
Editora: Sheyla Murteira - sheyla@fazendomedia.com
23.08.2006
ENTREVISTA: MÔNICA TOLIPAN
Marcelo Salles/fazendomedia.com

Mônica Tolipan exibe seu livro "Uma presença ausente"
> Continuação
Sheyla - E, afinal, aquele menino de 8 anos que era um bebê?
Esse menino estava sentado, com as perninhas abertas, como um bebê de 6 a 8 meses; então, de repente, ele esticou os braços, como se estivesse acordando e se espreguiçando, se levantou e começou a andar, meio cambaleante, e a partir daí passou a caminhar. A mãe, ao despertar da hipnose, teve uma emoção enorme ao ver o filho caminhando, daí em diante ela não precisou mais usar carrinho de bebê, e ele começou também a controlar os esfíncteres. Aliás, ele tinha aprendido tudo isso na fisioterapia, então, ele sabia, mas o acesso a essa aprendizagem estava bloqueado; no que desbloqueou, ele começou a usar tudo, de modo que não foi progressivo. É como acontece com outras crianças que, de repente, começam a falar tudo. Então, eu tenho visto muito resultado coma a hipnose.
Sheyla - E como é o uso da linguagem?
Existe uma grande diferença entre eles e nós, considerados normais, que, desde que nascemos, somos inseridos numa determinada cultura, suas restrições; então, nosso funcionamento vai ser de acordo com aquela lógica. Como essa crianças ficaram mais tempo sem ingressar nessa ordem da cultura, seu pensamento percorre caminhos que nem nos ocorrem. Por exemplo, há um menino que eu considero curado, que freqüentava a 7ª série de uma escola comum e teve uma recaída na puberdade, e começou a regredir na escola e voltar para aquele estado. Aconteceu que ele foi reprovado em matemática porque ele criava equações para resolver os problemas e dava as respostas certas. Era o que acontecia com Einstein, mas os professores começaram a achar que ele estava "colando" a resposta, porque ele não sabia explicar a equação e seus procedimentos para chegar à resposta eram considerados errados. Os professores achavam que ele não tinha capacidade de raciocinar, embora ele tenha inventado equações.
Sheyla - Porque o raciocínio é diferente.
Sim, porque eles são capazes de observar coisas que nós não observamos. É aquela coisa do Ray Man de olhar e saber exatamente quantos palitos de fósforo caíram no chão de uma caixa quase cheia, isso é verdade, algumas crianças têm essa habilidade de perceber coisas mínimas. Tem outro rapaz de 17 anos que estava fazendo vestibular para engenharia, passou em tudo e perdeu na redação, cujo tema era "O pior dia que eu já vivi na minha vida", e ele não sabia o que era "pior", ele não tem essa medida.
Sheyla - E como seria uma escola para crianças autistas?
Hoje, há escolas no setor privado, mas não há professores preparados para lidar com essas crianças especiais. A experiência de comunidades terapêuticas, escolas e oficinas terapêuticas, no Rio Grande do Sul, eram feitas por psicólogos e pedagogos treinados para isso. O Rio Grande do Sul tem o Centro de Estudos, Aperfeiçoamento e Pesquisa da Infância e Adolescência (CEAPIA) - que reúne psicólogos, fonoaudiólogos, professores especializados, psicomotricistas, fisiterapeutas, pedagogos, pediatras, e a gente não tem isso no Rio de Janeiro, uma entidade onde as crianças sejam atendidas por diversos profissionais que pensem essa questão individualmente e/ou em grupo. O que existe no Rio de Janeiro é o Centro de Desenvolvimento do Humaitá (CDH), que eu acho excelente, mas é particular; a Escola Carolina Patrício, no Recreio dos Bandeirantes, é muito boa e séria, mas também é particular; e algumas escolas abertas a receber crianças com dificuldades, por exemplo, a Escola Éden e a Eduardo Guimarães.
Sheyla - Você acha importante que essas crianças freqüentem a escola regular?
Sim, a maioria das crianças que eu estou tratando está em escolas do sistema regular de ensino, que é o ideal, que convivam com outras crianças. Hoje, os mitos da normalidade estão caindo porque não se sustentam num ideal de perfeição. A normalidade, hoje, é um padrão estatístico. Por exemplo, as crianças se sentam aos seis meses; então, não é ideal, é uma constatação. A maioria é neurótica, então a normalidade é neurótica. Cada cultura, conforme a época, trata suas diferenças de formas especiais, como deuses ou como insanos e excluídos.
Sheyla - exclusão sempre houve, e muito. Hoje, está começando a haver uma sensibilização da sociedade, até através dos meios de comunicação, com propagandas que enfatizam o slogan "ser diferente é normal", e que visam preparar as pessoas para conviverem com a diferença.
Ainda vivemos resquícios dos princípios do nazismo, do arianismo, de que existe um modelo que é bonito, perfeito, e que deve ser assim. Não tem escrito em lugar algum que as pessoas têm que ser e agir de determinado modo; elas podem encontrar felicidade de várias maneiras.
