......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com


26.11.2005
MEUS PRIMEIROS ALUNOS

Por Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com

Uma vez eu tive um sonho, muito lindo, de melhorar o mundo. E resolvi trabalhar em educação.

Até hoje me lembro da minha primeira experiência em sala de aula numa escola estadual do interior do Rio de Janeiro. Jovem, recém-formada, querendo fazer tudo pelos alunos. A diretora me recebeu e me entregou uma classe de alfabetização (CA) com 48 alunos, entre 10 e 14 anos de idade. Eu arregalei os olhos: "Isso tudo?!". Em suas palavras: "Mas você não precisa se preocupar porque eles são retardados mesmo; já estão em CA há mais de quatro, cinco anos e não aprenderam nada".

Pensativa, fui conhecer meus novos alunos que estavam ansiosos à espera da nova professora. A sala estava cheia. Olhares curiosos me espreitavam das carteiras. Todos se levantaram, como era de hábito ao saudar alguém que chegasse. Em meio àquele silêncio, a diretora me apresentou e se retirou. "Agora é minha vez", pensei, bastante ansiosa também.

Nesse primeiro dia, conversei bastante com os alunos. Pedi-lhes que se apresentassem, dizendo seu nome e contando algo de suas vidas. Foi muito interessante tudo o que escutei. Foi chocante pra mim, também, naquela época, o contato com uma realidade tão dura. Crianças muito pobres, todas trabalhavam para ajudar os pais - umas na roça capinando, plantando, colhendo, levando para vender; outras em casa, na lida diária, cozinhando, lavando, cuidando dos irmãos menores.

Naquele dia, peguei o ônibus de volta com os pensamentos em turbilhão. Muito do que eu tinha lido me vinha à cabeça - princípios da didática, teorias psicológicas, dados de sociologia; o que eu havia aprendido a confeccionar de material didático, não só para suprir as carências da escola pobre, mas para enriquecer as aulas dadas. E, aos poucos, fui-me animando. Chegando a casa, mãos à obra! Preparei meu plano de curso, no qual baseava minhas aulas. À noite, nem consegui dormir tranqüila, tal a vontade de trabalhar para modificar a dura realidade daquelas vidas das quais agora eu participava. E decidi que nós iríamos vencer.

Assim, comecei o meu trabalho. Quando entrava em sala, era como se eu entrasse em outro mundo. Além dos ensinamentos da alfabetização, nós conversávamos, contávamos histórias, cantávamos; na hora do recreio, nós brincávamos, corríamos, nos divertíamos juntos. Eu cortava as unhas de quem precisava, ia à casa de alguém que faltasse para saber o que havia acontecido; se alguém caía e se machucava, eu levava ao Posto de Saúde pra ser medicado. E assim o tempo foi passando...

E eu pude observar as modificações ocorrendo. Ninguém mais faltava às aulas; as meninas usavam o mesmo "rabo-de-cavalo" que eu; diariamente eu ganhava flores; algumas mães iam à escola conhecer "a professora que está fazendo meu filho gostar da escola". Enfim, muita coisa mudou.

Ao final do ano, tive a grande satisfação de oferecer a meus alunos um livro, com dedicatória individual, em sua "Festa do Livro". Todos foram alfabetizados, sem dificuldades pedagógicas.

O que aconteceu, afinal? Eles não eram "retardados"? Claro que não! Eram crianças sem infância, que trabalhavam duro em casa, e que passaram a se interessar pela escola no momento em que lá puderam vivenciar uma outra realidade, onde responsabilidade e sonho se mesclavam e lhes davam a esperança de dias melhores.

Na verdade, de minha parte foi preciso apenas amor e dedicação para conseguir realizar o meu sonho. Porque, com certeza, o mundo daquelas crianças se tornou melhor!


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