......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com


26.09.2005
SONHOS POSSÍVEIS
A história de um jovem e um desejo: estudar

Por Carolina Rangel - rangel@fazendomedia.com

Ser pesquisador. Este é o desejo de João, 26 anos, garçom. De uma família de quatro irmãos, João é o único que pretende entrar em um curso superior. "Quero me sentir mais valorizado e deixar de se sentir inferior". Os pais eram semi-analfabetos. Ele começou a trabalhar aos 14 anos, momento em que o pai, encarregador de obras, faleceu.

Para sustentar a casa e ajudar a mãe, costureira, todos os irmãos tiveram que trabalhar cedo. A escola se transformou em uma mera lembrança de infância. Até João parou de estudar. Em 2002 a mãe faleceu e ele passou a morar de favor em um quartinho na casa da sogra.

A humilhação constante no trabalho desde os clientes desagradáveis - alguns chegaram a xingá-lo - aos desmandos do patrão que acumulava no serviço de garçom outras funções como desentupir vasos sanitários e auxiliar de obras fez com que João voltasse para a escola. Ele está finalizando o Ensino Médio no Colégio Público São Gonçalo e estuda para o vestibular de Física da Universidade Federal Fluminense (UFF).

João já faz parte dos 26% dos brasileiros entre 15 e 64 anos que são plenamente alfabetizados. Este dado divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro no dia 8 de setembro deste ano (2.000 entrevistados em todo país) significa que um quarto da população brasileira consegue ler e interpretar textos corretamente. Esta mesma fatia é o público leitor da mídia impressa. O restante da população se informa pelo rádio e, sobretudo pela televisão. O poder do veículo audiovisual se explica, em parte, pela baixa escolaridade dos telespectadores.

João é um personagem real. Tem desejos comuns a todo brasileiro: emprego fixo, casa própria, um carro e viver bem com a família. Quando diz que quer se dedicar à pesquisa alguns riem e outros o desencorajam. Mas João insiste. Quer ser respeitado num país que não valoriza o trabalhador braçal apesar de apenas 2% da população possuir curso superior. (índice do IBGE de 1996).


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