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Editora: Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com


27.07.2005
CAMPO E CIDADE UNIDOS CONTRA O DESEMPREGO
Professores da UFF abrem as portas da Universidade para os movimentos sociais

Por Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com

Breno Costa/www.fazendomedia.com

Milton Viário, Virgínia Fontes, Gilmar Mauro e Ana Motta trazem os problemas do campo para a universidade

Pensar na união dos movimentos urbanos e rurais e desconstruir o conceito de separação imposta pelo neoliberalismo. Essas idéias floresceram em um domingo (24/7), dez da manhã, no pátio do Instituto de Geociências da UFF. Num espaço inusitado, com bancos improvisados, os palestrantes Milton Viário, Virgínia Fontes, Gilmar Mauro e Ana Motta impuseram sua vozes a uma platéia de quase cinqüenta pessoas atentas para os problemas do campo presentes no cotidiano urbano, sendo, portanto problemas da sociedade civil. O tema do debate era "Cidade e Campo: dois mundos, uma mesma luta?", encerramento do curso de extensão Realidade Brasileira.

Na primeira parte do encontro, uma contextualização sobre os três momentos históricos que marcaram a relação campo e cidade no Brasil. Durante 400 anos houve o predomínio do campo, não somente como fator físico, mas político-econômico com uma agricultura de exportação baseada na grande propriedade de terra. Na década de 1930, o segundo momento, o surto industrial do governo de Getúlio Vargas, também dono de propriedades rurais no Rio Grande do Sul, marcam o início do predomínio da cidade. Como resultado, a reconfiguração das formas de organização, de pensamento e de novas pressões sobre os trabalhadores rurais devido a novas demandas sociais. Estes foram expulsos do campo (êxodo rural) pelas escassas condições de trabalho que não garantiam a sobrevivência das famílias campesinas.

Vigínia Fontes, historiadora e professora do mestrado da UFF, destaca o terceiro e atual momento histórico: predomínio da cidade sobre o campo, sendo que este também é industrial. Desta forma, a segregação entre os dois se amplia com a classe dos desempregados desfragmentada tal como deseja o capital. Assim, enormes massas são controladas por pequenos grupos através da exploração do trabalho.

O neoliberalismo, segundo a professora Virgínia, pratica três violências com os trabalhadores: a física - com o aumento nos últimos cinco anos da repressão aos sindicatos; a simbólica - desqualificação do popular, tratado de forma caricata, além da expropriação dos direitos e da existência. "A cordialidade, crítica de Sérgio Buarque de Holanda, passa a ser elogio. A expropriação só produz seres para o capital, que deixam de ser humanos".

A construção dos muros entre cidade e campo foi um dos temas do debate. A socióloga da UFF, Ana Motta, diz que a própria academia, durante muitos anos, se recusou a falar de camponês como classe em conciliação com a visão dos sindicatos urbanos que não acreditavam no vigor das lutas camponesas. Uma nova conceituação de classe se fez necessário, agora tratada como um grupo que pensa como conjunto e luta em nome dos objetivos desta unidade.

A proposta apresentada pelo grupo é a união dos movimentos sociais - urbanos e rurais - formando uma classe que está crescendo: a dos desempregados. O Movimento dos Sem Terra tem trabalhado para conseguir alianças baseadas na proposta do movimento como esclareceu o representante do MST de São Paulo Gilmar Mauro. "Primeiramente, devemos entender que o campesinato está no capitalismo. O campo é mais um espaço de valorização do capital. A partir de uma luta pela terra temos uma politização dos militantes. Isso nos difere do movimento sindical que acha que o líder vai resolver os problemas da massa". Além disso, o MST trabalha com outras estratégias: um processo pedagógico para a politização, o ideal de organicidade - para acumular forças e não se cristalizar com uma conquista imediata, a unidade ideológica em torno de um horizonte, autonomia política-financeira, o trabalho em dimensão nacional e articulação com outras lutas. O dirigente do sindicato dos metalúgicos do Rio Grande do Sul, Milton Viário, falou da experiência desenvolvida com o MST e a Via Campesina ressaltando o aprendizado teórico e prático adquirido para fugir do imobilismo e ociosidade dos dirigentes sindicais.

A aliança com os movimentos urbanos é contra um inimigo comum. E essa desarticulação, aprofundada em tempos atuais, teria um teor ideológico, pois a questão urbana é vista somente como um problema social e não político pela sociedade. A mensagem final foi a criação do "pobretariado" para desmoronar os muros artificiais que dividem a cidade do campo, um mundo, uma mesma luta.


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