteiro de uma opereta italiana: bingos, cafetinas, cuecas...", afirmou Valério Arcary. "Sexo, drogas e rock n'roll e assim terminou o PT", completou. Guilherme Gebrim apresentou o que considerou um balanço retrospectivo da esquerda brasileira até a atualidade.
Para ele, a história da esquerda é composta por ciclos, por períodos de hegemonia de um determinado pensamento. Ele cita o anarquismo antes de 1930, o Partido Comunista Brasileiro até 1964 e após a ditadura militar, a construção da hegemonia petista. "O PT foi o desaguador de todo o acúmulo de luta dos anos 70", disse. Com Lula no poder, fechou-se, de acordo com Gebrim, mais um ciclo, só que, dessa vez, não manteve-se uma integridade moral da esquerda. Esta é, então, enfraquecida, o que pode determinar um fortalecimento da direita. Ele foi criticado pela platéia por desconsiderar outros ciclos, como o do trabalhismo nacional com Vargas e João Goulart e outros líderes, além de Lula, nos últimos 25 anos. O representante do Movimento Consulta Popular disse que havia um grito que unificava todos os que estavam ali presente: "Lula lá". No entanto, José Pedro Viana, um dos alunos do curso afirmou, no espaço aberto para intervenções. "Eu votei no Brizola".
Em defesa do PT
Paulo Rodrigues é militante do PT desde 1987. "Vou apenas tirar o meu casaco", disse, ao microfone, no momento das intervenções da platéia. Ele tirou o casaco e em sua camiseta estava escrito na parte da frente: "Vote. Plínio Arruda neles". E na parte de trás: "De luto na luta". O militante e artista afirmou que fez a intervenção porque na atividade havia "dois partidos que são filhos do PT negando o próprio pai". O Fazendo Media conversou com Rodrigues:
Você acredita que ninguém deve sair do PT, então?
Mais do que tentar se livrar, as pessoas devem tentar resolver o problema. Um militante pensador, maduro, não pensa em fundar outro partido. È muito simples quando a coisa dá errado dizer que não tem nada a ver com o PT.
Mas e os militantes que não saíram, mas foram expulsos, como Heloísa Helena e Babá, já que foram estes que puxaram a idéia da fundação de um outro partido?
Heloísa Helena poderia ter ponderado a discussão. O que ela queria era visibilidade e conseguiu, por isso fez o que fez. Resolveu partir para o confronto para fortalecê-la. Ela está na Hebe, no Gugu... Tenho medo de que as pessoas a transformem na salvadora da pátria. Agora, eu acho que se forem comprovadas as denúncias, os políticos envolvidos na crise também devem ser expulsos da mesma maneira.
Então, o José Dirceu, o Delúbio Soares devem ser expulsos do partido?
Sim, comprovada a situação sim.
Você acha que o Plínio Arruda tem condições de ganhar a eleição interna para o partido?
Acho que sim, porque o campo majoritário está esfacelado. O Plínio resgata uma essência do partido, resgata a utopia delirante.
Utopia delirante socialista?
Sim, socialista. Acho que deveríamos até mesmo tirar delirante, é melhor utopia socialista.
Você não acha difícil defender o PT na atual conjuntura?
Não acho difícil porque acredito na essência do PT, acredito que podemos fazer uma faxina no partido. Existem parlamentares éticos.
Pode citar quais nomes você considera éticos?
Eu citaria, entre muitos, o Chico Alencar, O José Eduardo Cardoso, o Delcídio Amaral.
Você disse que acredita na essência do partido. Acredita também em Lula?
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Eu acho que é muito difícil comandar, é muito difícil ser um líder, não tem como ter ciência de tudo, você perde a referência. Você viu aquele filme do Moreira Salles, "Entreatos"? Pois é, viu como Lula às vezes ficava confuso, perdia a referência? Acho que ele deveria ser chamado a atenção. Ele está mal assessorado.
Chamado a atenção por quem?
Por parte da sociedade organizada. E desorganizada também. As pessoas não vão falar nada porque só querem dizer o que o político quer ouvir. A imprensa é assim.
Você acha que a sociedade não está, então, chamando a atenção do presidente?
Não está porque a sociedade resolveu largar de mão.
De que maneira a sociedade pode chamar a atenção do presidente?
O Grito dos Excluídos pode ser uma forma, outra forma seria a imprensa noticiar de maneira verdadeira.