Sheyla - Você citou vários casos clínicos seus. Haveria algum, em especial, que você gostaria de deixar registrado?
Esse menino que eu cito no livro e que eu chamei de Faustino. Ele, hoje, está com 23 anos e tem uma banda de rock. Eu tratei dele criança, voltei a tratá-lo na puberdade e já faz cinco anos que ele interrompeu o tratamento. E ele está muito bem, eu faço um follow-up dos pacientes, gosto de saber como eles estão, quando é possível. É importante ter um retorno, saber dessas crianças, que hoje são adultos e que estão vivendo uma vida normal.
Sheyla - Eles tiveram a sorte de encontrar Mônica Tolipan, porque há tão poucos profissionais que se dedicam a tratar dessas crianças e que conseguem algum resultado.
É verdade, é muito difícil mesmo, é uma coisa nova.
Sheyla - Você está investindo com seu método, com a hipnose, e está conseguindo resultados que outros talvez levem anos e consigam uma espécie de adestramento para realização de tarefas, mas não um resultado no sentido de uma constituição do sujeito.
Sim, porque é importante que eles saibam o que é inteligência, o que é saber, aprender, o que é ser, e que façam um questionamento de tudo isso. Há uma associação de autistas nos Estados Unidos que se reúne e eles usam símbolos para dizer se os outros podem ou não se aproximar; às vezes preferem ficar sozinhos.
Sheyla - É uma coisa mecânica.
Sim, e eu acho que a idéia é poder estabelecer uma troca mesmo, entre essas crianças e as outras, porque elas dão muitas voltas para obter esse efeito de normalidade. E, agora, eu estou indo no sentido da construção de personagens, porque estou constatando, com essas crianças, que todo ser humano constrói um personagem para poder lidar com o mundo, e essas crianças não têm esse personagem, então, têm que construí-lo. E é através delas, com o estudo do patológico, que eu estou descobrindo o normal.
Sheyla - Você acha que elas não têm a fantasia?
Não, não tem fantasia e não imaginam. Descobri isso como Faustino, que ficou muito contente com a hipnose porque ele conseguiu imaginar.
Sheyla - E a fantasia é tão importante para o ser humano, é onde ele se refugia tantas vezes, onde sonha e constrói seus projetos...
Exatamente. E os autistas, agora, estão começando a perceber que têm esses recursos e a aprender a usá-los. E isso nos faz pensar que recursos a gente tem à disposição e não usa. Então, eles abrem um leque muito grande de pesquisa pra muitas áreas.
Sheyla - Você vai se lançar a isso?
Eu estou escrevendo outro livro. Mas o fato de ter-me exposto na universidade foi uma experiência muito ruim, que afetou minha clínica e meu trabalho, e os medos e fantasmas vêm todos à tona. Então, eu tenho várias idéias pra continuar pesquisando, falta decidir. A volta pra Academia seria interessante, ela ajuda a sistematizar, e hoje tem gente aberta. Mas eu não iria mais pra PUC, não. Tentaria UERJ, UFRJ... Porque fazer uma tese pra confirmar o que já se sabe, não vejo sentido, a idéia é realmente fazer uma aventura intelectual.
Marcelo Salles/fazendomedia.com

Sheyla Murteira e Mônica Tolipan
Marcelo - Mas, aí, as pessoas que só usam 10% do cérebro não entendem...
Não entendem e ficam muito assustadas.
Sheyla - Sentem-se muito ameaçadas. E essas pessoas não conseguem ter a humildade de dizer: "Eu não sei isso". Por isso, barraram a sua tese. Daí, a pergunta que foi feita...
"Quem vai te orientar se você resolver ir pelo caminho da hipnose"?
Sheyla - Ou, traduzindo: "quem vai ter a humildade de estudar junto com você?" É aquela idéia de que tem que ser superior, saber tudo.
E a verdade é que, até hoje, não se sabe exatamente descrever o que é esse fenômeno da hipnose, que eu acho fascinante. Também me fascina o mundo da psicanálise e da pesquisa, e acho que há uma contribuição social grande, mas às vezes, lá no fundo, dá vontade de voltar pra política. Mas, a gente acaba indo pra um escoadouro comum que é a educação. O meu trabalho vai em direção à formação de cidadãos que possam respeitar as diferenças e conviver com elas. Eu gostaria, também, de fazer um documentário, porque livro nem sempre as pessoas lêem. Pela internet se lê mais. E a imagem daria à teoria uma forma mais dinâmica, digamos assim.
Sheyla - E seu livro, onde pode ser adquirido?
As livrarias, de modo geral, têm; ou, então, a editora [Jorge Zahar]. Eu não sei como está a distribuição, atualmente. Estou terminando outro livro, aí então eu vou em direção ao mito ou à construção do personagem, não sei. Acho que abri demais o leque das opções, tenho que restringir para poder dar um rumo à pesquisa.
Sheyla - Então, boa sorte pra você, Mônica, e muito obrigada por sua atenção.