
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
26.09.2006
O DESTINO DOS DIFERENTES
Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br
Antropologia Cultural é uma das disciplinas que tenho lecionado nos cursos de Comunicação Social nos últimos anos. Trata-se de uma cadeira cuja finalidade é familiarizar os alunos com os procedimentos teórico-metodológicos que integram o ofício do antropólogo. Discute-se, por exemplo, a questão da alteridade, da diferença e da diversidade nesses tempos de globalização.
Nesse sentido, a antropologia constitui-se num campo do conhecimento em que obrigatoriamente somos levados a refletir sobre o outro, o exótico, o diferente de nós, seja lá em que circunstância for. É um aprendizado que serve de antídoto contra o senso comum, os preconceitos e a intolerância ainda tão presentes nesse novo século recém-iniciado.
Talvez por isso, todo e qualquer estigma desperte em minha consciência profunda inquietação e até mesmo indignação. Sempre penso nos inúmeros casos de pessoas que, vítimas do preconceito, costumam ter o seu caminho precocemente bloqueado. É a criança que na escola é vista pelos professores como "aquele moleque que não tem mais jeito", é a criança pobre que se vê cercada daqueles que lhe negam um futuro digno, ou são os negros aos quais nem mesmo a política de cotas há de assegurar um lugar ao sol no mundo acadêmico - entre tantos outros exemplos que poderíamos enumerar.
O que você diria sobre o provável destino de uma adolescente rebelde que engravida do namorado aos 16 anos e decide ter sua filha ao invés de abortá-la, como é tão comum? E se essa garota, logo abandonada pelo pai de sua filha, deixasse de lado os estudos para só mais tarde retomá-los na forma de um supletivo? Certamente essa jovem seria aquele tipo de pessoa que muitas vezes, por descuido ou preconceito, classificaríamos como alguém que tem tudo para dar errado na vida, não é mesmo? Alguém cujo futuro desenha-se de modo nada promissor.
Pois saiba que aquela adolescente hoje é uma mulher à beira dos 30 anos, que constituiu uma nova família, está casada e tem duas filhas. Além disso, construiu até aqui uma trajetória repleta de êxitos, ainda que obtidos através da superação de inúmeros obstáculos. Em 2006, por exemplo, formou-se em jornalismo e acaba de ser aprovada para um conceituado programa de pós-graduação em Comunicação Social no Rio de Janeiro.
Essa mulher, que tinha tudo para não dar certo, foi minha aluna há alguns anos. Cursou antropologia e ensinou-me um pouco dessa disciplina com sua própria trajetória de vida nada promissora. Fortaleceu dentro de mim a convicção tipicamente antropológica de que é melhor conhecer do que julgar. Por trás de um aparente fracasso pode existir um ser que sonha e almeja vôos mais altos do que aqueles que admitimos que seja capaz de voar.
Portanto, tratemos de educar o nosso olhar e a nossa sensibilidade. Afinal, o caso aqui descrito é só um exemplo entre muitos outros que certamente circulam diante de nossos olhos diariamente…
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.