......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



26.09.2007
SOBRE O OFÍCIO DE EDUCAR

Por Denilson Botelho (*) - denilson@fazendomedia.com

Prezadas alunas,

Somos a partir de agora colegas de profissão inseridos num mesmo campo de atuação que é a educação. De minha parte, fiz a escolha de ser professor há exatos vinte anos, quando ingressei no curso de História. E apesar de assistir outros colegas fazendo escolhas profissionais mais promissoras naquele final dos anos 80 do século passado, não me arrependi jamais de abraçar com convicção a minha vocação. Esta vocação, que a partir de agora compartilho com vocês, consiste em extrair imenso prazer daquilo que é a essência da nossa existência: a aprendizagem e a busca pelo conhecimento. Na área de educação, o que mais me encanta é ver o outro crescendo, progredindo, se qualificando e se apropriando dos conhecimentos que precisam ser compartilhados através dos tempos.

Nesse processo, a figura do educador é transitória, passageira, mas por vezes marcante. Tão marcante que, devo admitir, até hoje eu me inspiro naqueles que no passado foram meus mestres e consolidaram em mim a escolha pelo magistério.

É bem verdade que a história da educação no nosso país tem sido uma tragédia, evidenciada pela permanente exclusão dos mais pobres no que diz respeito ao acesso ao ensino de qualidade seja em que nível for. Salários baixos e uma precariedade generalizada é o que tem caracterizado a realidade da nossa profissão.

Mas saibam que à despeito de toda a imensa frustração que temos vivido ao longo das últimas décadas, não há motivos para desanimar ou esmorecer. Estou certo de que estamos lutando pelos ideais que precisam ser defendidos e devemos persistir nessa luta como quem cumpre uma missão. Afinal, persistir na luta com nosso trabalho diário é o que nos alegra e faz prosseguir.

Nesse sentido, talvez valha à pena lembrar aqui uma breve historinha. Certa vez, ao ser entrevistado pouco antes de morrer, perguntaram a Darcy Ribeiro se ele não se arrependia das escolhas que fez ao longo da vida, já que fora sempre derrotado. Lutou pela preservação dos índios e estes foram dizimados. Lutou contra da Ditadura Militar e foi perseguido e exilado. Lutou pela escola pública de qualidade e tempo integral no Rio de Janeiro e ela foi desmontada após uma curta experiência. Pois do alto da sua sabedoria e à beira de sofrer sua última derrota contra a doença que o vitimara, Darcy deu uma resposta que nos serve como uma bela lição. Darcy observou que preferia estar do lado dos que perdem lutando do que ao lado daqueles que o derrotaram sistematicamente. As derrotas que sofreu só dignificam a sua trajetória, ao contrário das vitórias que tanto envergonham os que o derrotaram.

Na missão que temos como educadores o uso da palavra e das idéias são nossas principais ferramentas de trabalho. E acreditem: é através delas que podemos nós também mudar o mundo. Não necessariamente fazendo uma revolução, mas militando sim na crença de que podemos construir um futuro melhor com nossos pequenos gestos cotidianos pautados pela ética e pela defesa da cidadania. Nesse sentido, temos em mãos algumas poderosas armas: as palavras e as idéias. Certa vez, analisando a reflexão francesa sobre a diversidade humana, num livro intitulado Nós e os outros, o lingüista búlgaro radicado na França Tzvetan Todorov afirmou com muita propriedade:

“Sozinhas, as idéias não fazem história, as forças sociais e econômicas também agem; mas as idéias não são apenas puro efeito passivo. De início tornam os atos possíveis; em seguida, permitem que sejam aceitos: trata-se, afinal de contas, de atos decisivos. Se eu não acreditasse nisso, por que teria escrito este texto, cujo objetivo é também agir sobre os comportamentos?”

Portanto, se não acreditássemos no quanto somos capazes de fazer, de realizar e construir com nossas idéias e palavras, o que estaríamos nós fazendo aqui hoje nesta formatura?

Assim sendo, agradeço-lhes mais uma vez pela homenagem e parabenizo a todas pelo importante passo que deram formando-se no ofício da palavra e das idéias.

Muito obrigado.

Observação: Instado a discursar como Paraninfo na formatura de uma turma de Pedagogia, o texto acima é uma reprodução do discurso proferido na noite do último dia 21 de setembro, no Rio de Janeiro.

(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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