
25.06.2007
MITO DA IMPARCIALIDADE
Por Denilson Botelho (*) - denilson@fazendomedia.com
O aprendizado da história pode constituir-se numa significativa contribuição para a formação de futuros jornalistas. Não me refiro apenas ao entendimento do que tornou possível este ou aquele episódio, mas sim à compreensão da própria natureza do conhecimento histórico. Desta forma, abandonar-se-ia de uma vez por todas a ingênua tentativa de apresentar os fatos com neutralidade, imparcialidade e isenção que ainda atormenta jornalistas em formação ou mesmo formados.
Nesse sentido, seria interessante esboçar aqui uma breve analogia entre o ofício do historiador e o do jornalista. Afinal, o que chamamos de apuração no trabalho desenvolvido pelo repórter muito se aproxima da pesquisa de fontes que é a base da historiografia. Ambos têm sua atenção voltada para a compreensão dos fatos do passado ou do presente. Mas é preciso que se tenha clareza de que isso jamais resultará em conhecimento "neutro", "isento" ou verdadeiro sobre os acontecimentos.
Historiadores, jornalistas e cientistas sociais em geral não detêm a verdade sobre os fatos. O que não significa que sejam mentirosos contumazes. Um romancista pode recriar o passado ao seu bel prazer, inventando personagens inspirados ou não no que de fato ocorreu. Tem, portanto, carta branca para mentir - ainda que suas mentiras até pareçam plausíveis.
Contudo, embora jornalistas e historiadores não detenham o monopólio da verdade, têm sim um compromisso inequívoco com a verossimilhança. Ou seja, produzem versões que se aproximam bastante do que de fato ocorreu. Mas não passam de versões que jamais podem ser confundidas com a verdade.
O ponto de vista do observador (seja ele um jornalista ou não), sua orientação político-ideológica e a mediação das fontes (apuração) sempre estarão presentes na versão elaborada, ainda que se tente negar ou ocultar tais influências.
Portanto, não existe conhecimento neutro e imparcial dos fatos, nem mesmo quando apresentados por um jornalista ou historiador. Não adianta insistir na busca da verdade. Cabe-nos aceitar humildemente que não há alternativas à polissemia sempre presente no conhecimento sobre os fatos do presente ou do passado. É por isso que se diz que para cada fato podem existir, no mínimo, duas versões.
Em 1964, por exemplo, a brusca interrupção do governo João Goulart ensejou interpretações que ora apontam para uma revolução, ora para um golpe civil-militar. Não se deve classificar essa ou aquela versão como verdadeira ou falsa, mas sim conhecê-las e escolher qual delas melhor coaduna-se com a sua visão de mundo, suas convicções políticas, etc.
No jornalismo, que é uma atividade através da qual entramos em contato com a realidade em que vivemos, a verdade e a imparcialidade só podem ser vislumbradas num horizonte de possibilidades dominado pela ingenuidade ou pela má fé.
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.