......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



25.01.2007
O SILÊNCIO DO PAC

Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

Morador da zona norte do Rio, outro dia achei que poderia usufruir dos mesmos serviços que a banda mais rica da cidade, aquela do lado de lá do túnel Rebouças, dispõe habitualmente. Pretendia ir ao teatro e fui informado de que havia um ponto de venda informatizada de ingressos num posto de gasolina situado ao lado da UERJ e diante do Morro da Mangueira. Pensei que enfim alguma modernidade começava a alcançar essas regiões historicamente negligenciadas por nossos alcaides, inclusive o atual.

Ao entrar na loja de conveniências do posto, conduzi-me animado em direção ao caixa e perguntei sobre a venda dos tais ingressos. Fui encaminhado a uma jovem negra e uniformizada cuja função aparentemente era esta. Diante dela havia um computador e uma impressora da qual deveriam sair os ingressos. Deveriam. Depois de esperar alguns minutos, fui informado de que não seria possível efetuar a compra desejada. A jovem e uma suposta supervisora travaram uma rápida batalha com o computador e foram derrotadas. Não conseguiam resolver o problema e dispensaram os clientes.

Fui embora sem saber exatamente a razão pela qual a venda foi inviabilizada. Mas sai dali tomado por uma sensação que não é nova e que muitas vezes tem se repetido diante dos meus olhos. Refiro-me a esse embate cruel entre jovens trabalhadores no setor de serviços e os computadores. São situações que revelam o quanto esses indivíduos estão reféns de máquinas cujo funcionamento não compreendem e que podem colocar tudo a perder: do emprego tão difícil de conquistar até a concretização de toda e qualquer transação comercial.

É como se naquele instante eu vislumbrasse o que está à espera do meu aluno do ensino fundamental da rede pública, que desce o morro todo dia até a escola em busca de um futuro que ninguém sabe ao certo como será - mantidas as atuais condições de acesso à saúde, educação e cidadania. Não é o aprendizado da informática que lhe falta, mas sim a capacidade e as habilidades necessárias para ler o mundo a sua frente ou na tela do computador.

Mas estamos em janeiro de 2007, começo de um novo ano e de um novo mandato de Lula. O presidente acaba de lançar um Plano de Aceleração do Crescimento, já vulgarizado no noticiário pela sigla PAC. Aguardei o anúncio do tal plano ansioso, na expectativa de que algo de substancioso seria apresentado para a área de educação. Afinal, se a idéia central é fazer o país crescer rapidamente, não há como negar o papel a ser desempenhado por este setor estratégico em todos os níveis, desde a educação infantil até o ensino superior.

Nem mesmo no campo salarial há sequer alguma tentativa de repor perdas acumuladas ao longo dos anos 90 e dessa década que já caminha para o fim. Não há nenhuma valorização do magistério enquanto carreira pública, nenhum plano auspicioso para alavancar o nosso crescimento de forma estrutural, calcado necessariamente numa "revolução" pelo ensino. O Lula candidato falava da necessidade premente de inverter prioridades num país tão desigual; já o presidente...

Em 1870, quando o Brasil vivia sob um regime monárquico, um grupo de intelectuais, bacharéis e políticos lançou o chamado Manifesto Republicano. Entretanto, a república desenhada no tal manifesto continha um silêncio perturbador. Éramos um país mergulhado tardiamente num vergonhoso regime escravocrata e aqueles republicanos de vanguarda foram incapazes de se pronunciar sobre o que aconteceria com a escravidão quando o projeto republicano se tornasse vitorioso. A razão do silêncio é que tais republicanos não queriam causar descontentamentos à classe dominante da época, composta de grandes latifundiários e senhores de escravos, a famosa e secular elite agro-exportadora.

Por que será que um "ambicioso" plano de aceleração do crescimento também contém um silêncio tão vergonhoso sobre a educação? A quem não se pode causar descontentamentos? Qual a razão do silêncio?

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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