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24.11.2006
EDUCAÇÃO E RACISMO NO BRASIL

Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

Recentemente o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os resultados de uma pesquisa confirmando que o Brasil entrou no século XXI arrastando ainda a pesada herança de quase quatro séculos de escravidão. Constatou-se, por exemplo, que os negros em geral recebem hoje metade dos salários recebidos pelos brancos. Além disso, quanto mais elevado o nível de formação escolar entre negros, maior é o índice de desemprego. O estudo foi feito com base na Pesquisa Mensal de Emprego (http://www.ibge.gov.br/).

Eis aí uma inquietante constatação para todos aqueles que ingenuamente creditam apenas à educação a capacidade de reverter tais injustiças históricas e retirar da exclusão sócio-econômica nossa população negra. Por outro lado, esse quadro reforça ainda mais os argumentos daqueles que defendem a política de cotas nas universidades públicas, dentre tantas outras políticas afirmativas. É forçoso refletir sobre o papel da escola e das instituições de ensino nesse campo.

Não faz muito tempo que a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz divulgou uma interessante pesquisa realizada em São Paulo "com o objetivo de entender de que maneira, cem anos após a Abolição, os brasileiros definiam o racismo vigente no Brasil" (ver Racismo no Brasil. São Paulo, Publifolha, 2001, p. 76). "Os resultados da investigação foram simples e reveladores: enquanto 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito, 98% disseram conhecer, sim, pessoas e situações que revelavam a existência de discriminação racial no país". Curioso retrato esse do racismo: quase ninguém nega sua existência, embora não reconheça sua prática cotidiana.

Talvez isso ajude a explicar porque nossos presídios e cadeias estão ocupados por uma população carcerária majoritariamente negra e pobre. O cinismo e a hipocrisia reinante podem até brandir a velha e desgastada - e inaceitável - associação entre pobreza, miséria e crime. Mas em sã consciência, é preciso admitir que os crimes de colarinho branco raramente colocam atrás das grades seus autores. Quantos e quantos corruptos e sonegadores endinheirados continuam a circular impunemente por aí, a bordo do último modelo de um carro de luxo?

Por outro lado, a universidade tem dado sua inestimável contribuição para perpetuar esse racismo secular que se verifica nas prisões e também nos níveis de ensino fundamental e médio. Senão, vejamos.

Lá se vão quase vinte anos do meu ingresso no ensino superior. Era uma turma de cerca de 25 alunos, no Curso de História da Universidade Federal Fluminense, do qual até hoje saem professores (na sua maioria) e pesquisadores. Era uma turma majoritariamente branca, a não ser pela presença de dois ou três alunos: Álvaro, Andréia... e só.

Álvaro morava no distante subúrbio de Turiaçu, nas imediações de Madureira. Negro, pobre e suburbano, durante o dia trabalhava no centro do Rio de Janeiro e à noite, exausto, cruzava a baía de Guanabara de barca para assistir às aulas em Niterói.

Numa excepcional trajetória de superação, Álvaro Pereira do Nascimento não só formou-se, como também tornou-se mestre e doutor em História. Parte de suas pesquisas, cujo tema sintomaticamente era a Revolta da Chibata, de 1910, foi premiada pelo Arquivo Nacional em 1999, resultando na publicação do livro intitulado A ressaca da marujada (Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2001). A relevância do tema parece continuar em pauta, pois se fisicamente a chibata se foi (foi?), ela continua humilhando sutilmente os negros por aí, a cada esquina.

Em meio ao curso de doutorado, esteve num congresso internacional de pesquisadores em Portugal. Ao relatar essa experiência acadêmica ao jornalista Mauro Ventura (Jornal do Brasil, Caderno B, 15/04/2000), ressaltou o desconforto que lhe causara uma estranha constatação: deu-se conta de que era o único negro presente naquele evento em Lisboa. Havia ainda uma professora negra. E só!

Fico pensando sobre quão pedagógica é hoje a presença de Álvaro no corpo docente de uma universidade pública situada em plena baixada fluminense, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Professor Adjunto de História, concursado, ele é um exemplo no qual muitos outros negros e pobres podem se espelhar - sem desconforto -, embora o Brasil insista em renegá-los.

Quantos outros Álvaros há por aí? De quantos outros ainda precisaremos para derrotar o racismo?

Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.


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